20 anos de Vida Organizada

Há 20 anos, eu abri o Blogspot e criei um novo blog. Eu já tinha blogs desde 2001. Desta vez, eu queria criar um blog para falar sobre organização. Por quê? Porque eu estava no fim da faculdade, com um TCC em grupo para entregar, tinha acabado de ser promovida a coordenadora numa agência de publicidade e havia descoberto um método chamado GTD que, para minha surpresa, estava me ajudando a dar conta de tudo aquilo, e como eu sempre escrevi na internet para entender o que estava pensando, achei natural escrever também sobre isso, sem desconfiar que estava começando a conversa da minha vida.

Eu já tinha passado por um burnout em 2004, quando esse termo nem existia. Eu gostava do meu trabalho na época, mas ele era volumoso e, por isso mesmo, fiquei doente de tanto trabalhar, coisa que eu nem sabia que era possível. Saí dali decidida a não trabalhar mais num lugar que me deixasse daquele jeito (eventos, aulas aos finais de semana), e foi um longo trajeto pulando de emprego em emprego até entrar em uma agência de publicidade em 2006. Ela prestava serviços para instituições religiosas, o que de alguma forma deixava o ritmo mais “normal”, me permitindo entrar e sair no horário comercial. Só que a agência ficava longe da minha casa e da faculdade e eu passava de quatro a cinco horas por dia no transporte público, e eu comecei a ir mais cedo e sair mais tarde para pegar menos trânsito, o que me fazia trabalhar mais e ter menos tempo para todo o resto. Com um TCC em grupo para finalizar minha gradução e uma promoção a coordenadora no meio, que o GTD me ajudou a não repetir o que já tinha acontecido alguns anos antes.

Eu me formei no fim de 2006 e os anos seguintes foram mais tranquilos, até que em 2008 saí da agência pois estava com uma depressão que me deixou disfuncional completamente. Naquela época, descobri movimento do minimalismo e fui radical com o que queria tirar ou deixar na minha vida: pedi demissão, terminei um relacionamento e joguei fora cerca de 90% das minhas coisas, e o que ficou no lugar de tudo isso foi um vazio. Afinal, quem era a Thais sem tudo aquilo que fazia parte da minha vida? De alguma forma, isso me fez perceber que objetos não são “vilões”, e que tá tudo bem ter coisas que você gosta, que fazem bem à sua auto-estima (roupas), conhecimento (livros) e por aí vai.

Quando voltei com o meu namorado, que depois se tornou meu marido, veio uma vontade incontrolável de me tornar mãe, e eu atribuo isso ao retorno de Saturno, né? Nós nos casamos, e eu me planejei para trabalhar em casa com freelas e conseguir engravidar, e foi o que aconteceu. Trabalhei em casa até o sétimo mês, quando descobri uma pré-eclâmpsia e precisei ficar em repouso total, evitando estresse, porque a pressão poderia prejudicar o bebê e, no pior dos casos, me levar à morte. Meu pai estava com câncer e faleceu quatro dias antes de o meu filho nascer.

Meu marido e eu conversamos e concluímos que seria mais organizado eu voltar ao mercado de trabalho, porque eu ganharia mais do que ele (pela minha formação e experiência profissional como gestora já), ele que na época tinha dois trabalhos, então ele passou a ficar em casa durante a semana, trabalhando com a banda à noite e aos fins de semana, e eu voltei a trabalhar fora quando nosso filho tinha quase um ano. Eu tive depressão pós-parto e foi horrível. Voltar a trabalhar foi importante para eu me sentir eu mesma de novo. Naquele mesmo ano, recebi uma proposta muito boa de trabalho em Campinas e nos mudamos para lá, onde ficamos durante três anos.

Em 2012, ainda em Campinas, eu estava bastante descontente porque o trabalho exigia muitas viagens, de três a quatro por semana em vários momentos, e eu tive problemas de relacionamento com algumas pessoas da equipe, o que deixava o dia a dia mais difícil. Fui a um centro budista para aprender a meditar, acabei frequentando o centro com regularidade, me tornei budista de verdade e cheguei a dar aulas de meditação, e aprender a meditar foi essencial para mim, porque foi ali que nasceu a semente do que anos mais tarde eu chamaria de Produtividade Compassiva. E a meditação e o Budismo realmente me salvaram naquele momento e depois. Mudou minha vida. Mesmo com toda a ajuda do budismo, a quantidade de viagens foi o que decidiu a questão, porque eu queria ficar mais perto do meu filho e comecei a desenhar um plano para sair. Queríamos voltar para São Paulo também, pela nossa família e o convívio com nosso filho, além dos shows da banda do meu ex-marido todos os finais de semana. E eu sentia falta de SP. Enfim, foram muitos fatores.

Ah! É importante citar que em 2011 e 2012 eu fiz uma pós-graduação em mídias digitais, cujo TCC era um projeto profissional, e escolhi profissionalizar o blog Vida Organizada. Foi ali que vi a possibilidade de planejar, em três a cinco anos, um modelo de trabalho para viver do que eu falava no blog, o que acabou acontecendo muito antes (entre 2013 e 2014).

Pedi demissão em junho de 2014, na época da Copa do Mundo, e em julho comecei a trabalhar como instrutora de GTD. No fim daquele mesmo mês lancei meu primeiro livro, o Vida Organizada, o que foi uma grande conquista para mim.

Lançamento do livro “Vida Organizada”na Saraiva do Shopping Paulista em 2014

Em 2014, comecei a trabalhar com o Daniel, ministrando treinamentos de GTD na Call Daniel (representante comercial do método no Brasil), e foi ele quem me deu as grandes oportunidades daquele período, que foi dos mais significativos da minha vida. Em 2015 fui com ele para Amsterdam, onde conheci o David Allen, e ali comecei a tirar uma série de certificações que me tornariam Master Trainer do GTD Níveis 1, 2 e 3 no Brasil – a pessoa responsável por formar os outros instrutores. Fiquei nesse trabalho até o início de 2019 e, durante esse tempo, lancei o livro “Casa Organizada”, em 2016, e “Trabalho Organizado”, em 2018.

Ministrar cursos em empresas despertou em mim a vontade de fazer um mestrado, porque eu via o RH ou o gestor colocar os trabalhadores dentro de uma sala para aprender sobre produtividade quando o problema da empresa era estrutural, ou até da própria gestão, e a conta de resolver isso acabava caindo em quem estava sentado ali, entre outros problemas. Passei a querer pensar de maneira mais crítica a produtividade no trabalho, e foi assim que em 2018 comecei o meu mestrado, que terminei em 2020, pouco antes do fechamento de tudo na pandemia.

Em 2017 eu fiz uma cirurgia no esôfago (semelhante à bariátrica) e perdi muito peso. Isso afetou a minha saúde, que se tornou mais frágil. Iniciou ali uma série de adaptações que eu nunca deixaria de fazer com o passar dos anos, à medida que fui envelhecendo. Por exemplo, conheci o Ayurveda, alguns anos mais tarde, o que mudou minha vida no mesmo nível que o Budismo, fui vegana durante quase três anos, desenvolvi uma fibromialgia durante o doutorado etc.

2018 foi um ano intenso. Comecei o mestrado, minha avó morreu (isso me afetou profundamente pois eu era muito ligada a ela), fiz a certificação do Nível 3 em Amsterdam, me separei, me mudei, o Bolsonaro ganhou, toda aquela intensidade da época.

2019 foi um ano em que aconteceu muita coisa, também, tudo isso enquanto eu fazia o mestrado. Em fevereiro, fui para Lisboa ministrar um curso de GTD organizado pela Silvia (que trabalhava comigo) e eu, um trabalho colossal. em Lisboa, em Portugal, e em junho fui a única brasileira a palestrar no GTD Summit, o grande evento da vida do David, uma honra de convite que recebi, e amei participar em Amsterdam.

O Método Vida Organizada não nasceu em 2019, ano em que lancei o curso na versão online. Ele foi sendo construído ao longo dos anos, com um pequeno esboço inicial dele no livro “Casa Organizada”, em 2016. Ao longo de 2019, eu também ministrei um workshop autoral de planejamento de vida, que eu amava fazer e era a base do método, até que no final do ano eu o lancei como um curso online. Isso foi muito assertivo porque em março tudo fechou por conta da pandemia e, graças a essa estratégia, naquele momento eu já estava trabalhando 100% online.

Com a enorme demanda por cursos e treinamentos online que veio nesse período, a empresa cresceu muito depressa, e foi preciso profissionalizar uma série de processos. Entre eles, em 2021, veio a certificação do Método Vida Organizada pelo MEC, que trouxe validação e autoridade ao método, e em 2022, com o lançamento da formação profissional para mentores de produtividade, também chancelada pelo MEC, passamos a ser uma universidade corporativa e uma empresa com a equipe crescendo rápido.

Durante o fechamento na pandemia, vi como as pessoas estavam sofrendo ao trabalhar muito em casa e conciliar o trabalho com os filhos, entre tantas outras atividades, fora o medo do que aconteceria, e vi como a minha formação como budista ajudava muito naquele momento. Foi ali que surgiu o conceito de Produtividade Compassiva e, ali, no meio de tudo o que estava acontecendo no mundo, me deu vontade de defendê-la numa tese. Eu não pretendia fazer doutorado logo depois do mestrado, mas foi como se eu tivesse recebido um chamado, e em 2022 entrei no doutorado, depois de obviamente muita pesquisa, planejamento e execução desse projeto.

A partir daquele momento, a minha vida mudou muito, e de maneira extrema. Em 2022, com a vacina, as aulas do doutorado voltaram a ser presenciais. As coisas como um todo foram voltando a ser presenciais.

Até que, em março, na porta da faculdade, sofri um sequestro relâmpago. Eu saí dali viva, mas sabendo que poderia não ter sido assim, e foi com essa ideia na cabeça que passei os dias, semanas e meses seguintes pensando que eu tinha recebido uma “segunda chance” e que ela tinha vindo como um recado do universo para que eu fizesse tudo aquilo que eu queria fazer (como dizia Rita Lee).

Foi ali que percebi que durante muito tempo tinha colocado sempre as necessidades dos outros em primeiro lugar, antes de mim, a ponto de nunca ter vivido boa parte do que sempre quis viver. Viagem? Sempre para onde os outros queriam ir. Filmes? Nunca eu escolhia. Isso servia para absolutamente tudo. “Fazer o que eu queria fazer” foi bom em alguns aspectos e em outros não, não mesmo, porque nem tudo o que a gente quer fazer é bom pra gente e pra quem está ao nosso redor.

Uma das coisas boas foi viajar em abril de 2023 para fazer um intercâmbio na Alemanha, com a ideia de ficar até o fim de julho. Estava sendo incrível, mas em junho eu sofri um acidente de trânsito e quebrei a perna. Precisei voltar às pressas para ser operada no Brasil e me recuperei durante três meses, obedecendo de maneira espartana as instruções médicas para conseguir voltar à Europa em três meses, setembro, porque eu não só precisava finalizar um trabalho na Alemanha como tinha um evento do GTD e uma formação em Holacracia em Amsterdam. Viajei de muleta. Foi difícil, mas consegui.

Durante a minha recuperação, para facilitar minha circulação com andador e cadeira de rodas eu aluguei um apartamento para mim, iniciando uma nova fase na minha vida. Foi na Alemanha também que comecei a namorar de novo depois da separação, com um amigo que eu conhecia pela internet há mais de vinte anos, e isso foi muito legal.

2024 seria um ano de viagens. Em janeiro, realizamos um evento presencial do Vida Organizada, que foi muito legal, e já em fevereiro eu viajei de volta para a Europa.

Voltar para o intercâmbio naquele ano foi mais difícil, porque desta vez eu ficaria mais tempo, na Polônia. Para aguentar tanto tempo longe, em vez de ficar de cinco a seis meses seguidos, eu “raspei minhas economias” para pagar passagens de ida e volta a cada mês ou mês e meio e ficar com o meu filho no Brasil, mas obviamente isso nunca seria suficiente. Longe dele tive grandes crises de pânico e uma depressão profunda, também desencadeadas por um medicamento errado, na dosagem errada, que estava tomando, e que quase me levou a uma overdose. Foi um período muito difícil e eu só voltei de vez para casa no fim de setembro.

O intercâmbio na Polônia me permitiu conhecer lugares diferentes, como Auschwitz. Para não me sentir tão sozinha, eu procurava ir com mais frequência para a Alemanha, visitar o meu namorado, o que era bom mas cansativo e caro. Vale dizer também que em junho em palestrei no GTD Summer Camp, na Dinamarca, falando sobre Produtividade Compassiva e GTD, o que foi muito legal mas, gente, como foi cansativo conciliar tantas viagens e eventos.

A real foi que dois anos de intercâmbio afetaram todas as áreas da minha vida profundamnete. Na saúde, por exemplo, descobri uma fibromialgia, tive depressão, quebrei a perna, a costela e tive muita ansiedade, terminei o meu namoro em 2025, quando eu estava muito mal, e a empresa também foi afetada, porque precisei reduzir e simplificar os processos enquanto eu estava longe. Foi tudo muito difícil para todos. Esse período foi complexo e sensível, e eu prefiro contar com calma em outros posts, mas a real é que só comecei a melhorar de verdade um ano depois, em dezembro de 2025.

Em maio de 2026, cinco meses depois de eu ter melhorado, defendi a tese de Produtividade Compassiva, fui aprovada e me tornei Doutora em Sociologia do Trabalho. Este ano também teve um marco, que foi terminar de pagar o financiamento da sala comercial que é o que permite que o Vida Organizada tenha a sua “casa” sempre. Mas a grande real é que precisei descansar nesse segundo semestre e somente agora estou retomando as minhas atividades aos poucos.

Enfim, aconteceu muita coisa nesses anos todos, mostrando como a minha vida mudou desde a pessoa que abriu o Blogspot em 2006, com um TCC em grupo para entregar e uma promoção para dar conta, até a que defendeu uma tese sobre Produtividade Compassiva em 2026.

Sabe, nesses anos todos eu vi, li e ouvi o termo “blogueirinha” sendo usado de maneira pejorativa para o que hoje se convencionou como “influencer”, quase virando ofensa. Para mim e para outras pessoas que vieram dessa era dos blogs, me parece injusto porque blog, em sua origem, era um lugar onde alguém escrevia, com data, para quem quisesse ler sobre a vida da pessoa em questão. Tornou-se um modelo de negócio especialmente para as áreas de Moda e Humor, até o estouro dos infoprodutos a partir de 2015. Eu só sei que tenho este aqui desde 2006 e que ele transformou a minha vida de um jeito que eu não sei explicar sem parecer exagero, e não faço ideia de quantas pessoas ainda têm um, só sei que eu tenho, que ele continua me motivando e que eu continuo escrevendo porque gosto de escrever. O termo “bloguerinha” sempre me pareceu injusto porque começar este blog mudou toda a minha vida, construí uma empresa, um método, fiz doutorado, escrevi três best-sellers antes da era dos ChatGPTs da vida…

Vinte anos depois eu escolhi continuar escrevendo aqui pelo mesmo motivo de 2006, que é entender o que estou pensando, aprendendo com as pessoas no dia a dia, e acho de verdade que a diferença é que agora tenho muito mais coisa para entender. Como pesquisadora de Sociologia do Trabalho e na era das inteligências artificiais, tenho muuuuita coisa a dizer. Então bora lá, porque a Teoria da Produtividade que estou escrevendo é para publicar depois dos meus 70 anos e, se o mundo da Internet permitir, esse blog deverá existir até lá.

Se você leu até aqui, é provável que tenha acompanhado parte dessa história, desde um dos primeiros posts, um curso, um livro ou uma conversa, e eu queria agradecer, porque um blog só dura vinte anos quando alguém do outro lado continua lendo. E, se for a sua primeira vez por aqui, entre, a porta está aberta. 😉

Parabéns, Vida Organizada, pelos vinte anos, e que venham os próximos. Obrigada por estar aqui.

Sobre a autora

Thais Godinho

Autora do Método Vida Organizada, criou este blog em 2006.

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