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Trabalhar sozinha

Thais Godinho

Thais Godinho

Autora do Método Vida Organizada, criou este blog em 2006.

Eu já compartilhei diversas vezes aqui no blog como, nos últimos anos, eu questionei demais todo o futuro deste trabalho e como eu descobri que, para mim, era difícil o conceito de “ser empresária”. Não tem a ver com “crença limitante”. Tem a ver com consciência de classe e com o que eu quero fazer da minha vida.

Ok, nós nunca trabalhamos sozinhos. Sempre estamos em contato com as pessoas, seja como for. Clientes, fornecedores, colegas, prestadores de serviços. Mas eu percebi que, nos últimos anos, eu estava infeliz com o meu trabalho justamente porque, com o “crescimento” da empresa, com a estruturação do Vida Organizada como uma universidade corporativa, isso me tirou do meu ofício principal (escrever e ensinar) para me colocar no papel de administradora de empresa e líder de pessoas.

E veja: eu entendo a liderança como um conceito mais amplo que simplesmente gerenciar as demandas de um time. Eu me vejo sim como líder do movimento por uma produtividade compassiva através do Vida Organizada, por exemplo, e considero esse papel de liderança importante. Ele me dá propósito para continuar com este trabalho.

O que não tem absolutamente nada a ver comigo são questões operacionais que me desconectam, até me alienam, do meu trabalho, como delegar algo para alguém e perceber, depois de meses, que a tarefa deixou de ser feita porque a pessoa não teve a autonomia de manter o processo – e eu achei que estava tudo bem. Aí eu tenho que consertar erros, reparar danos, treinar a pessoa novamente, fazer um acompanhamento etc. Ou de ter que parar tudo o que estou fazendo para resolver um problema qualquer sobre algo que nada tem a ver com o meu trabalho porque algo aconteceu com alguém. E o fato é que essas pequenas coisas do dia a dia acabaram virando regra nos últimos anos. Eu percebi que meu trabalho tinha se tornado cuidar disso a maior parte do tempo e não me dedicar ao que eu gosto de fazer.

Ao mesmo tempo que a empresa crescia, os custos também cresciam, então qual era o ponto? Eu não preciso de muito para sobreviver. Valorizo muito mais a minha rotina tranquila que lucrar mais e mais a cada mês ou ano. Claro que, dentro da lógica capitalista, a empresa crescer faz parte, senão ela deixa de existir, porque os custos de existência dela aumentam e, por isso, você precisa faturar mais para pagar tais custos e ter uma reserva para os meses seguintes, caso algo mude no mercado (como foi no caso da pandemia). Mas, nos últimos anos, isso custou a minha sanidade, a minha tranquilidade e a minha felicidade. Foi quando eu percebi isso que cheguei à conclusão de que eu não queria uma empresa. Eu queria voltar a ser autônoma. Ter um ritmo de faturamento menor, talvez, mas o meu ritmo. Administrar os projetos que eu dou conta. Fazer uma coisa de cada vez. Voltar a fazer o que eu gosto. E é isso.

Obviamente que essa não é uma decisão fácil e envolve muitas questões importantes para mim, como o desligamento de pessoas. Isso é horrível. O que eu procurei fazer foi avisar com antecedência de meses sobre como estava sendo o meu raciocínio e dando todo tempo e suporte para a pessoa se recolocar. Não tem maneira fácil de fazer isso, mas fiz o que acreditei ser melhor.

A ideia é que, a partir de janeiro 2025, eu esteja trabalhando como autônoma novamente. Não vai ser fácil, vai demandar um tempo de ajustes, mas eu sinto que tirei um peso das minhas costas e resgatei a perspectiva de felicidade que eu sentia falta neste trabalho. Estou feliz por novamente fazer tudo.

Eu não sei como será no futuro mas, no presente, me parece a melhor decisão para mim. Não existem decisões certas ou erradas – existem decisões e suas consequências. Vamos ver como será daqui em diante. Quis compartilhar esse processo com vocês. Obrigada por ler até aqui.

17 comentários em “Trabalhar sozinha”

  1. Oi Thais!
    Feliz de finalmente estar conseguindo publicar um comentário, antes estava com algum erro pra mim.
    Obrigada por compartilhar esse recorte com a gente. Gosto bastante de como você compartilha “etapas” do seu pensamento, antes que algumas coisas estejam 100% concluídas. Eu comecei a consumir o conteúdo do blog a partir desse mês e vejo que aqui acontece uma conversa bem mais próxima com você.
    Me identifico muito com a colocação de priorizar a minha sanidade, tranquilidade e felicidade. São coisas que eu não quero mais deixar em “segundo plano” em prol de outra necessidade também importante ( de ter um salário fixo…). Na verdade, eu simplesmente percebi que não consigo manter a necessidade sem que esses outros fatores estejam em equilíbrio.
    Fico feliz por você ter identificado e ter tomado logo uma iniciativa para que as coisas começassem a mudar. Espero em breve também poder encontrar uma decisão que consiga me dar paz de espírito!

  2. Oi Thais! Achei sua decisão super coerente com a visão política que você tem demonstrado. Coerência é um valor importante para mim também! Espero que seja mais feliz nessa nova fase. Abraços.

  3. Thais, parabéns pela sua coragem em seguir seu coração. É algo que eu penso aqui em relação a problemáticas que vejo/vi em projetos/empresas que resolvem escalonar. Alguns sofrem para entregar o básico de seu produto, frustrando clientes e sobrecarregando colaboradores. Não estou dizendo que é seu caso, fique claro. Fato é que sempre me perguntei: “mas tudo precisa ser grande?”. Não se trata de dizer que ninguém pode ter o desejo de ser grande, mas de questionar a lógica da escalabilidade.

  4. Olá Thais, o que você fala faz todo o sentido para mim. Sou professora, e trabalho em 3 escolas diferentes, meu trabalho é explorado, pois tenho “medo” de assumir o controle de abrir um pequeno espaço para dar aulas, precisar de pessoas e não ter o controle necessário de bancar o tal do ser empresária. A parte burocrática engessa o nosso trabalho, fazer provas, corrigir, criar mil ideias diferentes para os eventos ao longo do calendário letivo, realmente tiram o foco do ensinar.
    Pertinente demais a colocação “não preciso de muito para viver” – realmente não precisamos, colocamos luxos na nossa vida que custam nosso tempo, e acabamos por nos perder de nós mesmos. Obrigada pelo lindo texto, foi ao encontro do que eu penso, e das coisas que fazem sentido para mim.

    Forte abraço e sucesso sempre!

  5. Thais, passei pelo mesmo processo, há pouco mais de um ano. Tinha uma autopeças, com 12 funcionários, faturando bem, muito bem.
    Em 2021 minha esposa fica doente e precisa de um transplante de medula. Foi aí que o clique veio. O que estou fazendo? Trabalho 16 horas por dia, minha esposa doente, fico longe dos meus filhos, para quê? Dinheiro?
    Em 4 meses, recoloquei todos meus colaboradores, encerrei a empresa e hoje vivo muito melhor. Minha esposa se recuperou, abrimos uma cafeteira pequena, que só ela e minha filha tocam. Eu assumi um papel PJ, em uma construtora, como analista de suprimentos e PCP. Trabalho em home Office, sem correria e nem com o peso de ter 12 familias, dependendo de você.
    Estamos muito felizes, com a decisão que tomamos. Hoje ganho menos, mas entendemos que a vida não se resume a ter e sim a ser.
    Fico triste de ter levado tempo demais, para ter feito está mudança. Mas não me arrependo um minuto sequer.

    1. “…entendemos que a vida não se resume a ter e sim a ser.”
      achei linda a sua colocação, Alexandre, obrigada por compartilhar sua história com nós leitores também

  6. Confesso que gostei de sua decisão. Faz toda diferença quando trabalhamos com o que acreditamos e o dinheiro vira consequência somente do trabalho em si. Gosto das aulas do MVO mas algumas pessoas de sua equipe, na minha opinião, não são vocacionadas com o MVO e a gente sente isso, já que estamos acostumados com você, uma pessoa hiper vocacionada. Todas as pessoas podem ganhar dinheiro, mas trabalhar com algo que realmente acredita, infelizmente, poucas tem este privilégio. Bjs.

  7. Olá Thais, obrigada por compartilhar conosco sua caminhada. Parabens pela coragem e determinação de seguir seu real proposito, de escrever e ensinar, és mestra nisso. Remar contra a maré é para poucos e que bom termos você com esse exemplo de autenticidade e liberdade. Tua coerencia me inspira.Uma das partes melhores do meu dia é consumir seu conteudo e observar seus movimentos de evolução, em prol da busca de você mesmo a cada dia. Forte abraço.

  8. Esse seu texto se conectou diretamente com o que tem acontecido comigo ultimamente. Por mais que um tempo eu tenha trabalhado gerenciando pessoas e, modéstia a parte eu acho que sou boa nisso e até gosto, nesse momento eu não quero trabalhar com isso, quero ter meu tempo para me dedicar a coisas que realmente envolvem trabalhar mais sozinha. Foi um pouco estressante ter que virar e pedir para as pessoas exercerem a autonomia delas, pq não era meu trabalho ficar cobrando fluxo de pessoas (e eu estava ficando nesse lugar e estava me deixando muito chateada). É um pouco complicado, pq parece que as pessoas não entendem e quando vc se posiciona vc fica como chata da situação, mas pra mim foi muito importante pois me estressava muito.
    Essas coisas acho que só vêm com a maturidade. E exige um pouco de coragem. Parabéns.

  9. Thais, acompanho a bastante tempo o seu blog e gosto muito das reflexões que você gera por aqui. Parabéns pela coragem de mudar para viver de acordo com os seu valores.

  10. Eu hoje dou aulas particulares e tenho zero vontade de abrir uma escola, por exemplo. Então, sim, entendo 100% o teu processo. Que os novos caminhos te tragam paz e serenidade.

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