Categoria(s) do post: Rotinas

Com o passar dos meses, as atividades que estavam em suspenso antes da pandemia estão voltando aos poucos, de forma online. Esta semana, estou em uma reflexão interior sobre quais delas ainda fazem sentido para mim mas, mais do que isso, sobre qual a maneira de voltar a algumas sem que isso prejudique a minha rotina.

Por mais que eu tenha uma rotina minha, que funciona bem, no momento, o mundo vive de outra forma. Tem outro ritmo, e eu sei disso. A grande questão que tenho tido no momento é: vale a pena abrir mão de algo que funciona para mim, em termos de rotina, para me adaptar a um ritmo mais tenso do mundo, em que a maioria das pessoas está completamente doente das ideias, trabalhando sem limites e se impondo um ritmo agressivo que interfere em seus corpos e relações?

Sou pesquisadora no campo da Comunicação e um dos meus objetos de estudo é justamente o fluxo constante de mensagens que as pessoas trocam e como isso influencia em seus ritmos no corpo, em especial o sono. Com a pandemia, muitas pessoas viraram suas rotinas de cabeça para baixo – ou porque não param de contatar outras, pela falta dessa presença, trabalhando em suas casas, ou porque entenderam que o ritmo anterior é que era “demais”, e que aprenderam a se reconectar, dormir melhor, cozinhar sua própria comida etc.

Eu mesma mudei completamente a minha relação com o mundo durante esse período. Passei a dormir e a acordar mais cedo e isso me trouxe uma qualidade de vida que eu nunca tive antes, além dos ganhos em termos de saúde. Eu entendo que essa rotina significa dizer “não” para muitas frentes (inclusive projetos pessoais), mas eu estava bem com isso até me perguntarem se não seria uma maneira egoísta de lidar com as coisas. “Pois o mundo vive em outro ritmo”. Será que devemos nos adequar ao ritmo do mundo, mesmo sabendo que o mundo que está doente?

Sempre gosto de me referir a uma frase do Krishnamurti, que para mim resume a situação: “Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente”. Porém, isso nos é cobrado o tempo todo.

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Eu falo sobre produtividade compassiva e sobre como podemos trabalhar, viver nossas vidas, sem prejudicar nosso sono, nossa alimentação, nossa rotina de contemplação, e estudos. Ultimamente, tenho ouvido muitas vezes que isso pode parecer uma forma “egoísta” de viver, pois você está colocando as suas escolhas acima do melhor para o todo. Em resumo: se o mundo está doente, vive em um fluxo insano, aulas, por exemplo, acontecem de noite, além de outras atividades – como podemos fazer escolhas que sejam boas para nós em termos de rotina sem tornar esse processo difícil para o outro? Seja família, sejam parceiros de negócios, entre outras pessoas.

Como sou budista, foi uma questão que pegou fundo para mim. Minha forma de viver é pautada em compaixão, em ter uma mente que coloca sempre outras pessoas em primeiro lugar, pois elas são a maioria (enquanto eu sou uma única pessoa). Então, para mim, ouvir que as escolhas que faço a cerca do meu estilo de vida possam soar egoístas, me coloca em um estado de sofrimento mental que me mostra como eu preciso refletir e meditar a esse respeito. Porque eu não via como uma maneira egoísta, mas sim como uma priorização.

Partindo do pressuposto de que não posso agradar todo mundo, entendo que precisamos ter princípios sólidos na nossa personalidade para a tomada de decisões. No ano passado, por exemplo, quando eu disse que pararia de fazer eventos e cursos presenciais – minha maior fonte de faturamento na época – pois eu fiquei mal de saúde com tantas viagens e porque queria ficar mais tempo com o nosso filho (entrando na pré-adolescência), muitas pessoas se preocuparam. Me perguntaram se eu tinha certeza, como eu ia fazer para viver etc. Eu estava convicta. Disse: “estou disposta a viver com menos dinheiro, porém cuidando da minha saúde, da minha família, em um ritmo mais leve”. Para mim parecia uma boa escolha, mas a maioria das pessoas não entendeu e se preocupou genuinamente com a minha decisão. Quando veio a pandemia, foi justamente essa decisão que salvou o meu trabalho. Inclusive meu faturamento veio a aumentar porque tive uma demanda maior por aquilo que eu ensinava.

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Agora, estou vivenciando a mesma coisa. O curso de formação de professores, do Centro Budista, voltará a ter suas aulas no período noturno, dois dias por semana. O Instituto de Yoga, onde eu fazia aulas de manhã, está voltando com suas aulas apenas na parte da noite. Os grupos de pesquisa da faculdade, que são importantes para a minha carreira como pesquisadora, acontecem à noite, até 22h30, 23h. E mesmo as aulas do curso de formação em Ayurveda têm sido ao vivo de noite.

Ontem tive uma conversa com o meu marido sobre isso e ele disse que “o mundo é assim”, e que talvez eu possa encontrar um meio termo para participar, ir dormir um pouco mais tarde e acordar com um pouco mais tarde também. Apesar de parecer a melhor solução, algo dentro de mim me incomoda muito. Fica parecendo que eu estou mais uma vez passando por cima do que é real e importante para mim para me adequar ao horário dos outros, que eu sei que não é legal. Porém, qual a alternativa? Não fazer mais nada? Complicado.

Ao mesmo tempo, compartilhei com ele (vejam que estou me expondo muito aqui rsrsrs peguem leve nos comentários) que ficar em casa durante a quarentena me ajudou a ver que eu não quero mais essa rotina de deslocamentos o tempo todo acontecendo. De toda semana, duas, três vezes por semana, sair para ter aula ou qualquer outro evento de noite, e chegar em casa quase 23h. Não me vejo mais fazendo isso. E ele mais uma vez disse: “mas aí você não vai fazer mais nada porque esse é o horário das pessoas”. E minha questão mais uma vez foi: “eu DEVO seguir o horário das pessoas ou continuar convicta com o meu?”.

Sendo prática, e pensando sobre todas essas atividades (que eu mantenho porque são importantes para mim, senão não manteria), minha ideia no momento é:

  • O curso no centro budista é muito importante. Talvez eu consiga mudar para a turma que acontece aos sábados pela manhã, ou conversar com o pessoal para sair mais cedo. Definitivamente não faz bem para mim fazer atividades assim de noite. Eu fico muito cansada, e acabo nem conseguindo me dedicar como gostaria.
  • Os grupos de pesquisa acontecem uma ou duas vezes por mês, sendo portanto uma questão menor nessa equação. Eu também poderia negociar para sair um pouco mais cedo, talvez lá pelas 21h. Mas não quero que isso soe como falta de respeito com o tempo dos outros, que continuarão as discussões depois desse horário (é difícil, gente).
  • As aulas de yoga por enquanto estão sendo gravadas e consigo ver pela manhã ou no dia seguinte em outro horário. Do curso de Ayurveda também. Então dá para gerenciar. Quando voltarem a ser presenciais, serão no horário da manhã.
  • No doutorado, provavelmente terei disciplinas na parte da noite, mas penso que isso também seja uma coisa que dê para negociar (escolher fazer em outro horário outra disciplina) e, se eu precisar fazer uma disciplina no período da noite, será apenas um dia na semana, e aí tudo bem, é apenas uma única exceção temporária (coisa de um semestre) e dá para contornar.

A questão é: se o trabalho não deixa a gente fazer algo em determinado horário e todo mundo respeita isso, por que quando não podemos fazer algo em detrimento da nossa saúde ou qualidade de vida isso é visto como egoísmo? Por exemplo, quando fiz mestrado, muitos colegas tiveram que adequar suas pesquisas porque só podiam fazer aulas no período noturno, então eles tinham que fazer sempre as matérias que eram ofertadas nesse horário. Porque de dia trabalhavam. Todo mundo respeita isso. Por que quando a gente fala sobre uma escolha pessoal isso é problematizado e questionado como uma escolha egoísta? (eu sei a resposta, estou apenas levantando a bola)

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Veja: eu não estou aqui questionando os meus princípios ou os princípios de outras pessoas. Princípios existem e são na verdade apenas um reconhecimento, uma percepção, de quem nós somos. Quando esses princípios são violados, isso nos fere internamente de uma maneira muito traumática. E, quanto mais a gente se encontra neles, mais difícil é aceitar qualquer situação que os fira. Mas isso não impede que a gente problematize tais princípios, especialmente porque não vivemos em uma bolha e nos relacionamos com outras pessoas que têm estilos de vida e até princípios diferentes.

Por exemplo. Por que o fato de eu não responder uma mensagem no What’sApp é visto como um ato de egoísmo mas a outra pessoa querer que eu responda, sendo que não faz parte do meu fluxo de trabalho, não é visto como tal? A gente precisa sim problematizar essas questões porque, no fundo, são problemas mundanos que existem durante a nossa existência mundana, e que trazem sofrimentos diversos mesmo que a gente tenha uma observação com um pouco mais de perspectiva até sobre a vacuidade das coisas.

Posso ser uma gota de água nesse oceano, mas eu vejo que parte do meu papel é esse de cutucar o mercado, as pessoas, com meu trabalho, para que a gente se questione e mude padrões que não façam sentido. Não dá para mudar as coisas, protestar, sem incomodar um pouco. Sem tensionar. Mas sim, é um processo complicado e que leva tempo, e que nem por isso deixa de ser importante e válido para que a gente repense o tempo que vive.

Qual a sua opinião a respeito?