Editora Abril fecha as revistas Casa Cláudia, Minha Casa e outras

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Não deu outra: a notícia da semana foi o anúncio da Editora Abril de que irá fechar algumas de suas revistas e demitir mais de 500 profissionais do setor. Entre as revistas selecionadas, estão Casa Cláudia, Minha Casa, Arquitetura & Construção, Nova/Cosmopolitan, Elle, entre outras. A editora se concentrará em seus títulos mais sólidos, a saber: Veja, Exame, Cláudia, Você S/A e RH, Quatro Rodas e outras. (notícia)

Parece que foi ontem que eu publiquei um post no blog falando sobre a cobrança que a gente se faz de querer ter uma casa com cara de casa de capa de revista. Lá atrás eu já falava sobre como essas reportagens pareciam fora da realidade, pois não mostravam um ambiente real, mas um espaço arrumado para a foto, mesmo que tirado em residências de pessoas reais.

Com o tempo, as pessoas pararam de buscar revistas impressas “porque podem encontrar na Internet” “tudo o que precisam”. Não apenas referências visuais, especialmente no campo da decoração e da organização, mas em termos de conteúdo.

Eu sempre adorei revistas. Ainda hoje, sou consumidora de vários títulos. Mas não dá para negar a frustração de uns anos para cá com o preço abusivo para uma quantidade menor de páginas, bastante propaganda e conteúdos prontos, montados, como se fossem encomenda publicitária. Na era das redes sociais, ninguém quer ver isso. Pessoas se identificam com pessoas, e infelizmente a Editora Abril demorou para perceber isso (sinceramente acredito que ainda nem tenha percebido).

A editora está com uma dívida de mais de 1 bilhão de reais. Em paralelo, mas relacionado, vemos grandes redes de livrarias, como a Saraiva e a Cultura, indo pelo mesmo caminho. (fonte) O mercado está mudando. TODOS nós, como profissionais, precisamos nos reinventar. Enquanto essa guerrinha de jornalista x youtuber / blogueiro / influenciador continuar, vai ser semelhante às guerrinhas taxista x uber, cd x streaming etc. A tecnologia muda a maneira como as pessoas se relacionam. Isso significa que muda também o trabalho que a gente executa.

Nunca vou me esquecer da primeira edição da revista Minha Casa. Eu estava grávida do filhote (hoje com oito anos) e eu fiquei feliz por finalmente ver uma publicação impressa que trouxesse um pouco do que eu via na Internet – uma casa um pouco mais real, mais artesanal, que a gente mesmo pudesse criar e decorar. Colecionei a revista durante muitos anos. Com as mudanças de casa, fui me desfazendo das edições. Semana passada mesmo comprei uma.

Casa Cláudia, sem comentários. Referência em decoração. Existe há 41 anos.

Algo de errado está no modo como a velha mídia vem gerindo os seus negócios. Enquanto isso não for levado a sério, mais e mais empresas vão quebrar.

De modo geral, vejo o que eu faço como uma criação de conteúdo. Sou publicitária por formação, fiz dois anos de jornalismo, me especializei em conteúdo para mídias digitais. Estudo e vivencio isso todos os dias. E, há pelo menos 10 anos, quando os blogs começaram a surgir em volume maior, eu já cantava essa bola. E não era só eu não – muita gente boa e competente que trabalhava na área e, com certeza, cansou de avisar seus “gestores”, seja em agências ou grandes empresas. Agora essas mesmas pessoas serão demitidas pelo erro da falta de visão.

O conteúdo foi se desenvolvendo, na história da humanidade, cada vez mais rápido. Quando chegou ao jornal diário, parecia que era o máximo da rapidez da notícia. Com a Internet, o fluxo virou 24/7. Os blogs e as redes sociais potencializaram isso. Qualquer pessoa poderia criar conteúdo, e esse conteúdo vasto poderia ser acessado de graça. Você não tinha que ir até a banca pagar 15 reais em uma publicação mensal ou gastar 200 reais por ano em uma assinatura que, muitas vezes, atrasava ou sequer chegava. O mercado mudou de repente, mas não tão de repente assim. Todo mundo foi avisado.

Por eu ser da área da comunicação, é impossível eu não falar sobre isso. Lamento pelos meus colegas de profissão, talentosos, que serão demitidos. Torço pela reinvenção o mais breve possível, além de força para enfrentar períodos difíceis. Mas, de modo geral, tudo isso já “estava escrito”. Propôr uma casa para a capa da revista, assim como propôr um tipo de corpo para a capa, já eras. Todo mundo só quer saber da vida real, que inspira por si só, com seus sucessos e desafios.

As agências de publicidade que prestem atenção, pois serão as próximas.

15 comentários

  1. Oi, Thais! Sou jornalista por formação e de redação. Acho que a questão principal não é “vida de revista” x “vida real”. Vejo hoje nas mídias muitos influenciadores que vendem uma imagem associada a “casas de revista”, “corpos perfeitos”, viagens maravilhosas, relacionamentos ideais. Então esse modelo de perfeição que vivia nas páginas também pulou para as telas, mesmo com muitos questionamentos e vertentes contrárias. E levou junto com ele uma boa fatia da verba publicitária, que sustenta o mercado editorial. Muitas marcas preferem apostar em ações com influenciadores (inclusive os microinfluenciadores) do que no anúncio tradicional nas páginas de uma revista. A questão principal, para mim, é que a produção de conteúdo hoje é aberta para todos, com acesso gratuito à informação em muitos casos. Mas nem sempre esse conteúdo é relevante e autoral como no Vida Organizada. Acredito que, num futuro muito próximo, o público vai ser mais seletivo no que lê e em quem decide seguir nas mídias sociais, vide o problema gigantesco das fake news e do conteúdo “crtl c + crtl v”. Não significa que vá se voltar novamente para os veículos tradicionais (e nem deveria. Viva a democratização da informação!). Mas com certeza quem souber do que está falando, e falar para um publico segmentado, vai se sobressair daqui pra frente.

    • Sim, foi uma curva no mercado. Mas acho que mesmo hoje tais influenciadores estão chegando no mesmo ponto e procurando esse equilíbrio, porque conteúdos muito prontos e montados não agradam, mesmo partindo deles.

    • Sensacional Larissa. Comentário muito relevante. Quem souber do que está falando, e falar para um público segmentado, vai se sobressair daqui pra frente.

    • Estava aqui com as mesmas reflexões da Larissa na cabeça. Valores sobre o que são vidas ideais (corpos, casas, comida, viagem, relacionamentos etc) tem pulado das propagandas, publieditoriais e matérias onde sua relação com interesses de mercado eram um pouquinho mais disfarçadas para os influencers patrocinados e outras formas de tocar um público mais abrangente, segmentado e com custos bem menores. Assisti esses dias um vídeo produzido pelo Instagram com influencers latinos falando da plataforma. Frases como “é uma rede de guloseimas visuais”, “eu vejo e penso ‘quero ter isso, quero estar aí, quero comer isso’ ” ou “o Instagram é uma das maiores razões de felicidade da minha vida” me deixam bem de cabelo em pé com este “admirável mundo novo” de valores tão antigos. Mas a boa realmente é que a qualidade de tudo o que circula agora com muito mais liberdade de fato já se tornou um enorme “calcanhar de Aquiles” e bem inflamado: grandes como Google e Facebook estão investindo pesado em algorítmos capazes de desconfiar, checar e banir fake news de suas bases. Certamente as reações serão em cascata. O futuro é realmente de quem é sério e acrescenta. Mas sem muitas ilusões também, pois tem sempre grandes tubarões chegando pra dominar os novos mares. Eles tem uma capacidade de adaptação enorme! Resta pensar como nós, simples peixinhos, negociaremos, dialogaremos e sobreviveremos.
      Aliás, falar em conteúdo de qualidade, parabéns demais pelo seu trabalho. Nos últimos quase 10 anos já comecei a seguir e abandonei muita gente e sem dúvida seu trabalho é o único que acompanho há tanto tempo! Admiro muito!

  2. “As agências de publicidade que prestem atenção, pois serão as próximas.”

    Não poderia concordar mais! Não sou do ramo, mas vejo na empresa em que trabalho, dia após dia, a ameaça constante de todo mundo sair, de tudo mudar, e as pessoas se encolherem com medo.

    Uns meses atrás, decidi que não iria esperar ser mandada embora para então correr atrás de fazer alguma coisa, mas sim, que iria começar desde agora a desenhar uma nova forma de viver minha vida, de ganhar meu dinheiro e trabalhar. Acho que é muito difícil ainda, pra todos nós, acostumados com um modelo de trabalho e contratação, mas que é necessário!

    Beijos Thais

    • A particularidade das agências é que grandes agências, que pegavam grandes contas publicitárias para a velha mídia – ex: comercial do Itaú para o intervalo da novela das 9 na Globo – sobrevivem apenas dessas grandes contas. Como a atenção das pessoas está cada vez mais na Internet, e o conteúdo na Internet está destrinchado em inúmeros canais, em vez de um único que monopolize a audiência e “facilite” a distribuição da verba publicitária. As agências ainda hoje buscam grandes canais pelo número de seguidores, acreditando que isso signifique qualidade de audiência – resquícios de uma cultura de comunicação de massa que não existe mais como existia antes.

  3. Oi Thais, concordo com você! As editoras ficaram na defensiva, reclamando que no Brasil as pessoas não pagam por conteúdo, mas não tiveram muita iniciativa em oferecer algo diferente do que blogs já oferecem por aí. Mas é louco pensar que meu trabalho de 5 anos atrás – assessoria de imprensa da área de Beleza – praticamente não existe mais! E pensar que na época meu cliente não contava posts de blogs como resultado de mídia! Hahahaha
    Você falou nas agências de publicidade, que serão as próximas, e acho que já está acontecendo, mas não acho que elas vão sumir…elas vão mudar o foco e as ofertas de serviços.
    Primeira vez que comento por aqui apesar de seguir seu blog há anos! Parabéns, adoro sua visão sobre as coisas e como você escreve!

  4. Fiquei bem chocada com a notícia, sou bibliotecária e muitas assinaturas que eu fazia para a biblioteca já foram suspensas nos últimos anos.
    Assinei por alguns anos a revista Minha Casa, por ser uma decoração acessível e vida real mas com aquele conteúdo que também vemos na internet.
    Mas realmente muito dos conteúdos dessas revistas já estavam disponíveis facilmente pela internet, gostava de ler algumas matérias da revista Boa forma, mas muitas delas eram com nutricionistas ou profissionais que eu já sigo nas redes sociais, quando lia a revista já não tinha tanta novidade assim.
    Sigo lendo algumas revistas pois meu plano de celular me dá acesso a diversos títulos, mas a única que caso me interesse demais eu tenho coragem de pagar é a Vida Simples.

  5. Vc como sempre demais na sua análise e comentários, eu também sou papel, mas infelizmente é o curso da vida, mil bjs.

  6. Olá, Thaís. Adorei o post. Sou estudante de jornalismo e fiquei bem chateada com isso, porque eu amo ler revistas e um dos meus sonhos era trabalhar em uma redação da abril. Teu post ajudou a dar uma reforçada que tenho novas possibilidades, que não são muito exploradas pela universidade. Muito obrigada pela inspiração! Adoro teu blog e teus livros, tem me ajudado muito no desafio de ser responsável por uma casa e em varios setores da minha vida.

  7. Tem muito de estratégia. O mundo dá voltas e pensar um pouco à frente, focar na qualidade do que é oferecido e no perfil do seu público é fundamental. Como li outro dia, passamos de baixar filmes e séries pelo torrent a novamente esperar a temporada ser lançada na Netflix. A mesma com a música, agora com Spotify e afins. Acho que pro futuro, tantas mini assinaturas vão começar a pesar e novas formas de acessar conteúdo vão surgir. No fundo não houve mortes, mas transformações.

    Sinto pelos funcionários e um pouco pelo conteúdo priorizado (falando baixinho, a Abril dá umas belas mancadas ao meu ver, rs).

  8. Thaís, boa tarde!
    Achei interessante o texto e, realmente, não dá para dizer que foi uma surpresa. Era uma tendência que vinha de anos…
    A propósito, sei que não tem muito a ver com o seu post, mas eu estou interessada no curso “organização para blogueiros”. Porém, não sou blogueira profissional – é um hobby. Esse curso é bom para mim também?

    Muito obrigada 🙂

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