Categoria(s) do post: Áreas da Vida

Li recentemente um livro da Martha Stewart (“The Martha Rules”) onde ela fala sobre encontrarmos algo que a gente ame e transforme isso no grande negócio das nossas vidas.

Ela comenta uma coisa que eu fiquei com vontade de escrever aqui, que é sobre o que dá ou não dá trabalho. Que alguém um dia perguntou para ela se ela não fica cansada de trabalhar no jardim, ou algo do tipo (não me lembro do diálogo exato). Mas então ela diz que nunca trabalha no jardim. Aquilo não é um trabalho para ela, mas um hobbie, uma coisa que ela ama fazer. E aí ela começa a dizer que precisamos encontrar um trabalho que nos deixe com esse mesmo sentimento etc.

Vejo frequentemente alguns leitores postarem aqui no blog que não fazem determinada coisa porque “dá trabalho”. Mas minha visão é bem parecida com a da Martha nesse sentido.

Particularmente, acredito que a vida seja muito curta para perdermos tempo com o que não amamos, e isso inclui pessoas, coisas, projetos, tudo. Infelizmente, não dá para ser assim o tempo todo e precisamos de algumas coisinhas chatas na vida porque é assim que o mundo funciona. Mas também sou a favor do poder de mudança, que todos nós temos. E, o que pudermos evitar ou escolher, devemos fazê-lo.

Se eu estou interessada em um assunto, eu pesquiso sobre ele até não querer mais. Se eu estou escrevendo, por exemplo, posso ficar cansada, mas nunca frustrada, pois é algo que eu amo fazer. Eu demorei tanto tempo para ter o nosso apartamento (nosso cantinho, mesmo que alugado), que não considero trabalhoso cuidar dele. É algo que eu curto demais fazer. Vejo minha casa como um lugar sagrado, que representa tudo o que nós somos (nossa família) e é um ambiente funcional, para o nosso dia-a-dia. Nosso apartamento tem proporções médias (67 metros quadrados), o que é pouco para alguns e enorme para outros. Eu o considero enorme! Não consigo me imaginar morando em um lugar maior, especialmente porque nós não precisamos. Acho que as únicas duas coisas que eu gostaria de ter a mais são um quintal e um espaço para fazer um estúdio, mas não fico frustrada por conta disso. Amo o espaço que temos hoje e me sinto privilegiada por poder pagar por ele.

Meu marido é músico. Ele já teve empregos convencionais e, quando nosso filho nasceu e eu quis voltar a trabalhar fora, nós trocamos a nossa dinâmica e ele passou a ficar em casa cuidando dele. Como vocês podem imaginar, recebemos muitas críticas por essa escolha, mesmo dizendo respeito somente à gente e todas carregadas com um teor machista que eu procuro ignorar. Ele sempre trabalhou pela necessidade, vindo de uma família humilde, e somente agora, na nossa situação, que ele oficializou o que ele realmente quer fazer da vida dele, que é cozinhar. Ele ama cozinhar e realmente tem o dom para isso. Eu também gosto, mas sou um pouco desastrada e não acho que tenho o mesmo dom que ele tem. Ele simplesmente prepara comidinhas maravilhosas e inventa molhos e combinações especiais. Ele tem sim um dom para a coisa e agora descobriu que quer seguir adiante, e vai começar a fazer alguns cursos. Isso só foi possível por todas as mudanças que fizemos na nossa vida. Então, quando ele prepara o jantar, não é trabalho. Ele prepara uma refeição completa em menos de 30 minutos e é para ele, para mim e para o nosso filho. Quando ele está cansado e quer dormir cedo (quem cuida de crianças pequenas sabe), eu cozinho tranquilamente porque é o meu momento, eu curto fazer aquilo. Adoro pesquisar receitas novas, encontrar bons ingredientes e “brincar” na cozinha. Ele acorda um tempo depois e jantamos juntos. Isso não significa que, se eu chegar em casa exausta e tiver comida para o dia seguinte, filho já dormindo e marido sem fome, eu não coma alegremente uma pasta de atum com maionese e palitinhos de pepino!

O que eu quero dizer é que essa rotina do dia-a-dia, de manutenção da casa, é uma curtição enorme para mim. Buscar soluções cada vez melhores para organizar o que quer que seja é praticamente o meu grande hobbie, assim como escrever. Neste mês, por exemplo, em que estou organizando o escritório, uma das coisas mais legais é planejar o espaço, tirar medidas, buscar combinações entre as coisas novas que eu estou comprando, planejar quantas caixas vou precisar para guardar itens de craft etc. Uma vez um chefe meu me disse: “Thais, acho engraçado como você gosta mais do processo de organização que das coisas organizadas”, e é verdade! Chega quase a ser uma ciência. =)

O que eu quero dizer com tudo isso é que você pode ficar desanimada(o) muitas vezes para limpar a casa ou para cuidar da sua família, porque “dá trabalho”. Talvez não sejam motivação e força de vontade que você esteja precisando, mas de uma mudança de perspectiva. Pergunte-se por que você não ama a sua casa. Será que é porque tem muita tralha? Você acha que tem pouco espaço? Oras, precisamos do mínimo. Se há pessoas vivendo um cubículo de 10 metros quadrados ou até menos, qualquer ser humano pode. Não estou dizendo que deve. Mas devemos pensar que é aquilo: quando morrermos, não levaremos nada. Vale a pena ter a casa entulhada de coisas e viver frustrada(o) para o resto da vida?

Se esse for o seu caso, destralhe a sua casa. Abrir espaço também abre um leque de possibilidades. Você passará a gostar mais da sua casa porque terá nela somente o que realmente ama ou seja útil, sem olhar para aquela pilha de revistas em um canto e falar “ai!”.

O mesmo vale para limpá-la e fazer comida. Quais suas motivações? Aqui em casa, precisamos cozinhar por causa do nosso filho. E ele precisa comer direitinho todos os dias. Da mesma forma, eu estou em uma dieta super restrita e quero comer alimentos frescos diariamente. Quando vejo algumas pessoas falarem que cozinhar todos os dias dá trabalho, eu não consigo entender o conceito, porque gosto de cozinhar. Não vejo como trabalho, parafraseando a Martha Stewart. Eu penso que cozinhar é um barato e penso que estou fazendo o melhor pelo meu filho. Da mesma forma que, quando vou limpar e desinfetar o vaso sanitário, não vejo como trabalho, mas como uma tarefa normal que preciso fazer para manter minha família saudável.

Já tive uma rotina terrível que se resumia a sair antes das 6h de casa (para trabalhar) e chegar depois da meia-noite (da faculdade), todos os dias. Eu ficava extremamente cansada e meu objetivo era dormir. Como era temporário, não me desesperei – apenas fiz o melhor possível. E, nos finais de semana, eram os dias de limpar a casa (sábado) e preparar e congelar comidas para a semana (domingo). Ainda dava tempo para passear e estudar, mas eu não tinha meu filho ainda. Se eu tivesse, teria conseguido fazer essas coisas do mesmo jeito, pois ele está inserido na rotina aqui de casa. Quando precisamos fazer algo que demande dedicação maior ou seja perigoso para ele (limpar o banheiro, por exemplo), nós fazemos quando ele está dormindo. Ontem mesmo, ele foi dormir por volta das 21h, e eu limpei os dois banheiros numa boa. Ainda deu tempo de tomar banho, ver tv e ir para a cama antes da meia-noite.

No mais, o conceito de “dá trabalho” significa uma série de outras coisas. Se organizar dá trabalho? Para quem não vê benefícios em se organizar, pode parecer que dá sim. Porém, para mim, o que realmente dá trabalho é ter uma vida bagunçada e nunca conseguir cumprir nada nem alcançar qualquer objetivo simplesmente por falta de planejamento e metas. Para qualquer coisa na vida, se você acha que “dá trabalho”, pergunte-se primeiro qual sua motivação para fazer aquilo. Se não for suficiente, não vale a pena. Se for, não encare como trabalho, mas como parte da sua vida para que você e todos ao seu redor possam ficar bem. Às vezes uma simples mudança de perspectiva já gera a força de vontade que achávamos que não tínhamos mais.