Como eu organizo os meus estudos do Budismo

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O tema do mês aqui no blog é “Espiritualidade” e eu gostaria de contar um pouco como eu organizo os meus estudos.

Como comentei em um post anterior, meu “livro base” chama-se “Caminho alegre da boa fortuna – O completo caminho budista à iluminação” (Geshe Kelsang Gyatso). Ele divide o “caminho” e os aprendizados em três escopos: inicial, intermediário e grande escopo.

Fundamentos e escopo inicial

  • Entendimento das diversas etapas do caminho – Aqui, essencialmente da tradição que sigo, que é a Nova Tradição Kadampa. Talvez você possa adaptar para outra tradição ou até mesmo outra religião. É como se fosse delineado o método.
  • Qualidades do autor – Aqui estuda-se a biografia dos autores que serão estudados, o que é muito importante para conhecer a história e a credibilidade de quem está te ensinando essas coisas.
  • Qualidades do ensinamento – Aqui tem um histórico do método.
  • Ouvir e ensinar o darma – Este tema é super importante. Darma é o conhecimento de Buda. Então fala-se sobre a importância do estudo e da prática, que envolve o ensino.
  • Meditação – Aqui, temos vários capítulos que explicam o que é meditação, como fazer, orientações, instruções, etapas. É bem completo e, realmente, são os fundamentos.

Aí entram efetivamente os temas que são estudados no escopo inicial:

  • Confiar em um Guia espiritual – Fazer parte de uma comunidade religiosa é algo que te deixa super vulnerável. Por isso, é importante confiar naquelas pessoas que estão te ensinando.
  • Preciosidade da vida humana – No Budismo, acredita-se que existem várias vidas, várias encarnações, até o ser alcançar a iluminação. Nascer humano é muito raro. Você poderia nascer como qualquer ser vivo. Nascer humano permite que você faça escolhas e ajude outras pessoas e outros seres vivos. Por isso, é uma oportunidade incrível. Neste capítulo, é falado justamente sobre isso.
  • Morte – Bem… faz parte da vida. Este tema é bastante estudado no Budismo.
  • Os sofrimentos nos reinos inferiores – Este é um tema bem budista, que não serve, como alguns outros, para todas as pessoas. Aqui, você precisa ter essa mesma crença.
  • Busca de refúgio – Tomar votos de refúgio é o que faz de você budista “oficialmente”. Existem práticas religiosas que devem ser feitas diariamente e em outras frequências, e neste capítulo é falado sobre isso.
  • Carma – Possivelmente um dos temas mais importantes.

Aqui no blog (e no canal do YouTube) eu pretendo falar sobre os temas que forem mais gerais, que se apliquem a todas as pessoas. Mais adiante, se vocês quiserem, posso falar sobre os temas mais específicos do Budismo mesmo, como refúgio.

Escopo intermediário

  • Gerar o desejo de alcançar a libertação – Aqui os temas começam a ficar mais “sérios” para o praticante dedicado. O tema aqui diz respeito a como ter motivação diária para alcançar o estado de libertação e, por fim, a iluminação.
  • As quatro nobres verdades – Ensinamento clássico do Budismo.
  • Meditações nos verdadeiros sofrimentos – Extensão do ensinamento anterior.
  • Delusões e ações, morte e renascimento – Aqui aprofunda-se no estudo da situação da morte e também no conceito de carma.
  • Os doze elos dependente-relacionados – Conceito mais aprofundado, relacionado ao carma.
  • Roda da vida – Não é igual à roda da vida no coaching rsrs diz respeito aos outros reinos de seres vivos. Trata-se de um aprofundamento do que foi estudado no escopo inicial.
  • O caminho à libertação – Aqui estuda-se as práticas constantes de um budista, a disciplina moral e outros aspectos importantes.

Vocês podem ver que vai ficando um pouquinho mais complexo de explicar e de entender. É porque o conhecimento precisa ser entendido e acumulado antes de chegar nessas fases. 🙂

Grande escopo

  • Ingresso no Mahayana – Mahayana é o caminho budista que tem compaixão por outros seres. É difícil resumir, mas em suma é isso, e neste tópico estuda-se por que é chamado assim, origem, práticas, diferenças etc.
  • Gerar a bodichita – Bodichita é o estado mental de compaixão o tempo todo. Neste tópico, estuda-se sobre o desenvolvimento desse estado mental.
  • Ações de um Bodissatva – Se você estiver trilhando o caminho para a iluminação, como deve se portar? Qual deve ser a sua postura diária? O bodissatva é aquela pessoa que está comprometida com seu caminho à iluminação.
  • Treinar a mente no tranquilo-permanecer e na visão superior – Ambos conceitos budistas…
  • Avançar pelos solos e caminhos espirituais – Aqui existem explicações mais detalhadas sobre as diversas etapas do caminho.
  • Caminhos Vajrayana – Explicação de outras vertentes relacionadas.
  • A plena iluminação – O que acontece? O que estamos buscando? Quais as características desse estado?

Ao final do livro, existem muitas preces, resumos, glossário e outras informações adicionais.

Para estudar esse conteúdo profundamente, os centros budistas oferecem um curso de estudo aprofundado, com aulas uma vez por semana, que estudam este e outros livros da tradição em detalhes, esmiuçando cada conceito mesmo, e aliando à prática.

Além desse estudo aprofundado, existe a prática diária, que envolve basicamente você seguir os fundamentos citados acima, mas também fazer as práticas da religião em si, que incluem meditação, participar de atividades voluntárias no centro budista mais perto de você, além de participar das preces cantadas em datas comemorativas.

Como eu comentei em outro post, eu não tenho mais frequentado o centro como fazia antes. Estudo em casa e pratico na vida. Gosto muito das atividades do centro, mas atualmente tenho diminuído a quantidade de qualquer evento ou compromisso externo que eu tenha, para poder ficar mais em casa. Já tenho muitos compromissos externos que envolvem o mestrado e o meu trabalho (cursos, reuniões), então é simplesmente uma fase da minha vida em que fiz essa escolha, e estou tranquila com ela.

Não tenho participado de retiros também. Desde que o nosso filho nasceu, é complicado ficar mais de um dia fora, porque já tenho muitos compromissos profissionais e, quando posso ficar com ele, fico com ele. Eu costumava participar de retiros de um dia ou de meio período, e ainda encaixo isso na agenda se minha semana estiver sem tantos compromissos.

Para mim, de verdade, o Budismo se aplica ao dia a dia. Mais do que as práticas religiosas, estão as práticas espirituais e de ação mesmo. 

O que eu pretendo explorar nos próximos conteúdos serão temas mais gerais, que servem a todas as pessoas, não necessariamente budistas ou simpatizantes, e espero de verdade que sejam úteis. Caso você tenha alguma dúvida específica ou sugestão de assunto, pode deixar um comentário. Estou preparando um post/vídeo com as principais perguntas. Obrigada.

13 comentários

  1. Oi Thais. Não tenho uma religião mas gosto muito dos ensinamentos do Budismo. Gostaria que vc desse direções sobre como organizar o tempo para estudar conteúdos “extras”. Estou terminando minha dissertação e isso parece ser o mais importante de tudo, acabo não lendo livros que gosto e estudando línguas por exemplo.

  2. Como é a visão do budismo quando matamos algum ser vivo (inseto, etc.) mesmo quando estamos em situações extremas, sem a opção de não matá-los?

  3. Olá Thais,
    A minha dúvida é sobre Meditação.
    -Durante a meditação não devemos ou não podemos nos prender aos pensamentos e emoções bons e nem aos ruins?. Quando vem aquele momento de uma emoção boa, de sentir paz, dá vontade de ficarmos alí, é errado?
    -O fato de não nos prendermos ao bom e nem ao ruim durante a meditação nos ajuda a trabalhar o desapego?
    -Qual a diferença entre meditar de olhos fechados, e de olhos abertos?.
    Obrigada.
    *Meus sentimentos Thais pela partida da sua amada avó.

    • Oi Vilma, tudo bem? Obrigada por comentar. Vou responder suas perguntas:

      – É normal sim os pensamentos virem. A recomendação é deixarmos eles irem embora assim como vieram, voltando a todo o momento o foco para seu objeto de meditação.

      – O que você falou sobre o desapego me parece correto.

      – A recomendação que aprendi para a meditação é ficar com os olhos semi-cerrados, na verdade, para evitar 1) sono (olhos totalmente fechados) e 2) distrações (olhos totalmente abertos).

      Espero ter ajudado.

  4. Tem alguma relação entre o budismo e o vegetarianismo ou veganismo?
    Também tenho dúvidas em relação a divisão espiritualidade / religiosidade. E todas as crenças budistas não pressupõem um ser superior, certo? Ou isso depende?

  5. Olá, gostaria de saber se essa prática de compaixão diária é associada ao vegetarianismo e se você é vegetariana. Abraços.

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