O tempo se desfaz sem forma se não o marcamos. Dias que começam arrastados e terminam sem um ponto final, uma página virada sem pausa entre um capítulo e outro. A vida segue em fluxo contínuo, mas sem margens definidas, tudo se mistura: manhãs que já começam cansadas, noites que se arrastam sem descanso, horas que se esvaem sem deixar rastro.
Criar rituais de início e fim é desenhar pequenas fronteiras, dar contorno ao que poderia se perder. Não precisam ser grandes gestos, nem cerimônias elaboradas. Um café feito devagar, a primeira luz do dia entrando pela janela, um momento de silêncio antes de começar. O fechar de um caderno, um último olhar para a lista de tarefas, um chá quente entre as mãos antes de se recolher. Pequenos marcos que dizem: agora começa, agora termina.

Esses rituais não são apenas sobre rotina, mas sobre presença. Sobre fazer do comum algo sagrado. Sobre dar significado ao que poderia passar despercebido. Quando o dia começa sem pressa, quando a noite chega com um desfecho, há uma sensação de ordem que não vem da rigidez, mas do cuidado.
O começo pode ser um suspiro profundo antes do primeiro compromisso, uma música que toca sempre na mesma hora, um par de minutos olhando para o céu. O fim pode ser um livro lido à meia-luz, um banho que marca a transição entre o mundo e o descanso, um caderno onde se escrevem fragmentos do que foi vivido. Coisas pequenas, mas que criam uma trilha no tempo, um caminho para os dias não se dissolverem no esquecimento.

E não importa se alguns rituais mudam. Se um dia a manhã pede silêncio, que seja. Se outro dia o fim precisa de uma caminhada longa para desanuviar a mente, tudo bem. O essencial é a intenção de separar os momentos, de dar a eles um começo e um fim. De lembrar que há pausas entre os movimentos, que a vida pode ter ritmos, intervalos, respiros.
O mundo apressa, empurra, atropela. Mas dentro da pressa ainda pode haver um instante de pausa, uma transição, uma forma de dizer: este momento importa. Este dia teve um início, este dia encontrou seu fim. Não foi só mais um.
Porque a vida não é uma linha reta e contínua. Ela precisa de vírgulas, de pontos, de espaços em branco. Pequenos rituais seguram o tempo entre os dedos e fazem dele algo mais nosso.
Adorei o post! Faz todo o sentido nesta vida frenética, com um ritmo louco e, por vezes, alucinante. Precisamos de pausas no movimento contínuo que é a vida.
Tão importante esses momentos de limites entre o começar e o terminar!
A sensação de estar 24×7 “fazendo” sem fim ou trégua precisa acabar para que possamos viver um pouco. Intencionalmente.
Que bonito esse texto! Inspira a ter presença, mesmo num dia caotico. Obriga Thais!!
Que texto mais lindo e inspirador!
Minha semana terá mais poesia porque o li.
Obrigada!
Agora começa, agora termina. Puxa, Thais, você não tem ideia de como esta frase me pegou. Começando um novo ano astrológico, terminando ciclos que se arrastam, buscando ter mais consciência dos meus dias. Obrigada por partilhar.
Que texto, (não seria um poesia?) necessário para um início de mês!
A presença, é o que nos faz sair da roda dos ratos. Nos faz aproveitar e apreciar melhor o tempo e o que está ao nosso redor.