Precisamos falar sobre acumuladores

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Ok, já passou a febre do programa de tv, poucas pessoas falam sobre esse assunto, então eu quero resgatar esse tema com aquele velho toque de realidade que vocês sabem que eu faço.

Os acumuladores brasileiros são diferentes dos acumuladores norte-americanos, que são mostrados nos programas de tv. Que, por sua vez, são diferentes dos acumuladores ingleses (que passam em outros programas).

Uma vez eu conversei com uma personal organizer holandesa que me explicou que era muito difícil lidar com acumuladores holandeses porque, muitas vezes, eram pessoas que tinham passado pela escassez da segunda guerra, e que não sabiam se desfazer dos seus pertences. A questão é muito além do que se imagina.

Nos Estados Unidos, onde há muito mais fartura material e um consumo exagerado, é natural que existam mais acumuladores. Mas o que faz um acumulador se tornar acumulador não é o seu poder de compra, porque há pessoas que acumulam lixo, papel, jornal. O que faz um acumulador ser um acumulador é ter alguns distúrbios psicológicos, leves ou mais sérios, e isso precisa ser identificado, porque não é chamando uma personal organizer na sua casa que você vai resolver esse problema, nem lendo o livro da Marie Kondo.

Como saber se você é um acumulador ou convive com alguém assim

  • Apesar de parecer que sim, não tem necessariamente a ver com a idade. Tem gente que é acumuladora desde criança.
  • Você vê valor afetivo nos objetivos e acha difícil se separar deles (jogar fora, vender ou doar).
  • Você não percebe que um montinho de coisas gera sujeira. Isso nem te incomoda. Por exemplo, uma pilha de revistas fica durante ANOS no chão e você nunca a tirou dali para limpar embaixo ou ao redor.
  • Você tem em casa muitos objetos que não usa há bastante tempo. Ou porque eles te lembram de uma época feliz da sua vida (e guardá-los é como se você revivesse aquilo, de alguma maneira) ou porque eles te lembram de alguém (que você não tem mais).
  • Você tem dificuldades em jogar fora até mesmo itens que são considerados lixo por outras pessoas, como embalagens ou caixas.
  • Você frequentemente reclama de falta de espaço na sua casa e sente que existem pilhas se acumulando por todos os lados.
  • Você tem vergonha de receber pessoas na sua casa ‘por causa da bagunça”. Isso não é um sentimento que acontece de vez em quando, mas SEMPRE.

No fundo, pode ser que você saiba se você é ou não. De modo geral, se as suas coisas estão atrapalhando sua vida de alguma maneira, pode ser que isso seja um indício de que você precisa procurar ajuda.

Mas quem procurar?

  • Terapeuta cognitivo-comportamental
  • Psiquiatra, para análise e diagnóstico

Quem você NÃO deve procurar:

  • Personal Organizer
  • Coach
  • Faxineiro

É muito importante 1) reconhecer o problema e 2) buscar tratamento. Apenas após esse tratamento você poderá buscar soluções alternativas adequadas para a sua residência e organização pessoal.

22 comentários

  1. Thais, bom dia!
    Achei fantástico seu post, pois compartilho de que não é necessário somente uma faxina externa em um local atulhado de coisas e, sim, um apoio para fortalecer internamente os acumuladores.
    Gostaria de suas dicas em como apoiar as crianças (com tendências a acumular) a se desapegarem.

    Desde já, um abraço.

  2. Dizemos que meu pai é acumulador, mas não acho que ele se encaixa no perfil que você descreveu…
    Ele guarda tudo em todo lugar, e depois não acha o que precisa, e sai pra comprar de novo. É assim com tudo: Roupas, sapatos, ferramentas… O exemplo mais clássico é cortador de unhas. Toda semana ele vai ma farmácia e compra um novo. Corta as unhas, enfia em algum lugar, e na semana seguinte não acha mais e precisa sair pra comprar novamente…
    Ele também muitas vezes vê “novidades” e não consegue não comprar, mesmo que não tenha a menor necessidade daquilo. Se achar que é um bom negócio então, compra logo vários, e sai distribuindo. Mas ele não é apegado. Se eu for visitar e disser que gostei de algo, ele me dá com prazer.
    Mas foca extremamente chateado se dissermos que ele tem coisas demais e precisa se “desfazer” de algo…

    De repente ele não seja acumulador, somente desorganizado mesmo… Nesse caso, creio que seja mais fácil mudar o comportamento, né? (se ele quiser, é claro)

  3. Eu sou uma acumuladora, mas não havia percebido que era até +- dezembro do ano passado e acredito que assim sejam os acumuladores brasileiros em sua maioria
    No meu caso, percebi que isso é um hábito de família.
    Minha ficha caiu no dia em que estava na casa da minha vó e havia um prendedor quebrado, minha mãe então disse que iria jogá-lo fora e minha vó disse a frase: “Deixa ai, pode servir para alguma coisa”.
    Mas qual é a utilidade de um prendedor quebrado? Somente na mente de pessoas acumuladores essas coisas fazem sentido.
    Os acumuladores, no geral, não tem pilhas e pilhas de coisas espalhadas pela casa, mas sim mantém essas inutilidades fora de vista como guardadas em armários, despensas, bolsas.
    Também outro fato que acumuladores fazem é comprar cosméticos, perfumes, maquiagens sem ter acabado as antigas. Assim fica-se um terrível estoque bagunçado.
    Esses tempos achei uma mochila escolar antiga com diversas pastas de 2013, com, pasmem: provas escolares de ensino médio.
    Agora, com uma nova mentalidade, consegui me livrar dessas “lembranças” que não possuem valor nenhum.
    Sigo tentando eliminar alguns entulhos e sei que aos poucos irei conseguir
    Minha mensagem para quem mais pensa que sofre de acumululação é primeiro perceber o problema e ler muitos artigos sobre.
    Se conseguir buscar uma ajuda profissional para o problema, melhor, mas mesmo que não seja possível de imediato é importante realizar limpezas mentais e físicas.
    Também estabeleci uma meta de 100 dias sem comprar nada, só utilizando as coisas que tenho para terminar o restinho e me livrar delas também.

    • É exatamente isso que você disse!! “Os acumuladores, no geral, não tem pilhas e pilhas de coisas espalhadas pela casa, mas sim mantém essas inutilidades fora de vista como guardadas em armários, despensas, bolsas.” Descobri isso com o tempo, é isso q acontece em casa. O que fazer nesse caso quando a minha ficha caiu tbm, mas de minha mãe não. Mesmo eu mostrando pra ela o que ela faz de errado?

      • Dani, para que sua mãe mude, ela por si própria deverá enxergar que isso é um problema. Como disse e você reforçou, o acúmulo não é algo “visível”, pois está “escondido”, então tente deixar a porta dos armários abertas (e de outros lugares onde ela guarda as coisas) quando você souber que ela passará por lá, para que ela ao ir fechar comece a perceber que tem coisas demais. Você também pode tentar trocar alguns itens de lugar para que sua mãe possa perceber coisas que não estavam lá antes e que não tem nenhuma utilidade.
        Durante algumas leituras de artigo me deparei com um blog que comentava sobre um desafio de 2 semanas onde deveria se livrar de 50 itens. Estou tentando algo semelhante: Ao longo dos dias jogar pequenas coisas fora, para que possa ser uma mudança de hábitos gradual e mais efetiva.

        • Muito obrigada pelas dicas, vou tentar fazer 😉 Mas só pra você ter uma ideia: final de semana, que é quando eu estou em casa, aproveito pra arrumar algum cômodo da casa e destralhar um pouco o que tem nele, tiro uma sacola cheia de coisas inúteis, quebradas, que não servem mais e coloco no canto da parede para colocar na rua quando o carro do lixo passar. No outro dia, quando chego em casa, vejo os itens dentro de casa de novo, pq ela sempre olha o lixo que eu acumulei no saco e tira as coisas que ela acha úteis ou que vamos precisar um dia e coloca no lugar de novo, entulhando novamente. E ainda reclama comigo por eu ter “jogado fora”… Eu acabo me desmotivando e ficando meio deprê, pq isso sempre se repete e eu nunca consigo ter uma casa organizada por conta disso =( É triste…

  4. Thais Godinho, você foi racional, direta e ao mesmo tempo delicada ao abordar o tema. Obrigada. Há muitas pessoas assim. Precisando de ajuda. Vamos compartilhar este post.

  5. Thaís, importante acrescentar que não apenas terapeutas cognitivos comportamentais podem atender pessoas acumuladoras. Profissionais psicólogos de outras abordagens também podem ser procurados.

  6. Thais, tá de parabéns, como sempre, principalmente por deixar explícito quem deve ser procurado para resolver de fato o problema.

    Obs: seu site está com um problema no https; aparentemente, ele está reconhecendo as imagens como http (ou seja, conteúdo misto, sem segurança) e aí meu navegador não está reconhecendo seu site como seguro. É bom conversar com seu desenvolvedor sobre isso, mas um plugin de https do wordpress e atualizar as urls das imagens hospedadas já ajudaria^^

  7. Oi Thaís, muito bacana a forma como você abordou o assunti, parabéns. Fiquei muito curiosa para saber os motivos de você ter indicado especificamente terapeutas da abordagem cognitivo comportamental. Você poderia falar mais sobre isso? Desde já muito obrigada.

  8. Thais, na minha opinião, meus pais são acumuladores. Apesar da casa parecer estar em ordem, os armarios (e são muitos) estão lotados de coisas, de roupas q minha mãe comprou há 20 anos e esparava emagrecer para usar – e nunca usou – até itens que eram da casa da bisavó. Pra vc ter uma ideia, ela e meu pai tem um sítio que serve de depósito. Nada é jogado fora. Só lixo orgânico, e olhe lá se não der para aproveitar. Todos os cômodos da casa tem uma TV, pq eles compram uma nova para a sala e remanejam a antiga para o comodo que ainda não tem, incluindo os quartos vazios, já que agora só vivem os 2. É um caos de coisas estrategicamente alinhadas. Mas é tanta coisa… Ninguém precisa de tanta coisa para viver… E por mais que já tenha falado que isso é doença, eles não escutam. A menos que não seja e eu que tenha encanado com isso! Rs

    Ótimo post!

  9. Oi, Thais, sou psicóloga e atriz, e sempre leio o seu blog. Comecei a me interessar pela organização pessoal através dele.
    Sinto que preciso parabeniza-la por ter a consciência de indicar, caso a pessoa tenha esta questão, que ela procure o profissional adequado, no caso psiquiatra e/ou psicóloga. A questão que quero indicar aqui é que não necessariamente a psicóloga precisa trabalhar com a abordagem cognitivo-comportamental. Entendo que você tenha indicado esta abordagem por se tratar de um profissional que se debruça sobre o problema indicado com um foco específico. Mas às vezes o problema é mais profundo do que imaginamos, as pessoas são diferentes umas das outras e existe todo um leque de abordagens e profissionais diferentes para que cada indivíduo possa encontrar aquela que mais se adéqua ao seu jeito de se localizar no mundo.
    Um forte abraço!

  10. Obrigada Thais por me ajudar cada vez mais a ser organizada e menos acumuladora.
    Te acompanho desde 2013. Só aprendo com vc.
    Quero organizar a casa, mas Minha mãe não colabora. Como uma pessoa contou aqui, eu chego a jogar coisas fora, e ela pega do lixo e guarda de novo. A idade tá chegando. Ela sente dores e não pode mais arrumar a casa como gosta. Está ficando bem difícil… Ainda assim aos poucos a convenço sempre a desapegar de coisas inúteis.

  11. Fiquei refletindo que poderia ser abordado “a compulsão “ de “organização “! Toda vez que vou a kalunga eu volto com pastas, caixas e afins de “organizar” (sim, sei que não tem nada a ver, estou relendo vida organizada!)

  12. Oi, Thaís!
    Sou profissional da organização e não atuo com acumuladores, mas sei identificar um, pois tenho formação em psicanálise. Mas temos profissionais da organização especializados em acumuladores que fazem um trabalho multidisciplinar com psiquiatra e psicólogo. Geralmente quem possui o trastorno que é psiquiátrico, não busca ajuda, pois se trata de uma doença em que ele não entende como tal, o psicólogo e o personal organizer entram após esse paciente estar devidamente medicado, realmente, nunca antes.
    Abraços!

  13. Muito bom texto Thais. Me recordei de uma materia que saiu sobre acumuladores (https://super.abril.com.br/blog/como-pessoas-funcionam/como-funciona-o-cerebro-dos-acumuladores/) esse transtorno esta ligado a uma dificuldade na tomada de decisão. Com isso percebi que eu tenho esse problema (tomar decisões) e tento contornar antes que se torne pior. Minha mãe por outro lado tem um problema muito maior… No entanto, até se tornar um transtorno é um longo caminho. Muitas pessoas podem não chegar a ser acumuladores, mas saber que os motivos porque se acumula ajuda a tratar o real problema que pode ser até outro transtorno ou trauma.

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