Como fazer alguma coisa que você não está a fim de fazer

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Quando perguntei para os leitores, no início do mês, o que gostariam de saber sobre foco (nosso tema do mês), uma pergunta recorrente foi: como você faz quando tem uma tarefa, ou uma ação na sua lista de próximas ações, e você tem o contexto e o tempo apropriados, mas não tem energia para se engajar naquilo?

O GTD™ tem a seguinte abordagem (e que eu uso) para a gente lidar com todo tipo de acordo que faz com a gente mesmo.

Seguinte: tudo o que combinamos conosco de fazer (como uma tarefa na lista) é um acordo. E como lidamos com os acordos que fazemos? Existem três possibilidades:

  1. Cumprir o acordo. Vejo o compromisso no meu calendário e cumpro o que está ali. Vejo a próxima ação em uma lista e a executo. Tenho um projeto que consigo concluir. Etc.
  2. Não cumprir o acordo. Oras, eu posso simplesmente ler “correr 5k” na minha agenda às 6h da manhã, desligar o despertador e voltar a dormir. Posso olhar que tenho uma ação na minha lista de ações e não executá-la. Tudo são escolhas e consequências.
  3. Renegociar o acordo. Muitas vezes, imprevistos acontecem, e não conseguimos cumprir o que nos comprometemos a fazer. Ou posso entender que a coisa mudou de figura, e precisa ser esclarecida novamente. Ou eu percebo que um projeto que iniciei não é o melhor momento de andar com ele. Tá tudo bem. Acordos podem ser renegociados – tanto comigo mesma quanto com as outras pessoas.

Renegociar acordos é uma arte. De modo geral, quando envolve outras pessoas, eu procuro avisar com a maior antecedência possível – “olha, fulano, fiquei de te enviar o relatório até segunda, mas não consegui, pois tive outras prioridades por aqui. Posso te enviar até amanhã ou até sexta?”

“Chefe, sei que assumi o projeto da implementação do novo sistema X para gerenciamento de contatos da área, mas fiquei bastante sobrecarregada porque já estou cuidando de Y e Z, que são prioritários, concorda? Gostaria de conversar com você sobre a possibilidade de passar a coordenação desse projeto para outra pessoa da equipe que possa tocá-lo com mais qualidade e agilidade que eu.”

“Em julho, planejei que começaria a estudar inglês em agosto, e estava tudo planejado, mas quando começaram as aulas eu percebi que não dava certo atravessar a cidade correndo para estudar na escola perto de casa. Só me deixou estressada. Então vou renegociar esse plano comigo mesma e procurar uma escola perto do trabalho ou fazer um curso online.”

“Tenho uma lista de 12 coisas para fazer em casa, mas sinceramente só consegui fazer 7 delas. Essas outras 5 podem esperar? Se sim, tudo bem? Se não, como posso renegociar? Posso delegar para o meu marido? Posso contratar alguém para fazer o serviço? Ou preciso tirar forças do nada ainda hoje para que isso seja feito?”

Tudo é questão de refletir e renegociar, quando for o caso. Nem sempre é fácil. Na verdade, envolve pessoas, envolve sentimentos, envolve percepções sobre nós mesmos. Mas já faz tempo que eu parei de me cobrar por coisas que não consegui fazer, porque outras prioritárias entraram na frente. Tá tudo certo. Sempre haverá mais coisas a fazer do que tempo para fazê-las, por isso mesmo preciso priorizar. E priorizar nem sempre é fácil, porque pessoas podem não entender, ficar chateadas etc. Tudo isso faz parte. Organização impacta relacionamentos. 🙂

O que quero dizer é que não precisamos ficar mal ou nos cobrando tanto esse perfeccionismo de fazer tudo o que “planejamos” fazer porque planejamento não é uma coisa rígida. É flexível. Tá perfeitamente ok planejar algo, mil coisas mudarem nesse meio tempo, e você precisar replanejar. A vida é assim mesmo.

Se você tiver algo na sua lista de tarefas ou próximas ações que você bate o olho e não está a fim de fazer, precisa apenas renegociar esse acordo consigo mesma/o, o que pode significar não cumprir o acordo. A decisão é sua. Dê uma olhada hoje na sua lista (ou em uma delas) com essas lentes e faça essa reflexão. Tá tudo bem renegociar. É isso mesmo. 😉

Boa sorte.

19 comentários

  1. Thais, obrigada por mais um texto tão acertado e equilibrado. O blog vai evoluindo sempre, cada vez mais temas profundos e sempre tão sinceros. Obrigada por partilhares a tua evolução connosco e nos fazeres, da mesma maneira, evoluir para seres mais tranquilos e com as prioridades bem definidas. Um beijinho grande, Luísa

  2. Que texto acolhedor!! Tudo isso ajuda a espantar a frustração de planos não cumpridos. É muito difícil lidar com essa sensação de deixar cair os pratos. É sempre preciso lembrar o que vc disse: que a vida é assim mesmo, que está tudo bem!

  3. Ótimo texto!

    Mas há situações em que não posso delegar ou renegociar prazos. Como faço quando isso acontece? Quando preciso, obrigatoriamente, fazer algo e não tenho a energia para fazer? Tem alguma dica de como não perder o foco?

      • Tenho de fazer isso com a questão “atividade física”. Priorizar pela manhã para não ter desculpas a noite, após um dia cansativo no trabalho.

    • Oi, Anna! Eu também tinha esse problema e após conversar com outras pessoas a frase “falta de compromisso” fez muito sentido. Algumas tarefas do meu dia a dia já não fazem mais sentido na minha rotina, coisas que não gosto mais ou coisas que no futuro pretendia abolir da minha vida, eu já não tenho compromisso comigo mesma para essas coisas. Minha dica é você ver o que você pode pedir ajuda, delegar…

  4. Thais, tenho uma pasta salva com alguns dos seus textos que me servem de norte quando percebo que me perdi. Esse, sem dúvidas, entrou para essa pasta. O exemplo de como renegociar com o chefe me soa tão simples e porque será que não o fazemos? Você acha que é mais uma pressão interna do que externa?

  5. Thais, que post interessante. Tenho uma dificuldade enorme de cumprir acordos que faço comigo, em contrapartida, se é com outra pessoa, não deixo passar um dia de prazo. Vivo renegociando comigo mesma, até que uma hora tenho um certo “estalo” e acabo fazendo. Mas a sensação de frustração é enorme, de qualquer jeito. Fico me cobrando que aquilo ainda não foi feito e precisa ser, vejo o tempo passar e começo a ficar ansiosa que talvez não dê tempo mais… aí sim, faço. Se for algo que não tem prazo, aí procrastino eternamente… E me cobro isso. Acho que a questão é como você disse mesmo, não deu pra fazer hoje, ou não foi feito, e tudo bem. A gente precisa aprender a lidar com isso né?

    Adoro seu blog e suas reflexões, sempre me acrescentam ♥

    • Olha não sou nem 1% do que a Thais é, mas no teu caso o que deu pra perceber é que você tem que definir as suas áreas de foco e projetos nessas áreas juntamente com propositos, o que realmente faz a gente ter esse “alerta” em relação às nossas prioridades consequentemente a nossa lista de ações.

  6. É tão bom ler isso… Como se precisasse de autorização para deixar de fazer algo ou renegociar prazo… Que louco! eheheh

  7. Muito bom o post! O teu blog tais já faz parte da minha rotina de conhecimento. Pois juntamente com a leitura do livro GTD (2×) complemento com aspectos trazidos e contextualizados por você, o que nos elucida bastante. Até o próximo post!

  8. Thaís, esse post me ajudou demais! Muitas vezes me cobro tanto que acabo perdendo energia com isso e atrapalhando ainda mais minha organização. Você me fez pensar sobre, obrigada! Um abraço e que Deus te abençoe!

  9. Esse é um aprendizado que ainda estou tendo comigo mesmo. Na maioria das vezes, quando eu olho para aquela lista de próximas ações com um monte de coisas a fazer e atrasadas, fico desanimado. Estou aprendendo a renegociar e criar listas mais mais factíveis.

  10. Thais, tenho percebido que, no meu caso, a maioria das coisas que estão na minha lista de coisas e que eu não consigo fazer tem quase sempre a mesma característica: são coisas mais complexas, na verdade são projetos ou partes de projetos, e eu coloquei na lista de ações como se fossem simples ações. Percebi que, na minha cabeça, às vezes penso que um grupo de ações pode ser feito de uma vez só, como se fosse uma única ação, e é justamente nesses casos que começo a protelar, por que geralmente não é tão simples e eu acabo sempre deixando pra outro momento. O que tenho tentado fazer quando não estou conseguindo fazer algo é destrinchar a coisa em ações mínimas, além de me perguntar sobre o propósito daquilo.
    Vivendo, lendo o blog, fazendo cursos, observando, refletindo…

  11. Thaís, gosto demais de seus conteúdos e principalmente da maneira que você escreve, é tão bom de ler tá

    Uma sugestão, pensando na minha dificuldade de manter a frequência de acompanhar os blogs que amo no dia a dia, é de enviar os seus conteúdos diários ou semanais numa newsletter.

    Obrigada ❤️

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