Como me preparei para ministrar uma palestra em inglês

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Há cerca de um mês, eu estive em Amsterdam para participar do evento GTD Summit, um evento único global de fomento ao método GTD™ – o método de gerenciamento da vida que eu utilizo.

Em setembro do ano passado eu fui informada da possibilidade de participar como palestrante, mas o convite oficial veio apenas em janeiro, quando eu efetivamente comecei a me preparar.

Não houve pedido de assunto específico, e sim um tema geral, em aberto, que todos os convidados a serem palestrantes poderiam interpretar à sua maneira: como você usa o GTD™ para criar espaço na sua vida e fazer o que quiser? Esse direcionamento chegou apenas alguns meses depois – acredito que um mês antes do evento em si, mais ou menos, então esse foi o tempo que eu levei para preparar a apresentação.

Photo by Dan Taylor

Meu preparo começou em janeiro em algumas questões, como a prática mais intensiva do inglês e também as técnicas de apresentação – postura, movimentação, contação de histórias etc.

Quando falo em “preparo intensivo” do inglês me refiro a estudar e treinar diariamente, de diversas maneiras. Vendo filme sem legenda, lendo artigos na Internet, fazendo reuniões em inglês e treinando leituras em voz alta (pronúncia).

É claro que esse preparo jamais poderia ter sido feito em apenas alguns meses. Desde que comecei a trabalhar como palestrante, há uns seis anos, venho estudando e praticando intensamente essas técnicas. Todos esses anos de estudos e práticas me ajudaram a ter mais segurança no palco hoje em dia. Não foi algo que aconteceu da noite para o dia.

O mesmo vale para o próprio idioma. Eu não comecei a estudar inglês em janeiro. Estudo inglês desde sempre – talvez não mais do que o português, mas há muitos anos. Por não ser meu idioma nativo, claro que há dificuldades. Então o que me ajudou, de verdade, foi praticar fluência diariamente e ir corrigindo, estudando, os aspectos gramaticais mais pontuais. Ler bastante revista, livro, reportagens em inglês ajudou com o vocabulário.

Tenho incorporado há alguns meses uma recomendação do Mairo Vergara, que é usar um aplicativo chamado Anki para guardar palavras em inglês e revisá-las diariamente. É bem legal porque, enriquecendo seu vocabulário, a fluência vai ficando muito mais fácil.

E, o mais importante: você tem que ser foda no conteúdo que quer passar. Você tem que ter algo relevante para compartilhar. É isso.

Photo by Dan Taylor

Ao ter o direcionamento do tema, eu comecei pelo propósito: o que quero que os espectadores sintam ao final da minha apresentação? A resposta: quero que eles saibam que o GTD ajuda a gente a fazer tudo o que a gente quiser, mas não tudo ao mesmo tempo. Temos muitos papéis e atividades, e podemos tender a enlouquecer se quisermos abrigar tudo. Então quero passar uma ideia de conforto, de “sinta-se abraçado”, tenho mil coisas pra fazer também, mas com priorização a gente consegue ir abrigando o que é prioridade, aos poucos.

Estabeleci alguns princípios para a apresentação. Gostaria que ela fosse inspiradora, mas também bem-humorada.

Dediquei os próximos dias então para me permitir capturar quaisquer ideias que me viessem à mente que eu poderia abordar. Reli meu livro sobre apresentações no TED e outro sobre palestras do Steve Jobs para ver se tinha ideias de “momentos” na apresentação. Essa releitura foi útil porque me deu muitas ideias. Ia colocando todas em post-its, na parede do meu home-office. Esse processo criativo durou em média uma semana, não mais do que isso.

Depois que já tinha capturado as ideias que considerava suficientes, tentei “escrever uma história”. Acredito que toda apresentação na verdade conte uma história. E só depois de ter essa linha da história em si é que comecei a pensar nos slides.

Não gosto de slides com textos, em que o apresentador simplesmente lê o que está ali. Gosto de ter um slide que mostre legal o tema visualmente, e aí eu desenvolvo falando. Esse é o meu estilo. Devem existir outros. É o que funciona bem para mim.

Montei os slides e, com base neles, redigi o script de cada um deles em uma ficha 3×5, uma para cada slide. Tudo em inglês, pois assim fui condensando a minha fala e também me permitiria treinar.

Uma vez finalizados os slides e esse script, eu treinava diariamente, em voz alta. Toda janela de tempo, todos os dias, eu aproveitava para tirar as minhas fichinhas do bolso e treinar a fala em voz alta. Não apenas para decorar, mas para corrigir pronúncias mais complicadas e verificar como o conteúdo “soava” em voz alta. Em alguns momentos, eu até cronometrava quanto tempo eu levava para falar todas as fichas, procurando sempre ficar dentro do tempo estimado para a minha apresentação.

Photo by Dan Taylor

Vale dizer que as palestras do evento foram curtas – no máximo 20 minutos, como as do TED. A minha teve 5 minutos. Era um sopro. Por isso, quis ir na base da inspiração e do bom-humor, mas trazendo um conteúdo relevante em tão pouco tempo. Acredito que tenha conseguido! Muitas pessoas vieram conversar comigo depois da apresentação, ao longo do evento, dizendo que se sentiram tocadas com o que falei, e que adoraram os elementos de humor que usei (falei sobre o meu filho, falei sobre a Arya Stark, citei uma música do KISS, enfim!).

Toda apresentação é a forma como você externaliza quem você é dentro de um determinado contexto de vida, que envolve o conteúdo que você quer passar, seu amadurecimento naquele assunto, sua idade, seu momento, sua babagem. No meu caso, faz parte de mim colocar elementos de cultura pop porque eu sou essa pessoa. Encontre quem você é para criar as suas.

Infelizmente a palestra não pode ser transmitida em outros meios porque ela pertence à propriedade intelectual do evento. Era possível se inscrever e assistir via streaming, caso tivesse interesse, mas depois do evento não tem mais como. Eu acredito que, depois de um tempo, talvez eu possa disponibilizar o arquivo. Avisarei, se acontecer.

Subir em um palco para ministrar uma palestra em inglês, em um evento internacional, para pessoas que não te conhecem (em sua maioria), foi realmente um desafio. Senti um frio na barriga gostoso que eu não sentia faz tempo, e isso mudou muita coisa dentro de mim. Na verdade, se você faz algo que te deixa na zona de conforto o tempo todo e não sente esse friozinho na barriga faz tempo, questione. Foi isso o que eu aprendi, entre outras coisas, fazendo essa palestra.

Um marco de vida, com toda a certeza. <3

15 comentários

  1. Parabéns, deve ter sido excelente =) .
    Sei que não tem muito a ver com o tema, mas como o assunto do mês é auto-cuidado:. Onde trabalho, na saúde pública, temos problemas de atender todas as demandas e temos que impor algumas coisas tbm. Infelizmente as pessoas se sentem no direito de serem rudes, quererem pular hierarquias afirmando que falarão com responsável, só porque o conhecem de perto e isso acaba estressando muito. Alguns batem a porta do estabelecimento com tanta violência e fico o dia todo muito mal. Fora que tento ao máximo não ser rude e devolver da mesma forma, mas as vezes não tem santo que aguente.
    Sou profissional de nível superior (farmacêutica) e nunca exigi ser chamada de Dra, até porque acho que isso deva acontecer de forma natural e se não acontece é que existem falhas nos meus procedimentos, mas tem dias em que sinto falta até do mínimo de educação que não deveria ser necessário ser exigido, seja por hierarquia de serviço ou não. Gostaria, se possível que você falasse um pouco sobre como lida com isso, caso tenha acontecido com você e se tem alguma dica.

  2. Oi Thaís, parabéns por mais essa realização! Amei ler sobre como foi sua organização até o dia do evento e consegui capturar varias dicas.
    Muito obrigada!

  3. Te acompanho faz tempo e admiro sua trajetória. Amei o post, as fotos e adoraria ver a palestra. Deve ser incrível a sensação que sentiu. Sucesso !!!!!!!!!!!!!!!!!! Estamos sempre com você!

  4. Olá Tais
    Adoro os seus posts.
    Você teria dicas de alguns cursos ou dicas de como se preparar para palestras?
    beijos

  5. Poxa fantástico professora. Você represente geral. Obrigado por compartilhar e nos inspirar. As dicas do Mairo são legais mesmo.

  6. Boa tarde Thaís.
    Posso usar algumas partes do seu texto: “Dediquei os próximos d…. semana, não mais do que isso.”, ” Depois que já tinha capturado as i…. si é que comecei a pensar nos slides.”, ” Montei os slides e, com base neles, redigi o script de cada um deles em uma ficha 3×5, uma para cada slide. ……o a minha fala e também me permitiria treinar.” para os meus slides? Claro que eu irei referenciar toda a fala, usando o seu blog nas referências
    Estou dando a disciplina de TCC1, que implica em como escrever e apresentar o TCC, sempre falo isso para os alunos, mas eles lerem que alguém também usa esse mesmo tipo de método, pode ser estimulá-los mais.

    Obrigado

    Yara

  7. Incrível Thais!
    Eu torço muito para o seu sucesso e sempre falo para as pessoas te conhecerem, você é uma das mulheres brasileiras que mais me inspiram a ser a melhor versão de mim mesma.
    Pena que eu sou extremamente tímida e todas as apresentações que fiz senti um frio na barriga não muito legal.
    O mundo vai ser pequeno pra ti, arrasou demais.

  8. Nossa! Eu fiquei com um friozinho na barriga por vc. Adorei saber de sua preparação. Melhor ainda é acompanhar sua trajetória. Vc nos inspira!

  9. Que momento gostoso, Thais! Parabéns por essa construção e por compartilhar o processo com a gente, gosto muito de ler como as pessoas se preparam para esses momentos (ontem tive vários insights acompanhando o processo da Beyoncé em Homecoming, por exemplo, e hoje por aqui).

  10. […] ser a única brasileira no palco do GTD Summit, um evento global do GTD, falando sobre o método, palestrando em inglês, ainda! Em nenhum momento eu foquei no “ai, eu não sou boa no inglês!”, mas sim no conteúdo […]

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