Sobre finanças, crise e desemprego no Brasil

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Mais de uma leitora me pediu para escrever sobre o assunto, já que estamos falando sobre finanças este mês aqui no blog e vocês sabem que eu vou a fundo nos temas, para justamente irmos além de “dicas de organização” (que são ótimas, mas precisam ser contextualizadas). O post vai trazer alguns casos reais da minha vida, apenas para ilustrar.

Tenho uma amiga que ficou mais de dois anos desempregada. Nesse meio tempo, conseguiu uma ou outra coisa, mas muito ruins, do ponto de vista de serem salários bem mais baixos do que ela ganhava antes e com condições trabalhistas piores também. Foram empregos que nem foram considerados, em que ela ficou um mês ou até menos, apenas preenchendo a vaga de alguém que estava de férias ou de licença. No final das contas, foram mais de dois meses desempregada, vivendo do seguro-desemprego nos primeiros meses e, depois, de economias. Foi bem difícil. Acompanhei de perto e penso que a falta de perspectiva e a frustração são as piores partes, pois não é nada fácil você ver o seu dinheiro acabando, precisar pagar contas, fazer mercado, e não saber como será no mês que vem. Estou querendo dizer que essa minha amiga não é rica. Ela depende do salário para viver. Mora de favor e cuida dos pais idosos. É uma situação bem difícil e, além de tudo, não é casada, então aguenta essa carga sozinha. Eu, como amiga, procuro estar sempre por perto para dar uma força.

Eu também tenho um outro amigo que trabalha desde os 13, 14 anos, para ajudar em casa. Veio de uma família muito pobre. Sempre foi o cara mais responsável da turma – o que casou antes, que financiou apartamento, aquela coisa toda. Em 2016, ele perdeu o emprego CLT e, desde então, sua vida tem sido vivida à base de bicos. Foi obrigado a “virar empreendedor”. Consegue pagar suas contas, mas sempre com dificuldade e eternamente preocupado. Este ano, iniciou um tratamento para lidar com uma depressão crônica. Isso mexeu muito comigo.

Também tive casos de amigos que foram bem-sucedidos nesse meio-tempo, mas são definitivamente a minoria. Tenho um amigo que foi promovido, se deu super bem, mas trabalha 24 horas por dia e está sempre desesperado verificando e-mails e mensagens, mesmo aos finais de semana, pois a empresa foi comprada por uma multinacional e ele tem medo de haver cortes. Isso é vida?

Eu sei que é muito difícil falar sobre finanças partindo de uma posição que talvez não seja a do leitor. Tudo o que eu posso fazer é desenvolver empatia, buscar compreender e respeitar sempre.

Eu faço parte de uma minoria que tem casa própria. Que tem um teto. Que tem trabalho. Eu reconheço todos os privilégios que tive desde que nasci e os que eu ainda tenho hoje. Meu maior esforço é no microcosmo, em ensinar ao nosso filho que a situação que vivemos não é a de todas as pessoas.

Outro dia, estávamos estudando para a prova dele de História, cujos temas em foco eram a escravidão e os imigrantes. Fazer a correlação da história do nosso país com a realidade que o povo brasileiro vive é fundamental. Eu nunca aprendi sobre lei de terras na escola, por exemplo, e ela teria sido fundamental para eu entender a continuidade da escravidão. Fui conhecer os movimentos relacionados apenas quando estava na faculdade, o que foi uma mudança de chavinha na minha cabeça. Foi quando eu percebi que vivia em uma bolha. E eu não quero que o meu filho viva numa bolha. Ele precisa saber por que tem um menino mais novo do que ele pedindo dinheiro quando a gente para com o carro no semáforo. Que as pessoas têm realidades diferentes porque vivemos em um país com extrema desigualdade social e dentro de um sistema que é representado por esse conflito de classes.

“Buda” não é um “deus do Budismo”. Buda é um estado. Representa que determinado ser alcançou a iluminação.

Sidarta Gautama foi um príncipe nepalês que viveu toda a sua vida dentro de um palácio. Seu pai controlava tudo isso e não o deixava sair para ver o que tinha lá fora. Em algum momento, bem mais velho (com quase 30 anos), ele saiu e viu um homem velho e doente. Nunca tinha visto aquilo. Obviamente ele quis sair de novo para ver mais, e a realidade o deixou chocado. Resumindo muito a história, ele foi embora em uma busca para acabar com o sofrimento de todos os seres, e disse que só voltaria se encontrasse essa solução. Ele tinha 29 anos (o retorno de saturno é uma coisa implacável até para um Buda, vejam só).

Não vou me estender com toda a história dele aqui, mas é um exemplo clássico do que estou tentando exemplificar. Nascer com privilégios não significa ignorar o restante e continuar a viver como se a pobreza e o sofrimento não existissem. Desenvolver uma mente de compaixão nos obriga (no bom sentido) a estarmos sempre atentos às necessidades das outras pessoas. O volume da nossa influência depende, mas todos nós temos os nossos círculos e podemos contribuir com o mundo de alguma maneira.

Sempre me lembro de uma frase da Madre Teresa de Calcutá, que era mais ou menos assim: “enquanto existirem seres sofrendo no mundo, não há como ser verdadeiramente feliz”. Eu concordo. Essa era a sua motivação para ajudar os outros.

Nós vivemos em um mundo absolutamente inacreditável, cheio de coisas estranhas, mas também com muita coisa bonita. Temos maldade assim como temos bondade. No final das contas, somos 7 bilhões de pessoas compartilhando um mesmo planeta. Talvez eu não consiga impactar 7 bilhões de pessoas, mas eu posso impactar o nosso filho, o meu marido, as minhas amigas, as pessoas que trabalham comigo, os leitores do blog etc. O que eu compartilho são aprendizados e reflexões pessoais sobre o tema “organização”. Ter uma vida organizada é buscar coerência entre quem você é e as coisas que você faz. Como já disse outro sábio, desta vez na ficção: tudo o que precisamos saber é o que fazer com o tempo que nos é dado (Gandalf, em O Senhor dos Anéis). O mesmo vale para o dinheiro. Era sobre isso que estávamos falando neste post, não era?

11 comentários

  1. Thais, parabéns! Você está se superando a cada dia, na precisão em se comunicar a na poesia com que vem colocando palavras, contextos e emoções.
    Quanto ao tema de hoje, não há como organizar tralha. A tralha aqui é a ignorância ( que não se relaciona à falta de escolaridade ou dinheiro), falta de oportunidades e criação de valores para os brasileiros.
    Venho refletindo profundamente, todas essas brigas e ataques de um lado ou outro nos confundem. Nem políticos nem a própria população enxerga direito o que tem de fazer – resolver os problemas, com boa gestão e honestidade, de ambas as partes.
    Um beijo, bom fim de semana

  2. Maravilhoso, Thais.
    Muito bom ler algo sobre esse tema em uma abordagem humana e sensível, mas ao mesmo tempo realista, sabe? É assim que enxergo as reflexões que vc propõe.

    Também quero dizer que acho linda a forma como você fala do Budismo. Eu tenho outras crenças, e ainda assim me sinto contemplada em ler o que você escreve sobre esse assunto, porque vc não invade, não impõe, mas mostra o quanto a prática do Budismo afeta a foma como você enxerga outras coisas. Falar da sua vivência e do que você acredita, sem tentar “enfiar” nada para as outras pessoas.

    Obrigada <3

  3. Thais, repito: sou sua fã!
    Sou católica mas sempre fui aberta para aprender com outras religiões e filosofias, e o budismo mto me encanta. Tanto é que ontem, durante o missa, o evangelho falava sobre os valores que estão em nós. E o padre pediu que selecionássemos 5. De pronto escolhi o amor, universal e essecial pra nossa condição humana, e a compaixão, que aprendi desde cedo com o budismo que era a base de tudo.
    Sua sensibilidade nos textos é sempre incrível. Obrigada por compartilhar conosco.

  4. Tão lindo esse texto! Li duas vezes e mandei para uma amiga. Olha que coincidência, falávamos sobre privilégios hoje no almoço.
    Você com certeza impacta e influência a minha vida! 🙂

  5. Sei nem o que dizer desse texto, só sentir. Alias, o sentimento pela dor do outro foi o que aprendi com seu post. Eu também tenho o privilégio de ter um emprego que paga meu aluguel e a escola do meu filho, mas vivo em um bairro com uma taxa altíssima de desemprego. Temos sempre que ter empatia com o outro e tentar apoiar da melhor forma.

  6. Viver numa bolha.
    Esta é a realidade da elite do país.
    Seja a elite política, econômica, social e digital.
    Todos arrotam as desigualdades sociais, mas vivem sua vida regada do bom e do melhor desta mesma desigualdade.
    Existem apenas projetos de poder e enriquecimento, aos outros sobrarão apenas migalhas, doenças, violência e alienação.

  7. Te agradeço por este texto, Thaís! Sinto muita culpa, tristeza, dúvida em relação a ter dinheiro onde tem tanta desigualdade. Consegui acalmar e me motivar

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