Categoria(s) do post: Família, Vida

Algumas vezes comentei sobre esse assunto no blog e muitos de vocês me pediram para escrever mais a respeito. Um dos objetivos de cuto e médio prazo que tenho é sobre o futuro da minha mãe. Comentei que sou filha única e que minha mãe mora em outra cidade, e que eu refletia sobre isso já há algum tempo, sobre como isso influenciaria na minha vida e que eu queria ter um plano para o futuro.

Eu gosto de fazer um exercício que eu chamo de linha do tempo de 100 anos. É basicamente uma linha do tempo para a minha vida, caso eu viva 100 anos, no melhor dos cenários. Não quero entrar aqui na questão de que a expectativa de vida do brasileiro é de menos de 80 anos, e de que já serei idosa aos 60. Não é esse o ponto. É justamente uma reflexão sobre a vida ser finita. Posso viver 100 anos como posso viver 40. Ninguém sabe. É como se fosse uma tela em branco que uso para fazer reflexões sobre a vida de modo geral. Eu ensino esse exercício com mais detalhes no meu curso, no módulo de planejamento de vida.

Quando fiz esse exercício pela primeira vez, anos atrás, eu tive esse grande insight sobre a vida dos meus familiares. Minha avó ainda estava viva, mas já era velhinha. Foi esse exercício que me deu o estalo de querer fazer uma transição de carreira, voltar para São Paulo (nós morávamos em Campinas – ficamos três anos lá por causa do meu trabalho na época), para passar mais tempo com ela, permitir que ela tivesse uma vivência de bisavó com o Paul. Tudo isso foi muito acertado e conseguimos fazer isso. No último Dia das Mães em que ela estava viva, ela estava em uma cama de hospital, fazendo hemodiálise, quase sem sentidos (cognitivamente falando). Foi um dia muito, muito difícil. Eu estava com ela e passei o dia agradecendo por tudo o que ela tinha proporcionado a todos nós, como família, e que ela ficasse tranquila, pois ela tinha um bisneto que a amava, que gostava de matemática (era uma brincadeira interna. “nossa”, pois ninguém na família gostava de matemática e ela acreditava que ele seria o abençoado, e foi! rsrs o Paul ama matemática). Que ela ficasse tranquila com relação à casa, à família, ao meu tio, enfim. Foi apenas um momento a ser lembrado.

Minha avó se foi naquele ano (2018), mas ter feito esse planejamento anos antes me permitiu vivenciar uma série de coisas com ela, e é esse o valor que vejo nesse tipo de planejamento. Ainda que em uma escala diferente, tenho a minha mãe. Ela é muito mais nova que a minha avó, é claro, mas os anos passam para todos. Minha mãe está ótima. É muito ativa, tem um comércio, está bem de saúde. Mas eu sei que a idade chegará para ela também e que eu sou filha única. Moramos em cidades diferentes, e isso sempre me preocupou bastante. Como será o futuro? Se algo acontecer, qual é o plano? Pensar sobre isso não é ter ansiedade, como muitas pessoas acham. Eu, pelo menos, fico ansiosa se pensar nisso e não tiver um plano. Planejar as coisas me deixa tranquila pois eu sei que, se algo acontecer, eu já pensei nas possibilidade e isso facilita a tomada de decisões.

Este ano, tive boas conversas com a minha mãe. O que decidimos é que, em algum momento, faz sentido ela mudar novamente para São Paulo, para ficar perto de nós. De modo geral, o que decidimos é que, quando sair a aposentadoria dela (já deu entrada, mas é um absurdo como o Governo demora para liberar esse benefício, então acreditamos que ainda levará um tempo), ela se sentirá mais segura para fechar a loja (pois não dependerá desse faturamento para pagar suas contas) e fazer outra coisa. Essa “outra coisa” provavelmente será viver de artesanato, como ela sempre gostou de fazer. Minha mãe é uma pessoa de espírito livre, meio hippie. Sempre gostou de viajar, então acredito que será uma daquelas velhinhas que vai fazer viagens com outras vovozinhas, para lá e para cá, e participar de feiras de artesanato fazendo amizades e curtindo esse ambiente musical e cultural.

Aqui eu quero trazer um aprendizado que tive e que partiu de ter uma perspectiva mais humilde sobre a coisa toda. Apesar de termos combinado sobre a mudança para São Paulo, isso era algo que estava muito mais dentro da minha cabeça que da dela. Recentemente, percebi que ela gosta de morar no litoral. Voltar para São Paulo seria uma mudança de estilo de vida difícil para ela. Apesar de ela sempre ter morado em um bairro cultural e cheio de atividades do estilo que ela gosta, São Paulo é uma cidade difícil em termos respiratórios (rs). Em resumo, por mais que você more em um bairro arborizado, faz diferença você morar aqui ou no litoral. Quem se acostuma com o estilo de vida perto da praia, andando de bicicleta, respirando o ar puro, acha difícil voltar a gostar daqui. Eu sou suspeita pra falar, pois adoro São Paulo, mas não consigo negar como esse fator influencia. Eu desenvolvi sinusite, meu marido tem bronquite desde criança e nosso filho teve problemas respiratórios também. Sabemos que o clima ajuda. Em resumo, minha mãe gosta da vida dela lá, e é provável que ela queira continuar morando no litoral enquanto puder. Pesquisando sobre imóveis em São Paulo, ela sempre se mostrou levemente desapegada dessa procura, até que eu percebi que eu estava meio que “colocando o carro na frente dos bois”. Se em algum momento ela precisar, por conta da saúde mesmo, sabemos que a estrutura de São Paulo é melhor e eu estar por perto é o mais prático. Então, quando e se precisar, vamos pesquisar e alugar um apartamento para ela na mesma região em que moramos e ela vai se mudar. É isso. Mas, até lá, ela vai viver a vida dela e ser independente no lugar em que quiser viver.

Penso que o ponto mais importante seja encaixar a atenção a ela mesmo com ela morando em outra cidade. Todo mundo sabe como o ritmo do dia a dia pode tornar as coisas mais difíceis. Mas não dá pra dar desculpas. É algo que tem que ser encaixado e planejado com regularidade. Minha mãe só tem a mim, e a nossa família, então visitá-la e prover tudo o que ela precisa tem que ser uma prioridade. Isso vai ficando cada vez mais latente à medida que ela vai ficando mais velha e precisando de um suporte maior. Financeiramente, já a ajudo como posso. Que bom que cheguei num ponto da vida adulta em que isso é possível, e agradeço todos os dias por esse privilégio. Sei quantas pessoas existem e que rezam diariamente para conseguir ajudar os pais, assim como eles ajudaram os filhos a vida toda.

Uma pergunta que pode surgir é sobre se pensamos em trazê-la para morar com a gente. Nossa casa é pequena e isso nunca foi uma possibilidade. Poderíamos pensar em mudar para uma casa maior, mas não vimos necessidade. Minha mãe é uma pessoa independente e é importante que ela tenha seu próprio espaço. Ela não se sentiria à vontade morando aqui e acho que isso afetaria nossa dinâmica como casal também (marido e eu). Não vemos necessidade nisso, sinceramente. É óbvio que, se fosse necessário, devido a alguma condição de saúde, nós faríamos o que fosse preciso.

Quando ela precisar, ou quiser, a ideia é alugar um apartamento em São Paulo, com portaria 24h (ou seja, uma certa assistência imediata, em caso de emergência), na mesma região que a gente mora, onde ela possa ter o espaço dela, a casa para as suas duas gatinhas, enfim, suas coisas por perto. Mas, enquanto ela está bem, tem saúde, e quer, ela continuará morando na cidade que gosta, com ou sem aposentadoria. Esse é o plano. Tendo um plano, eu já fico mais tranquila.

Em resumo, é respeitar a decisão dela como pessoa, ser humano, e prestar todo o apoio e suporte necessário para que ela fique bem até o final da sua vida (hoje ela está com 61 anos).

Minha dica para você que percebeu que se tornou adulto e precisa cuidar dos seus adultos também é: pergunte. Não tome decisões com base no que for mais prático, organizado ou funcional para você. Converse. Pais podem ser “filhos adultos” depois de uma certa idade, mas ainda são seres humanos com suas aspirações e vontades próprias. Em caso de necessidade, é óbvio que as condições serão diferentes. Mas, até lá, apenas esteja presente, dando suporte para que sejam felizes.