Família, Vida

Planejando o futuro com a minha mãe

Algumas vezes comentei sobre esse assunto no blog e muitos de vocês me pediram para escrever mais a respeito. Um dos objetivos de cuto e médio prazo que tenho é sobre o futuro da minha mãe. Comentei que sou filha única e que minha mãe mora em outra cidade, e que eu refletia sobre isso já há algum tempo, sobre como isso influenciaria na minha vida e que eu queria ter um plano para o futuro.

Eu gosto de fazer um exercício que eu chamo de linha do tempo de 100 anos. É basicamente uma linha do tempo para a minha vida, caso eu viva 100 anos, no melhor dos cenários. Não quero entrar aqui na questão de que a expectativa de vida do brasileiro é de menos de 80 anos, e de que já serei idosa aos 60. Não é esse o ponto. É justamente uma reflexão sobre a vida ser finita. Posso viver 100 anos como posso viver 40. Ninguém sabe. É como se fosse uma tela em branco que uso para fazer reflexões sobre a vida de modo geral. Eu ensino esse exercício com mais detalhes no meu curso, no módulo de planejamento de vida.

Quando fiz esse exercício pela primeira vez, anos atrás, eu tive esse grande insight sobre a vida dos meus familiares. Minha avó ainda estava viva, mas já era velhinha. Foi esse exercício que me deu o estalo de querer fazer uma transição de carreira, voltar para São Paulo (nós morávamos em Campinas – ficamos três anos lá por causa do meu trabalho na época), para passar mais tempo com ela, permitir que ela tivesse uma vivência de bisavó com o Paul. Tudo isso foi muito acertado e conseguimos fazer isso. No último Dia das Mães em que ela estava viva, ela estava em uma cama de hospital, fazendo hemodiálise, quase sem sentidos (cognitivamente falando). Foi um dia muito, muito difícil. Eu estava com ela e passei o dia agradecendo por tudo o que ela tinha proporcionado a todos nós, como família, e que ela ficasse tranquila, pois ela tinha um bisneto que a amava, que gostava de matemática (era uma brincadeira interna. “nossa”, pois ninguém na família gostava de matemática e ela acreditava que ele seria o abençoado, e foi! rsrs o Paul ama matemática). Que ela ficasse tranquila com relação à casa, à família, ao meu tio, enfim. Foi apenas um momento a ser lembrado.

Minha avó se foi naquele ano (2018), mas ter feito esse planejamento anos antes me permitiu vivenciar uma série de coisas com ela, e é esse o valor que vejo nesse tipo de planejamento. Ainda que em uma escala diferente, tenho a minha mãe. Ela é muito mais nova que a minha avó, é claro, mas os anos passam para todos. Minha mãe está ótima. É muito ativa, tem um comércio, está bem de saúde. Mas eu sei que a idade chegará para ela também e que eu sou filha única. Moramos em cidades diferentes, e isso sempre me preocupou bastante. Como será o futuro? Se algo acontecer, qual é o plano? Pensar sobre isso não é ter ansiedade, como muitas pessoas acham. Eu, pelo menos, fico ansiosa se pensar nisso e não tiver um plano. Planejar as coisas me deixa tranquila pois eu sei que, se algo acontecer, eu já pensei nas possibilidade e isso facilita a tomada de decisões.

Este ano, tive boas conversas com a minha mãe. O que decidimos é que, em algum momento, faz sentido ela mudar novamente para São Paulo, para ficar perto de nós. De modo geral, o que decidimos é que, quando sair a aposentadoria dela (já deu entrada, mas é um absurdo como o Governo demora para liberar esse benefício, então acreditamos que ainda levará um tempo), ela se sentirá mais segura para fechar a loja (pois não dependerá desse faturamento para pagar suas contas) e fazer outra coisa. Essa “outra coisa” provavelmente será viver de artesanato, como ela sempre gostou de fazer. Minha mãe é uma pessoa de espírito livre, meio hippie. Sempre gostou de viajar, então acredito que será uma daquelas velhinhas que vai fazer viagens com outras vovozinhas, para lá e para cá, e participar de feiras de artesanato fazendo amizades e curtindo esse ambiente musical e cultural.

Aqui eu quero trazer um aprendizado que tive e que partiu de ter uma perspectiva mais humilde sobre a coisa toda. Apesar de termos combinado sobre a mudança para São Paulo, isso era algo que estava muito mais dentro da minha cabeça que da dela. Recentemente, percebi que ela gosta de morar no litoral. Voltar para São Paulo seria uma mudança de estilo de vida difícil para ela. Apesar de ela sempre ter morado em um bairro cultural e cheio de atividades do estilo que ela gosta, São Paulo é uma cidade difícil em termos respiratórios (rs). Em resumo, por mais que você more em um bairro arborizado, faz diferença você morar aqui ou no litoral. Quem se acostuma com o estilo de vida perto da praia, andando de bicicleta, respirando o ar puro, acha difícil voltar a gostar daqui. Eu sou suspeita pra falar, pois adoro São Paulo, mas não consigo negar como esse fator influencia. Eu desenvolvi sinusite, meu marido tem bronquite desde criança e nosso filho teve problemas respiratórios também. Sabemos que o clima ajuda. Em resumo, minha mãe gosta da vida dela lá, e é provável que ela queira continuar morando no litoral enquanto puder. Pesquisando sobre imóveis em São Paulo, ela sempre se mostrou levemente desapegada dessa procura, até que eu percebi que eu estava meio que “colocando o carro na frente dos bois”. Se em algum momento ela precisar, por conta da saúde mesmo, sabemos que a estrutura de São Paulo é melhor e eu estar por perto é o mais prático. Então, quando e se precisar, vamos pesquisar e alugar um apartamento para ela na mesma região em que moramos e ela vai se mudar. É isso. Mas, até lá, ela vai viver a vida dela e ser independente no lugar em que quiser viver.

Penso que o ponto mais importante seja encaixar a atenção a ela mesmo com ela morando em outra cidade. Todo mundo sabe como o ritmo do dia a dia pode tornar as coisas mais difíceis. Mas não dá pra dar desculpas. É algo que tem que ser encaixado e planejado com regularidade. Minha mãe só tem a mim, e a nossa família, então visitá-la e prover tudo o que ela precisa tem que ser uma prioridade. Isso vai ficando cada vez mais latente à medida que ela vai ficando mais velha e precisando de um suporte maior. Financeiramente, já a ajudo como posso. Que bom que cheguei num ponto da vida adulta em que isso é possível, e agradeço todos os dias por esse privilégio. Sei quantas pessoas existem e que rezam diariamente para conseguir ajudar os pais, assim como eles ajudaram os filhos a vida toda.

Uma pergunta que pode surgir é sobre se pensamos em trazê-la para morar com a gente. Nossa casa é pequena e isso nunca foi uma possibilidade. Poderíamos pensar em mudar para uma casa maior, mas não vimos necessidade. Minha mãe é uma pessoa independente e é importante que ela tenha seu próprio espaço. Ela não se sentiria à vontade morando aqui e acho que isso afetaria nossa dinâmica como casal também (marido e eu). Não vemos necessidade nisso, sinceramente. É óbvio que, se fosse necessário, devido a alguma condição de saúde, nós faríamos o que fosse preciso.

Quando ela precisar, ou quiser, a ideia é alugar um apartamento em São Paulo, com portaria 24h (ou seja, uma certa assistência imediata, em caso de emergência), na mesma região que a gente mora, onde ela possa ter o espaço dela, a casa para as suas duas gatinhas, enfim, suas coisas por perto. Mas, enquanto ela está bem, tem saúde, e quer, ela continuará morando na cidade que gosta, com ou sem aposentadoria. Esse é o plano. Tendo um plano, eu já fico mais tranquila.

Em resumo, é respeitar a decisão dela como pessoa, ser humano, e prestar todo o apoio e suporte necessário para que ela fique bem até o final da sua vida (hoje ela está com 61 anos).

Minha dica para você que percebeu que se tornou adulto e precisa cuidar dos seus adultos também é: pergunte. Não tome decisões com base no que for mais prático, organizado ou funcional para você. Converse. Pais podem ser “filhos adultos” depois de uma certa idade, mas ainda são seres humanos com suas aspirações e vontades próprias. Em caso de necessidade, é óbvio que as condições serão diferentes. Mas, até lá, apenas esteja presente, dando suporte para que sejam felizes.

35 Comments

  1. Achei ótima a matéria, do mesmo jeito que os pais têm que entender que os filhos possuem desejos próprios, devemos respeitar os de nossos pais. 🥰😍
    Nem sempre o que achamos melhor, é o melhor para a pessoa.
    Aproveitando, li o livro “As 5 linguagens do perdão”, do Gary Chapman e adorei. Já leu? Tem uma parte que achei bem libertadora sobre “não, vc não tem obrigação de perdoar se a pessoa não se conscientiza do erro e não se arrepende”.
    Achei super interessante o livro ser voltado ao cristianismo e refutar o argumento de que se Deus perdoa tudo, vc tem que perdoar. Lá fala que Deus perdoa se a pessoa se arrepende e se confessa.
    Ok, budismo prega o perdão também, mas achei ótima a política de “não sou obrigada” e ensina como pedir perdão de forma eficaz e minimizar os estragos que vc causou.

    1. Obrigada pela indicação.

    2. Cris,
      Li um livro fantástico sobre essa coisa do perdão. Estava me debatendo sobre não conseguir perdoar uma pessoa até porque ela nunca sequer pediu desculpas. Como vou perdoar alguém que sequer entende que me machucou? Isso ampliou ainda mais a minha dor. E o livro discute bastante esse tema tanto sob a perspectiva de quem pede desculpas e é ou não perdoado como de quem acha que merece um pedido de desculpas e não recebe. É em inglês, mas recomendo fortemente: why don’t you apologize? É um peso o mundo cobrar de você o perdão. Vc não é obrigada a perdoar mas nem por isso vc deve ficar presa na angústia e na tristeza. Segue o baile.

      1. Incluído na lista de próximas compras! Muito obrigada!

      2. Também já coloquei na minha wishlist!

  2. oi, Thais!

    eu li esse post imaginando vc falar. uma calma, seriedade, verdade… <3

    tbm sou filho único e penso muito no futuro dos meus pais. atualmente, tenho estudado muito pra poder ter um salário melhor pra, futuramente, ajudar eles. meus pais ainda não têm plano de saúde, mas é uma das minhas metas pagar pra gente. felizmente, é muito difícil eles adoecerem, mas é sempre bom ter uma garantia de bom atendimento, né?!

    pelas imagens, vi que a sua mãe parece ser bem alto astral, divertida e inteligente. vc tem a quem puxar! <3

    saúde a todos!

    1. Obrigada, Adriel. Eu costumo dizer que a gente sabe que ficou adulto quando passa a cuidar de outros adultos da família. rs Faz parte.

  3. JESSICA A OLIVEIRA says:

    Mais uma filha única aqui o/
    Em termos financeiros, eu me preocupo bastante com o futuro, pq embora o meu pai já esteja aposentado, o que ele recebe não é muito e minha mãe não conseguiu aposentar, então eles dependem bastante da minha contribuição pra casa. Fico pensando no caso de alguns dos dois (ou ambos) ficarem mais seriamente doentes e eu precisar assumir os cuidados, mas também cuidar da casa e do meu trabalho.

    1. Acredito que seja sempre bom a gente pensar nas possibilidades e ter planos B para as situações. Justamente por eu ser filha única, eu que vou decidir, então tudo o que eu puder antecipar é importante.

  4. Mariana Cabo says:

    Oi, Thais!
    Maravilhoso esse post. Eu também sou filha única e, apesar de ser mais jovem que você (tenho 31), minha mãe é mais velha que a sua (ela tem 70). Foi muito bom ter a oportunidade de refletir com esse post. Muito obrigada!

    1. Fico contente, Mari. 🙂

  5. Andréa Branco Moraes Garcia says:

    Achei a matéria muito boa, é importante pensar no futuro, sempre respeitando a individualidade dos pais, afinal todos tem direito de escolher o quê é melhor pra si.

  6. Ana Soares says:

    Oi Thais, esse tem sido um assunto muito recorrente nas minhas reflexões. Estou lendo o livro de crônicas “velho são os outros” da Juíza Andreia Pachá. No livro, ela conta histórias de casos em que as família pediam a interdição e a curatela de seus familiares.
    Como tiramos a autonomia dos idosos em nome de uma suposta proteção, né?
    Tenho tentado pensar nisso quando vou falar com meus pais ou minha sogra. É difícil pois queremos protegê-los, mas tem proteções que não ajudam, só sufocam.

  7. Maria Clara says:

    Reflexão super importante! Também sou filha única e acho que isso é sempre uma questão pra quem é filho único rs Muito bom ler esse post 🙂

  8. É uma reflexão que faço também. Não sou filha única mas meu irmão mora no exterior. Então o cuidar é comigo. Eles moram relativamente perto da minha casa mas querem mudar para outro imóvel um pouco mais distante. Me desespero, falo que eles deveriam vir morar mais perto de mim, não mais longe. Trabalho o dia todo, tenho filho, peço para eles não complicarem. Fico muito dividida porque sei que eles querem mudar para mais longe mas, ao mesmo tempo, gostaria de te-los mais perto para viabilizar maus atenção.

  9. Oi Thais, você tocou num ponto delicado e sofrido para mim. Eu também sou filha única! Eu tenho meu pai que tem 80 anos e mora a mil kilômetros de mim. No caso, ele mora em Brasília e eu em Minas Gerais. Aqui eu moro sozinha, tenho minha mãe de 76 anos que mora sozinha aqui na mesma cidade (ela tá super bem) e minha filha, de 23 anos, que mora com o namorado, também na mesma cidade (tudo meio próximo). Meu pai mora sozinho também lá em Brasília, mas não deveria, pois tem muitos problemas de saúde (enfisema, pressão alta, diabetes). Ele tem uma boa rede de apoio (os amigos, a família da ex segunda mulher), mas morar sozinho é complicado. Porém ele, mesmo com tantos problemas, é super independente… é ágil, dirige, paga as contas (aliás tanto ele, quanto minha mãe, tem ótimas condições financeiras e eles é que às vezes me ajudam, eu, aos 49 anos rsrs). Então esse suporte não é o problema. A questão é a minha preocupação com meu pai. Ele não quer sair de Brasília e eu tenho a minha vida aqui em Minas, apesar de não ter tantas coisas que me prendam, pois sou divorciada e professora contratada. Só que pelo meu lado, emocionalmente, é complicado, porque eu também não gostaria de ir morar lá em Brasília… passei a infância lá, mas agora não me sinto bem de morar na cidade, desacostumei total. E aqui tenho “minhas coisinhas”, minha rotina, assim como ele tem a dele, a gente se apega muito a esse dia a dia né, seria muita mudança. Eu já tentei arrumar alguém para ficar com ele, um acompanhante (cuidador ele não precisa e espero que não precise por muito tempo), mas não deu nada certo e durou pouco, ele não gostou rsrs. E além de tudo é caríssimo o serviço. Ele fica super bem sozinho, gosta disso, mas a minha preocupação é de acontecer alguma coisa com ele, estou sempre na maior neurose com isso. E agora com o covid? Não posso ir lá, sou do grupo de risco e só saio para ir ao mercado. Então as minhas visitas estão suspensas (e eu já ia só uma vez ao ano, pois é muito longe, como disse), e, o principal, o medo dele ter algum problema repentino de saúde e eu não estar lá…. é um drama mesmo isso para mim. Uma vez ele arrumou as coisas dele, viajou e veio para minha casa, com a intenção de morar, fiquei muito feliz…. mas, pasme! Não durou uma semana e ele voltou para Brasília rsrs. E não é que não nos demos bem e briguemos não (apesar dele ser muuuito teimoso rs), mas ele voltou porque não consegue mesmo deixar Brasília e as pessoas de lá, ele tem até uns netinhos “emprestados”, que ele adora. Ele me entende e nunca me pede para ir morar lá, diz que eu tenho minha mãe e minha filha aqui para cuidar e tal. E eu quero dar essa liberdade a ele, como você falou com relação à sua mãe, de viver onde e como ele quiser.
    Desculpe o desabafo, Thais, mas sinto você próxima e como tocou no assunto… vou terminar por aqui porque as lágrimas já estão rolando rs.
    Beijos!

    1. Obrigada por compartilhar, Patricia… esse assunto tende a nos emocionar mesmo. 🙂

  10. Celina Aparecida Mendes Cardoso says:

    Adorei seu post!
    Sou mãe de filha única, e uma das minhas preocupações é justamente com ela, porque sei que ela pensa muito em como cuidará de mim e do pai quando não mais pudermos cuidarmos por nós mesmos. Não gostaria de ser um peso. O que vc sinalizou é que posso ser eu a pessoa a provocar conversa sobre o assunto e juntas traçarmos um plano para daqui a 100 anos.
    Beijo Thais!

    1. Que legal, Celina. Se meus pais fizessem isso por mim, seria tão bom…

    2. Com certeza, Celina. Quanto menos esse assunto for um tabu, melhor para todos os envolvidos. Parabéns pela percepção!

  11. Daniela Mts says:

    Como é complexa essa questão. Meu pai tem 59 anos, sofreu um AVC recentemente. Somos eu e meu irmão. Nos dividimos nos cuidados na saída pós-hospital. Ele se recuperou rápido, pq foi um AVC leve e, mesmo não estando juntos na hora, percebemos rápido do que se tratava e providenciamos socorro. A questão é que há muito tempo eu e meu irmão estamos falando pra ele pensar no futuro, se organizar para a velhice, o que ele não fez (sequer paga o INSS). Ele é autônomo, e achou que sempre teria energia para trabalhar. Para piorar, não cuidou da saúde financeira e está afundado em dívidas. E pra complicar ainda mais: como ser pai/mãe ou mesmo ‘filho adulto’ (no sentido dos cuidados) de um pai que nunca exerceu seu papel, em nenhum aspecto? O jeito é respirar e seguir a intuição. No meu caso, ajudei enquanto foi necessário, dei algum suporte financeiro tbm, mas agora que ele está bem, precisa ter autonomia para resolver as próprias questões. O que meu irmão discorda, por achar que ele não é capaz. Então esse é um ponto de discordância entre nós e até nos afastou um pouco. Quando as coisas são mais ou menos como parece como a sua mãe (é o caso da minha também), é bem mais fácil (ainda que seja um assunto com decisões difíceis). Obrigada pela reflexão do texto :*

    1. Obrigada você por compartilhar, Dani. Eu tenho duas amigas de infância, irmãs, que também brigaram devido aos cuidados com a mãe que tem Alzeihmer. Sei como é difícil. Sinta-se abraçada. <3

    2. Estou numa situação muito parecida, Dani. Minha mãe tem 56 anos, autônoma, sempre morou com familiares mas há 2 anos mora sozinha, e não se planejou pra absolutamente nada, viveu como quis, não cuidou da saúde, enfim, dizia que o amanhã pertence a Deus. Eu tô com 25, saindo de um casamento complicado onde não pude trabalhar e agora moro de favor, além de estar em cidade diferente da dela há 10 anos. Estou dividida entre abandonar minha vida e ficar novamente com meus parentes pra cuidar dela de perto (e arriscar a morrer por dentro pq eles são mega abusivos – tanto que casei nova pra sair de lá) ou ser taxada de egoísta para trabalhar o máximo possível e conseguir ajudá-la financeiramente de longe. Realmente não sei o que fazer, principalmente pq agora ela perdeu toda a autonomia (não pode mais trabalhar e nem ficar sozinha). Sinta-se abraçada <3

  12. Carolina Adania says:

    Gostei da reflexão, me faz pensar nos meus pais e em mim mesma, quando envelhecer, pois não tenho e nem planejo ter filhos. Então, tem um plano para a velhice é fundamental.
    Até para quem tem filhos, pois nada pior do que depositar tamanha expectativa (de prover de todas as formas, na velhice) nas mãos de uma pessoa. Por mais que pareça natural, é injusto, até porque o futuro é imprevisível.
    beijos e parabéns pelo aniversário recém completado!

    1. Sim, eu sempre achei isso também. Obrigada por comentar. <3

  13. Sempre fui muito apegada aos meus pais, sempre fiz de tudo para agradá-los. Porém resolvi que queria morar no exterior, era um desejo de muitos anos e achei que era um bom momento (só não esperava a pandemia). Meu pai teve um acidente doméstico e fraturou o ombro. Eu tinha certeza que não queria voltar, mas passei dias pensando se eu não deveria estar “disponível” para eles. Mas se estiver 100% disponível pra eles, nunca estarei disponível para mim. No fim ele e minha mãe se ajeitaram super bem, ficaram ainda mais próximos (com algumas ranhetices dos dois). Eu liguei todos os dias, pedi para entregar um jantar pra eles. Tenho um irmão com o qual não podemos contar (além de não ajudar, às vezes dá mais trabalho).
    Já tínhamos conversado sobre morte, onde gostaríamos de ser enterrados, sobre cremação, doação de órgãos, etc. Agora estamos conversando sobre os próximos anos, até quando eles terão saúde e disposição… Talvez até consiga ter meus pais mais perto alguns meses por ano. Tem sido libertador saber que eles são independentes e (óbvio) sobrevivem muito bem sem mim e assustador perceber que eles envelhecem.

  14. Comecei a vivenciar a consciência desse processo há 30 anos atrás quando minha vó faleceu. Prometi a minha mãe de consideração que eu não passaria pelo sufuco que passamos juntas com minha vó sem ter um médico assistente que acompanhasse o fim da vida dela.
    Nesse tempo procurei vários médicos e optamos por ter um geriatra. Ela hoje está com 88 anos com restrições de mobilidade e o mais importante lúcida !
    Mudei várias questões da minha vida pessoal para dar esse apoio mais de perto. É uma fase dificil porque abrimos mão da nossa vida mas nossos pais abriram mão de muitas coisas para nos criar numa época com muitos preconceitos eram velados. Minha mãe de consideração era desquitada e isso em meados dos anos 70 era impensável.
    A geriatra sempre foi clara e nos faz definir (familiar e idoso) como se quer partir baseados nos seus valores. Isso é uma questão que dá uma certa tranquilidade nas decisões e ações que tomamos durante esse processo.
    Perdi minha mãe biológica há um mês. O processo foi conduzido da mesma forma e tudo foi muito tranquilo pois vivenciei o luto antecipatorio com leveza. Dói demais perder uma pessoa mas temos que nos preparar para isso e deixar as nossas coisas preparadas.
    Li o livro abaixo e é interessante para quem quer pensar no assunto,
    https://www.amazon.com.br/Precisamos-falar-sobre-Kathryn-Mannix/dp/8543108322

  15. Muito bom esse post. Meus pais insistiram em se isolar numa cidade pequena e sem médicos. Meu irmão, que mora mais perto deles que eu, mas ainda assim, uns 35km de distância (e ainda trabalhando noutra cidade, viajando mais longe ainda todo dia) acabou ficando sobrecarregado com a ajuda que precisava dar. Eu bem mais longe, não conseguia estar presente no dia a dia. Ser pais de “adultos” é muito difícil. Insistimos muito que se mudassem. Nem pensar. Então, arcaram com as consequencias da solidao e da falta de acesso a cuidados médicos. Acho importante frisar que apesar de serem adultos independentes, vai sim sobrar pra gente os cuidados, e se pudermos facilitar um pouco a vida dos filhos, que já estão atolados em crianças e trabalho, tentando ganhar a vida nesse mundo complicado, devíamos facilitar. Mas os pais são teimosos e geniosos, tem suas próprias ideias. Respeito. Mas é muito duro pra gente cuidar dos outros e da gente mesmo.

  16. Natasha Campaci says:

    Pelas fotos da sua mãe aos 60 anos andando de bicicleta e fazendo sinal de “paz e amor”, ela vai viver ainda muitos anos com saúde na praia ou onde ela quiser <3. Mas gostei muito da reflexão, uma vida organizada parece ser isso, refletir e caso/quando algo acontecer, você já sabe mais ou menos como agir.

  17. Leila Moraes Alkmim Cangussu says:

    Que aconchego ler esse texto.💜
    Thaís, que orgulho a sua mãe deve ter de vc!
    Eu tenho 4 irmãos e todos incluímos em nossos planos cuidar de nossos pais e da vózinha que mora com eles, e recentemente (por conta da pandemia) nós demos conta de que o maior projeto das nossas vidas é desfrutar da eterna juventude dos nossos pais. Eles nos criaram livres! E agora, saber que também podemos ser “ninhos” de aconchego e auxílio para eles é algo divinamente maravilhoso.
    Um dia de cada vez, e muita conversa entre nós irmãos.
    Sempre disponíveis e atentos.
    E o divertido é escutar meus pais perguntando “o que vcs acham de tal coisa? Posso fazer?” Bonitinho demais essa confiança recíproca. Sou muito grata a Deus pela vida deles.
    Conte-me mais!
    Compartilhamos o mesmo anseio de amar incondicionalmente.💜

  18. Nossa… muito, muito,muito obrigada por compartilhar suas reflexões sobre isso. Apesar de não ser filha única em uma famíliona cheia de tios e primos, me sinto sozinha pensando sobre esse tema, minha familia tem aversão ao tema morte, e bem haha isso afeta com certeza a relação com planejamentos, que insight esse aqui agora ^^. Enfim, muito importante lhe ouvir, porque sou exatamente parecida, mas demorei a perceber que na verdade sem planos aquilo fica me torturando sem fim; nemconsigo imaginar a carga quando se é filho único, mas posso te garantir que o desafio democrático de planejar coletivamente esse tema do cuidado com pais ou enfermos não é nada fácil, é bem desgastante… E falta tanta referencia né? Tradicionalmente não se conversa sobre algumas coisas, mas deveria ser fundamental…

  19. Outra filha única aqui. Já planejei que quando eu casar vou colocar a minha mãe para morar no mesmo prédio que eu e meu marido. Graças a Deus ela tem uma condição financeira ótima, mas é muito carente e já falou que quer isso. Acho que é a melhor solução para não perdemos o contato diário, sem sobrecarregar outros setores da minha vida. Achei prático.

  20. Mais uma filha única por aqui! Moro com minha mãe, já idosa. Lúcida, faz o que bem quer, é saudável. Moramos numa casa que é do meu avô. Eu tenho uma casa (afinal casa de avô não é minha), tenho muita vontade de ir morar nessa casa, mas minha mae não quer ir pra essa outra casa de jeito nenhum. Fico sem saber o que fazer, entre ir morar na minha casa e deixar ela morando sozinha (claro que daria assistência) ou ficar com ela e abdicar dos meus outros sonhos que seriam realizados na minha casa. Enfim sigo nesse dilema existencial. Ser filho único não é nada fácil.

  21. Muito importante e atual a reflexão. Interessante muitos filhos únicos se identificando, mas como já até exposto em outros comentários, isso não é exclusividade de ser filho único. Mesmo com irmãos, isso deve ser avaliado, até pra não sobrecarregar ou gerar discórdias. A verdade é que nossa cultura não vê com bons olhos o pensar na velhice, na morte, vide que não se faz quase seguro de vida e testamento aqui. Um exemplo é a dificuldade que muitas vezes temos quando alguém falece. Encerrar conta bancária, investimentos, inventário. Tudo poderia ser facilitado com planejamento

  22. Oi Thais. Primeiramente, obrigada por abrir conosco um assunto tão delicado e particular como esse, porém perceber a sua visão sobre ele nos ajuda muito, pode crer.
    Eu estou num momento delicado. 25 anos, saindo de um casamento de 10 anos (onde tive depressão profunda, fiquei 3 anos acamada e fui impedida de trabalhar, só estudei pq foi praticamente escondido), sem ter onde morar, recém formada, vivendo de favor e fazendo bicos pra arrumar dinheiro pra sair da casa onde estou – assim como sua mãe, moro no litoral desde que casei e meus bicos só funcionam na logística daqui, além de que morar em sp é uma mudança extremamente dolorosa. Do outro lado, tem mamãe, que acabou de fazer 56 anos, não tem como se aposentar, trabalha de diarista e agora teve duas crises de saúde absolutamente terríveis (uma hemorragia gastrointestinal de causa desconhecida com infecção e agora essa semana um infarto monstruoso, ficou em coma, quase morreu e agora está se recuperando). E agora ela aspira cuidados (não poderá mais morar sozinha como nos últimos 2 anos – ela sempre morou com familiares) e também não poderá trabalhar e, por mais que eu me esforce nesse momento, eu não sei como ajudá-la. Não sei como me ajudar.
    Imagino que o caminho mais lógico seja me levantar como ser humano independente, para construir algo que dê suporte à ela e então fazer de tudo por ela, mas a cobrança agora é pra que eu vá morar com a minha família (que absolutamente me odeia – não a toa casei com 15 anos e vim embora), vivendo de favor com eles pra que eu possa realizar o sonho da minha mãe de morar comigo novamente (ela tem o emocional bem fragilizado e até hj não entende que cresci) e cuidar dela 24h. Quero muito fazê-la feliz mas sinto que abrir mão da minha vida agora é perigoso, porém os julgamentos estão me consumindo. Sinto que falhei, que foi tarde demais, não sei. Desculpe o desabafo, mas é que isso tem me consumido, estou uma bagunça – tanto que até agora não consegui botar os pés em São Paulo, estou em pânico.
    Quando ela teve a primeira crise, eu lia seu blog todos os dias e tentava me acalmar na sua paz; tentava aceitar o que eu não podia mudar e fazer o que tava ao meu alcance, mas mesmo fazendo isso, voltei destruída dessa experiência, perdi dinheiro, saúde e sanidade cuidando dela na casa dela durante dois meses. Amo minha mãe, morro de medo de estar sendo egoísta e c*zona, mas por outro lado, penso se não estou só fazendo o básico de autopreservação pra, na verdade, construir algo realmente real a que ela possa se apegar. Decisões difíceis, importantíssimas, e eu estou doidinha no meio disso tudo. F*da.

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