O que você deixou de fazer?

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Desde o ano passado, tenho mantido o hábito de ler, toda segunda-feira, um capítulo de dois livros que considero essenciais na minha vida. Um deles é o “Ready for anything”, do David Allen, e o outro é “Um ano com Peter Drucker”. Ambos os livros trazem 52 capítulos, então com 52 conceitos, um com foco em produtividade (mas liderança) e outro com foco exclusivamente em gestão e liderança. Tem me ajudado muito no meu aprendizado como líder e ser humano mesmo, na verdade.

No capítulo desta semana, do Peter Drucker, ele levanta algumas questões tão importantes. Uma delas é a do título do post. Ele diz que, quando encontra amigos, ele não quer saber o que a pessoa fez. É normal um líder ter feito e conquistado coisas. Mas o aprendizado chave, do ponto de vista dele, é perguntar o que o cara deixou de fazer. Ou seja: o que fazia parte da sua vida mas, por algum motivo, por alguma reflexão que você tenha feito, o que achou melhor delegar ou deixar de fazer? E por quê? Você já pensou sobre isso? Trago essa reflexão para cá também.

Quando eu me tornei mãe, demorou até eu perceber que desempenhava um papel de liderança na minha família. Eu considerava um papel como todos os outros – o que, de certa maneira, é, mas cada papel tem suas nuances. A mãe tem um papel de liderança na família e se torna também a “mentora” dos seus filhos. E, se você for mãe também, já deve ter percebido que essa influência se estende aos colegas do seu filho que passam um tempo com vocês, com os amiguinhos dele de modo geral, e até outras crianças da família. Você se torna um modelo.

No final das contas, quando você se torna coordenadora, gestora, diretora, presidente de uma empresa, é uma relação parecida, porém talvez não tão emocional e afetiva e interdependente como com relação aos filhos, claro. Mas você executa um papel, e esse papel diz respeito não apenas às atividades de execução mas (quase que principalmente) aos relacionamentos.

Então ok. Pode ser que, antes de você deixar de fazer algo, seja necessário fazer algumas coisas. Colocar a casa em ordem, sabe? E Peter Drucker ensina que um líder de verdade não pergunta nunca o que é para fazer. Ou o que ele quer fazer. Ele se pergunta: o que deve ser feito? E faz.

Um outro ponto de ensinamento diz respeito ao propósito e à missão pessoal. Se você for uma pessoa que se guia pelos seus valores e tem um propósito sempre em vista, as escolhas vão se tornar mais naturais e fluidas, menos preocupantes.

Vale a pena citar um terceiro ponto de atenção, e aqui diz respeito a expectativas. Você sabe que são esperadas coisas de você. Você sabe que são esperadas coisas da sua empresa. Tendo uma missão e valores claros, essa expectativa também fica clara. Como você está lidando com ela? Porque ela tem que ser coerente com quem você é. O que causa chateação é querer atender expectativas não realistas dos outros.

Isso inclusive pode funcionar como um exercício. Se as pessoas esperam algo de você que você não sente que é quem você é de verdade, será que está passando os sinais certos para o mundo? Se não forem os sinais certos, quais seriam eles? O que você pode alinhar na sua vida e na sua empresa para que o mundo ao redor espere de você aquilo que realmente você é?

E aí né, é aquilo: é se conhecer, se alinhar internamente, e passar para fora quem você é de verdade. Vale para você como indivíduo ou para a empresa que você dirige. “O que eu vim fazer no mundo” é uma pergunta que se aplica a qualquer um.

Um líder então se comunica, não no sentido de fazer um broadcast, ou anunciar, suas intenções. Não. Ele se comunica através das suas ações. Todo mundo ao redor sabe o que ele está querendo fazer porque se torna explícito, claro. São pessoas orientadas por propósitos. E, quando você tem um propósito, esse é um “sim” grande. Ter um “sim” grande torna fácil falar “não”s pequenos. Por isso que líderes são pessoas que sabem dizer “não”.

Veja: você, como mãe, como gestora, como líder, fatalmente terá 5435457 coisas para fazer sempre. Sempre haverá problemas a resolver. Questões a se pensar. Estratégias a tocar. Soluções criativas para desenvolver. Não foi à toa que você desenhou esse papel onde está nesse momento. O ponto é: um líder não se sente sufocado (ou não deveria) porque faz parte de suas habilidades uma habilidade primordial – entender o que apenas ele pode fazer. O que pode ser delegado. Porque fazer tudo, decididamente, não dá.

E, se você quer fazer algo, mas ainda não tem para quem delegar, então talvez simplesmente não deva estar em andamento. Se for mais importante que todo o resto que está em andamento, incube o restante. É para ser simples.

Para ser quem você realmente é, para valorizar suas habilidades principais, para cumprir sua missão no mundo e propósito, é impossível só continuar adicionando atividades novas sem tirar outras antigas. Faz parte. Tem que deixar coisas de lado. É o ciclo da vida.

Como líder, uma habilidade essencial é saber responder frequentemente a pergunta: o que já deu? Onde já aloquei recursos demais, e não está mais me trazendo tanto resultado? Esses recursos que estou dedicando a essa coisa específica está tirando meus recursos de algo mais importante que deveria estar sendo o foco? São perguntas profundas para você se fazer, especialmente nesta época do ano.

Eu tenho repensado muito as minhas atividades nesses últimos meses. Todo período de transição tende a ser meio caótico, pois você sai da sua zona de conforto.

Na semana passada, desenhei meus papéis profissionais hoje em dia. Simplesmente listei quais são os diferentes papéis que eu tenho profissionalmente e o por que de cada um deles. Isso é importante de ser feito de tempos em tempos, porque a vida é dinâmica e muda o tempo todo. Cada projeto que você conclui ou objetivo que alcança faz sua vida ter uma configuração diferente, e aos poucos você terá percebido que seu planeta deu a volta em torno do sol mais de uma vez, mas está diferente de como estava quando começou, de certa maneira.

É pensar, com assertividade que, de todas as coisas que precisam ser feitas, existem algumas que podem ser feitas apenas por você. Mas quais são essas coisas? E quais são as outras, que você não vai mais fazer? Pensar naquilo que você vai deixar de fazer e não vai levar com você para o ano novo, ou para a semana que vem, ou mesmo amanhã, é tão essencial quanto saber aquilo que você deve efetivamente fazer. Porque a vida é isso, um equilíbrio.

Agora, trazendo aquele princípio de sempre aqui do VO: não é possível organizar tralha. Não dá pra querer colocar no lugar uma coisa que não tem lugar certo. Vai bagunçar. Encontrar o lugar certo vai muito além de colocar coisas em casa dentro de caixinhas. Como pessoa, diz respeito a entender seu lugar no mundo, seus papéis e responsabilidades hoje, e trazer isso para a realidade.

Entenda que, como ser humano, mais do que como líder, você exerce influência sobre outras pessoas. A questão é: a influência que você está levando está alinhada com quem você é de verdade? Como você gostaria de ser lembrada? E, por fim: o que você precisa deixar de fazer para abrir espaço para o que realmente precisa fazer?

Não dá pra organizar tralha.

11 comentários

  1. Amo estes posts “chacoalhões”!!! Um texto para revisitar sempre.
    Obrigada, Thais, pelos ensinamentos preciosos!!!

  2. “Como pessoa, diz respeito a entender seu lugar no mundo, seus papéis e responsabilidades hoje…”

    Isso é justamento minha tarefa da semana..rsrs, 2018 foi um ano de muitas mudanças e estou procurando colocar a cabeça no lugar, novamente!

    Obrigada Thais 🙂

  3. muito bom ler o seu blog, tuas experiencias nos faz linkar com as nossas, em como podemos alinha-la, organiza-las e resolve-las, sempre procurando a melhor soluçao…é muito significativo teu trabalho. Embora sejamos diferentes, somos todos iguais em essencia, procurando viver um dia melhor que o outro de modo que seja prático, organizado e ético, com algumas variáveis dentro dessa generalizaçao mas sempre visando a qualidade de uma existencia com sentido ou propósito.

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