Felicidade interna e externa

Todos os dias, quando acordo, tenho uma rotina de autocuidado que inclui uma série de práticas a fazer antes de amanhecer. Uma delas é a leitura. Gosto de ler livros sobre Budismo, ou livros sobre espiritualidade de modo geral, que mantenham meu espírito elevado para o novo dia que se inicia.

Recentemente, um desses livros é “Como ser feliz o tempo todo”, do Yogananda. Esse livro é parte de uma série de vários outros com poucas páginas trazendo as orientações do Yogananda para aspectos específicos da vida. Neste, ele fala sobre felicidade.

Logo de início ele traz a ideia de que a felicidade não é algo que acontece, mas que você escolhe sentir. É uma decisão interna. A partir dela, você toma algumas resoluções a respeito do que vai alimentar na sua vida. Anos atrás, quando comentei que parei de assistir filmes de terror, muitos amigos não entenderam. Mas é isso. Quero alimentar a minha mente com elementos que me façam bem, não que me deixem em um estado de perturbação. Trazendo elementos que me deixem feliz, será mais fácil “colher felicidade”.

Depois, ele traz o ponto de que a felicidade diz respeito ao nosso mundo interno.

No início da quarentena, eu estava com muitas dúvidas a respeito dos sentimentos conflitantes que estava sentindo. Apesar de estar tudo bem aqui no nosso microcosmo, eu me sentia um pouco mal por estar me sentindo feliz sabendo que existem tantas pessoas no mundo sofrendo. Foi no Budismo que encontrei a resposta: problemas exteriores exigem soluções exteriores. Problemas interiores exigem soluções interiores.

O que traz ansiedade na pandemia é que está completamente fora do nosso controle. Não sabemos quando haverá vacina, quando voltaremos “ao normal”, quando poderemos viajar ou ir à feira. Problemas exteriores. Ansiedade = problema interior. Logo, para resolver a minha ansiedade, não adiantava eu esperar a solução vinda de fora – eu tive que ir para dentro. Voltei a fazer terapia, intensifiquei minhas meditações, redobrei minha rotina de autocuidado em todos os aspectos, regulei o meu sono, passando a acordar mais cedo. Etc.

É perfeitamente ok se sentir feliz por dentro. Sua família está bem. Você se sente em paz. O trabalho está ok. Por esse motivo, você até consegue ajudar outras pessoas. Sentir-se feliz, ter um contentamento interior, não significa que você está ignorando os problemas do mundo ou que a sua vida é um “mar de rosas”. Significa que você trata os problemas mundanos como eles são: mundanos. Com soluções mundanas. Para problemas internos, você busca soluções internas – meditação ajuda muito, terapia também.

Hoje eu postei no Twitter uma frase que compartilhei acima e uma pessoa respondeu que às vezes se sente culpada por estar se sentindo feliz. Eu não tive a oportunidade de desenvolver essa conversa com essa pessoa, então não sei por que ela se sente culpada. Se formos imaginar que ela se sente culpada porque outras pessoas estão sofrendo, pensar sobre os sofrimentos internos e os sofrimentos do mundo pode ajudar. As pessoas estão sofrendo? O que você pode fazer para ajudá-las? Faça! Talvez a culpa venha de você saber que poderia fazer algo mas não está fazendo? Então faça. É isso, mas não se culpe. Porque a culpa seria uma questão interna que não vai resolver o problema externo também. Só traz sofrimento.

Pensar assim tem me ajudado demais, de forma prática mesmo, no dia a dia. A não me preocupar com problemas mundanos. É aquilo: tem solução, bora pra solução. Não tem solução, paciência. Não vou tirar minha paz por conta disso.

Não digo que seja sempre fácil, mas estou nesse caminho. Entender esse conceito, essa separação, fez muita diferença para mim.

A partir do momento em que eu passo a sentir esse contentamento interior, a própria forma de me relacionar com as pessoas e com o mundo muda.

Quando eu li “Atitude Mental Positiva”, do Napoleon Hill, era esse o sentimento bom que me evocava aquela leitura, mas à época eu não sabia explicar direito por quê. Hoje eu sei. Porque é isso; não se trata de forçar. Se trata de escolher ser feliz, não importam as condições externas. As condições externas nós lidamos com soluções externas. Todos precisamos trabalhar, pagar boletos, comprar comida. Meditação não vai fazer aparecer dinheiro na mesa, porque dinheiro é uma questão externa.

Tá tudo ok você querer sair para jantar com os seus amigos, querer comprar um relógio ou livro, ou até mesmo sentir necessidade de ter um carro. O problema estaria em ver felicidade nessas coisas.

Acho muito louco isso e, acima de tudo, muito pragmático. Foi um divisor de águas na minha relação com tudo aprender a pensar dessa forma. Espero ter conseguido demonstrar neste post como isso impacta positivamente (ou pode impactar negativamente) no seu processo de organização.

Livro: “Como transformar a sua vida”

Este é um livro de Budismo que recomendo para quem não é budista e para quem tem interesse no Budismo. Ele não é um livro de auto-ajuda mas, se você gosta desse tipo de leitura mais reflexiva com foco em transformações pessoais, é o tipo de livro que pode te agradar.

O grande propósito do autor, Geshe Kelsang Gyatso, foi trazer o Budismo de maneira mais didática para o Ocidente. Ele está na Inglaterra, no momento, no Templo Kadampa Manjushri. A primeira edição deste livro em língua inglesa foi publicada em 2001 e, no Brasil, em português, em 2006. Essa minha edição é de 2019. Já tinha lido anteriormente, quando entrei na tradição (em 2013), mas tinha dado o livro de presente. Eu o comprei novamente para reler (como parte do meu projeto de estudo) e também porque, como quero ser professora de meditação, é importante ter os livros para estudá-los (eu pelo menos considero importante, não sei como os outros colegas fazem).

Em outro post mais recente eu comentei sobre o meu projeto de ler todos os livros da tradição e como me organizo para tal. Talvez a leitura te interesse. 😉

Por que eu quero recomendar esse livro aqui no blog?

Ele aborda aspectos do cotidiano que todos nós vivemos, independente de sermos budistas ou não, mas com orientações de conduta de acordo com o Budismo. Como lidar, por exemplo, com temas como:

  • paz interior
  • mente calma
  • morte
  • renascimento
  • carma
  • paciência
  • meditação
  • apreciar os outros
  • amor
  • compaixão
  • etc.

Que são, basicamente, temas de interesse a muitas pessoas atualmente.

Muitos leitores do blog me pedem recomendação frequentemente sobre livros de Budismo, e este é o que eu mais recomendo para começar.

Apesar de ele ser recomendado dessa maneira, mesmo praticantes há mais tempo podem tirar grandes insights, como foi o meu caso. Adorei fazer essa releitura e me deu muito mais embasamento para a leitura seguinte, que estou fazendo agora (o livro “Como entender a mente”, do mesmo autor).

Veja alguns trechos que gosto muito, para de repente entender se o livro vai te agradar ou não:

“Paz interior, ou paz mental, é a fonte de toda a nossa felicidade. (…) Felicidade e sofrimento são opostos; portanto, se algo for uma causa verdadeira de felicidade, não poderá fazer surgir sofrimento. (…) A causa da felicidade e a solução para os nossos problemas não se encontram no conhecimento das coisas materiais. Felicidade e sofrimento são estados mentais.”

“Todas as nossas ações de corpo, fala e mente são causas, e todas as nossas experiências são seus efeitos. (…) Cada pessoa tem um carma individual diferente. (…) Toda ação que fazemos deixa uma marca, ou potencialidade, em nossa mente muito sutil, e cada marca faz surgir, por fim, seu próprio efeito. Nossa mente é como um campo, e fazer ações é como plantar sementes nesse campo. Ações virtuosas plantam sementes de felicidade futura, e ações não virtuosas plantam sementes de sofrimento futuro. (…) A única maneira de destruir potencialidades negativas antes que amadureçam como sofrimento é purificá-las.”

“Não podemos ter a expectativa de mudar a nossa mente da noite para o dia mas, praticando de modo paciente e persistente (…), podemos substituir gradualmente nossa atitude comum de autoapreço pela atitude sublime de apreciar todos os seres vivos.”

Em resumo, é um livro não apenas para quem se interessa pelo Budismo, mas para quem se interesse em ser um ser humano melhor, desenvolver uma mente mais calma, ter mais paz interior mesmo.

O e-book dele é gratuito, tanto no site da Editora Tharpa quanto na Amazon. E você também pode comprar a versão impressa dele em centros budista kadampa, no site da editora ou na Amazon também.

Como eu organizo as minhas leituras no Budismo

Uma das áreas que muitas alunas, mentorandas e leitoras me relatam que costuma ficar de lado é a espiritualidade. Ler livros, estudá-los, é uma das maneiras mais fáceis para mim de criar espaço para a religião no meu dia a dia, então espero que este post possa ajudar você com ideias.

Vale lembrar que espiritualidade não é sinônimo de religião. Eu usei o termo religião acima porque, no meu caso, eu tenho uma religião. Mas é perfeitamente ok você desenvolver a sua espiritualidade sem uma religião específica.

A escola do Budismo a qual me dedico é a Nova Tradição Kadampa, que fica dentro do enorme guarda-chuva do Budismo Mahayana. Apenas para localizar, a Monja Coen, por exemplo, é de outra tradição dentro do Mahayana também, que é o zen. Apesar dos propósitos comuns (todos os caminhos buscam a mesma coisa), há diferenças nas práticas.

Na tradição que eu digo já existem muitos livros publicados e outros a serem traduzidos. Meu projeto atual então é ler todos os livros já traduzidos da tradição, na ordem recomendada. (Todos os livros da tradição são publicados pela Ed. Tharpa Brasil e você pode encontrá-los no site da editora ou comprar pela Amazon mesmo. Algumas livrarias físicas vendem os livros também. Tem que olhar na sua região.)

Eu já li a maioria desses livros nos últimos anos, mas a ideia aqui é ler e reler na ordem sugerida para fins de estudo também. No ano passado, eu ingressei no curso de formação de professores da tradição. Estuda-se um livro de cada vez (durante alguns meses), há discussões em grupo, explicações da monja, além de exercícios práticos.

O propósito desse curso é formar professores de meditação e Budismo Moderno nos diversos países onde estão os centros da NKT (Nova Tradição Kadampa) ao redor do mundo. Os centros são colocados nas grandes cidades, pois é onde as pessoas vivem mais agitadas e precisando de paz.

Por esse motivo, por mais que existam as versões em e-book, eu prefiro estudar com o livro físico, pois durante as aulas eu posso precisar levá-los a fim de citar referências.

Leio um pouco ou muito todos os dias, dependendo do ritmo de compromissos naquele dia em questão. De modo geral, leio pela manhã e à noite, antes de dormir. Para mim, é importante ler diariamente, pois assim eu vou construindo a minha reflexão em camadas. Sempre levo comigo para ler ao longo do dia, quando tenho compromissos externos.

Eu leio o livro na ordem recomendada pela tradição e, em paralelo, há o estudo do livro do curso. Se houver necessidade ou vontade, eu faço outras leituras ou consultas esparsas em paralelo.

Este é um livro base da minha tradição

O objetivo principal de qualquer prática budista é chegar ao estado de iluminação, conhecido como “budeidade”. Um Buda é quem alcançou esse estado. Isso significa que purificamos nossa mente e acabamos com todas as delusões mentais. Delusões são “maus hábitos mentais” que nos fazem enxergar as coisas de maneira distorcida. Raiva e inveja são alguns exemplos de delusões. No Budismo, acredita-se que aprender a acabar com essas delusões seja o caminho mais efetivo para alcançar a paz mental. A leitura e o estudo dos livros me ajuda a entender a esclarecer questões e situações, além de manter minha mente “ligada” no assunto, o que representa uma contínua lembrança.

A área de foco que escolhi para o meu ano de 2020 foi a espiritualidade justamente porque sinto que tudo o que eu quero para a minha vida virá dessas práticas. Ser mais paciente, por exemplo, além de outros aspectos. Isso significa que as atividades serão priorizadas diante do resto, sempre que possível. A leitura diária desses livros faz parte dessa priorização.

Se a sua área de foco este ano for outra, um bom exercício seria pensar: o que, se eu fizesse um pouco todos os dias, me traria um senso de estar evoluindo nessa área?

Budismo Beatnik

Por incrível que pareça, eu não cheguei ao Budismo procurando pela religião, mas me apaixonando por um modo de vida que foi descrito pelo meu escritor preferido (Jack Kerouac) em um livro chamado “Os Vagabundos Iluminados” (The Dharma Bums).

Nesse livro, um grupo de amigos vaga pelo mundo e um deles é budista – ou, como Jack o descreve, um “bodissatva”. Eu já tinha interesse em meditação desde anos antes, quando virei beatlemaníaca de carteirinha e lia muito sobre os Beatles no seu processo de meditação transcendental com o Maharishi, na Índia. Meu beatle preferido era (e ainda é) o George, que inclusive acabou virando hare-krishna com o tempo. Eu não me identifiquei com essa religião, mas a sementinha da meditação e da filosofia oriental foi plantada em mim.

O livro de Jack Kerouac

Beatles e o Maharishi, em 1967

George aprendendo a tocar sítara com Ravi Shankar

Hoje, depois de ANOS de estudos e práticas, vejo o quão bonita era a forma do Jack encarar o Budismo e o caminho até a iluminação. Algo muito característico do estilo de vida beatnik é a contemplação de todas as coisas. Sempre me considerei alguém assim. Minha visão de mundo até hoje é sobre viver um dia a dia contemplativo, feliz, com foco na compaixão, e tudo isso me levou a me tornar escritora e também a ingressar no Budismo Mahayana anos mais tarde.

Começar a praticar meditação foi um marco na minha vida. Comecei em 2008, mais ou menos. Em 2013, estava tendo crises de ansiedade relacionadas ao meu trabalho na época e, depois de parar no hospital achando que estava tendo um infarto (era uma crise de pânico, mas eu não sabia nem fui orientada pela equipe médica na época, completamente despreparada, o que hoje acho um ABSURDO), resolvi me inscrever em um curso de meditação e levar isso a sério, pois sabia que me beneficiaria de uma mente mais calma e controlada. Não tive qualquer critério para escolher esse curso, na época. Procurei um centro budista perto de casa (morava em Campinas) e me inscrevi no curso deles. Por coincidência, algumas semanas antes eu tinha comprado um livro sobre Budismo que era da mesma tradição, e eu tinha gostado bastante do “jeitão” do livro. Isso me fez criar ainda mais empatia com o centro que passei a frequentar. Hoje, vejo quão afortunado foi esse encontro.

Aprender a meditar com um professor foi essencial para mim na época. Pode ser que outras pessoas não precisem – e eu mesma pratiquei sozinha durante anos – mas minha prática mudou muito depois de ter feito o curso e ter aprendido algumas “técnicas”. Daquele momento em diante, nunca mais deixei o Budismo.

A escola que me identifico e faço parte é a Nova Tradição Kadampa.

Muitas pessoas pensam que o Budismo é apenas uma filosofia. Ele pode ser visto como uma filosofia, assim como existem as filosofias judaicas, cristãs etc. Mas, também como essas, ele tem o seu lado religioso, que inclui preces, liturgias próprias, datas especiais a serem celebradas e seus rituais. A partir daquele momento, eu ingressei no Budismo como religião mesmo. Posso dizer que, em 2008, eu o abraçava mais como filosofia. Em 2013, fiz a transição para o caminho como religião. (Talvez eu possa citar a palavra “compromisso” para diferenciar uma coisa da outra, pelo menos para mim.)

Penso que o principal ponto que me atraiu ao Budismo foi o alinhamento com os meus valores essenciais. Não há absolutamente nada no Budismo do qual eu discorde. O caminho do bodissatva, pautado na disciplina moral, na paciência, na compaixão, sempre com foco em ajudar os outros seres vivos, sempre fez sentido para mim. O nobre caminho óctuplo nada mais é do que um método, e eu amo métodos.

Este é um livro base da minha tradição

Lembro que, na época em que ingressei no Budismo como religião, um amigo meu me perguntou por que eu estava em um caminho religioso e não apenas praticando meditação e levando o Budismo como filosofia, pois lhe parecia uma forma mais leve de lidar com a coisa toda. Essa pergunta sempre me encoraja a fazer uma reflexão interessante. Eu entendo o ponto, mas existe algo na religião que é… eu sinto algo muito pleno, bondoso e humilde quando faço prostrações. Quando limpo e troco as oferendas do meu altar, em casa. Quando arrumo a almofadinha da monja. Quando faço as preces cantadas. Eu deixo completamente de lado o meu ego nesses momentos, e esse é um aspecto importante da prática budista, que sempre pode ser exercitada, tanto no centro budista quanto no meu trabalho, na rua, no trato com as outras pessoas etc.

O Budismo é uma religião que você pratica. Sei que todas as religiões são assim em sua essência, mas o que quero dizer é que a prática do Budismo se dá o tempo todo. Tanto em uma meditação focada quanto em uma discussão no trabalho ou na refeição que você prepara em casa para a sua família. E, comprometida nesse caminho, eu cada vez mais consigo incorporar esses valores em tudo o que eu faço. O objetivo é alcançar a iluminação, não apenas para que eu me liberte do sofrimento, mas porque, assim, eu conseguirei ajudará melhor todos os seres, momento a momento.

Muitas pessoas me perguntam como o Budismo influencia no meu trabalho, e a resposta é: é onipresente. O que eu chamo de coerência na organização, no fato de você se conhecer e aplicar quem você é em todas as suas atividades, tudo isso está totalmente alinhado com as práticas budistas que eu incorporo diariamente. Fica impossível colocar tudo em um único post, então eu só posso dizer que absolutamente TUDO o que eu faço tem a ver com o meu caminho espiritual no Budismo.

O lance de ser beatnik tem a ver com a maneira poética que eu encaro o mundo e o meu dia a dia. Cada dia importa. Cada dia é uma oportunidade de viver e ser feliz. Pode parecer piegas, mas me ajuda muito pensar dessa maneira. Cada dia é uma coisa, um jeito diferente de ver, fazer tudo. E eu busco aproveitar cada momento. Isso é mindfulness.

Por exemplo, é o ato de ir andando a pé até o centro budista, mesmo que sejam 5km. É uma oportunidade maravilhosa de andar, contemplar a vida, o trânsito, as pessoas, as plantas, as casas coloridas, os cachorros, pensar na vida, oxigenar o corpo. Significa aproveitar a oportunidade para fazer um exercício para o físico e para a mente. Não se trata de chegar rápido, mas de curtir o caminho (essa frase resume o que penso sobre produtividade!).

 

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Eu vou ficar com certeza… #cidadefalante

Uma publicação compartilhada por Thais Godinho (@thaisgodinhooficial) em

(Eu adoro fotografar arte e poesia na rua também. Acompanhe no meu Instagram pessoal.)

Muito se fala de mente plena hoje em dia, e o Budismo é totalmente sobre isso. Você se desenvolve com o tempo, à medida que pratica. GTD também ajuda muito. Está alinhado. Ajuda a colocar os pensamentos em ordem.

Ter na mente o foco em ajudar os outros me motiva a realizar este trabalho, assim como influencia todas as outras áreas da minha vida, até a saúde. Mas isso vou comentar em outros posts, ainda este mês, sobre estilo de vida. 😉

Este post foi escrito em várias etapas, em meu caderno, com papel e caneta. Mas, ao digitalizá-lo para o blog, eu o fiz ouvindo a música “Tangled up in blue”, do Bob Dylan – um beatnik de nosso tempo. Talvez você possa gostar também.

Organização da vida e Budismo: o que tem a ver?

Faz tempo que eu queria escrever um post sobre esse tema.

Eu sou uma pessoa de métodos. Amo métodos.

Métodos são apenas caminhos já testados, aprovados e que funcionam. São uma forma de fazer as coisas, um passo a passo, como que um atalho para você chegar mais rápido onde quer chegar, pois alguém já testou os obstáculos do caminho e te entrega o negócio mastigado para você fazer e ter sua própria experiência.

Eu penso que todas as religiões tenham seus métodos. Isso não é característica exclusiva do Budismo. No entanto, por eu ser budista, é natural que eu escreva especificamente sobre essa religião aqui.

Na tradição que eu me identifico mais no Budismo, a Kadampa, existe um método a ser seguido, que se chama Lamrim. Lamrim é uma escritura que representa “as etapas do caminho”. Todas as tradições do Budismo nos conduzem à libertação e à iluminação. Libertação do quê? Libertação desse mundo que vivemos, chamado de samsara, onde existe muito sofrimento. Após conquistar a libertação, o caminho à iluminação representa a felicidade de maneira geral, muito resumidamente, através da satisfação dos desejos e das necessidades de todos os seres vivos. O caminho budista é fundamentado essencialmente em compaixão.

O livro “Caminho alegre da boa fortuna” é um livro bastante completo sobre o método da tradição Kadampa. Existem outros livros menores e mais básicos para quem estiver começando. Tenho um post aqui no blog em que falo sobre livros – dê uma olhada.

Esse caminho é baseado em três grandes escopos, com votos. Os votos que você toma são compromissos com o caminho. O primeiro escopo diz respeito aos votos chamados de pratikmosha, ou votos de libertação individual. O segundo escopo se refere aos votos do bodisatva. O terceiro escopo é relacionado aos votos tântricos. Ao tomar os votos, existe o compromisso de não quebrá-los. Obviamente, por não sermos perfeitos nem termos alcançado a iluminação (ou seja, ter se tornado um Buda), existem práticas diversas de purificação em todos os votos, caso você tenha quebrado algum deles. (Saiba mais sobre todos os votos aqui.)

Os ensinamentos de Buda são chamados de Dharma. A orientação não é apenas ler e contemplar, mas praticar esses ensinamentos. Por isso o Budismo é essencialmente uma religião prática, pois você precisa viver o que acredita. Disciplina moral é uma das principais habilidades de uma pessoa que seja budista. Isso envolve controlar a mente, ajudar as pessoas, controlar uma série de instintos (talvez eu possa falar dessa maneira), entre outros comportamentos. Existem instruções para lidar com o sofrimento no mundo, muito resumidamente falando. Por exemplo, como ter paciência com as pessoas ao meu redor? Tudo isso é ensinado nos materiais publicados e que vão sendo traduzidos aos poucos. Muitas das escrituras (a maioria, eu diria) ainda nem foram traduzidas. Tem muita coisa em sânscrito apenas, mas todas elas convergem para o objetivo que é a busca pela iluminação.

Bodisatva é o nome dado ao indivíduo que está comprometido com seu caminho em busca da iluminação, com uma mente de compaixão essencialmente.

Eu acredito que o Budismo tenha tudo a ver com organização porque ter uma Vida Organizada significa levar uma vida com significado, pautada em princípios, e é exatamente isso o que o Budismo oferece.

Recentemente voltei a frequentar o centro budista em São Paulo, e vi o quanto eu estava sentindo falta nesses últimos anos. Provavelmente não sairei nunca mais. 🙂 Se tiver interesse, posso comentar mais sobre os cursos e práticas que tenho lá. Deixe um comentário. Obrigada!

Como eu organizo os meus estudos do Budismo

O tema do mês aqui no blog é “Espiritualidade” e eu gostaria de contar um pouco como eu organizo os meus estudos.

Como comentei em um post anterior, meu “livro base” chama-se “Caminho alegre da boa fortuna – O completo caminho budista à iluminação” (Geshe Kelsang Gyatso). Ele divide o “caminho” e os aprendizados em três escopos: inicial, intermediário e grande escopo.

Fundamentos e escopo inicial

  • Entendimento das diversas etapas do caminho – Aqui, essencialmente da tradição que sigo, que é a Nova Tradição Kadampa. Talvez você possa adaptar para outra tradição ou até mesmo outra religião. É como se fosse delineado o método.
  • Qualidades do autor – Aqui estuda-se a biografia dos autores que serão estudados, o que é muito importante para conhecer a história e a credibilidade de quem está te ensinando essas coisas.
  • Qualidades do ensinamento – Aqui tem um histórico do método.
  • Ouvir e ensinar o darma – Este tema é super importante. Darma é o conhecimento de Buda. Então fala-se sobre a importância do estudo e da prática, que envolve o ensino.
  • Meditação – Aqui, temos vários capítulos que explicam o que é meditação, como fazer, orientações, instruções, etapas. É bem completo e, realmente, são os fundamentos.

Aí entram efetivamente os temas que são estudados no escopo inicial:

  • Confiar em um Guia espiritual – Fazer parte de uma comunidade religiosa é algo que te deixa super vulnerável. Por isso, é importante confiar naquelas pessoas que estão te ensinando.
  • Preciosidade da vida humana – No Budismo, acredita-se que existem várias vidas, várias encarnações, até o ser alcançar a iluminação. Nascer humano é muito raro. Você poderia nascer como qualquer ser vivo. Nascer humano permite que você faça escolhas e ajude outras pessoas e outros seres vivos. Por isso, é uma oportunidade incrível. Neste capítulo, é falado justamente sobre isso.
  • Morte – Bem… faz parte da vida. Este tema é bastante estudado no Budismo.
  • Os sofrimentos nos reinos inferiores – Este é um tema bem budista, que não serve, como alguns outros, para todas as pessoas. Aqui, você precisa ter essa mesma crença.
  • Busca de refúgio – Tomar votos de refúgio é o que faz de você budista “oficialmente”. Existem práticas religiosas que devem ser feitas diariamente e em outras frequências, e neste capítulo é falado sobre isso.
  • Carma – Possivelmente um dos temas mais importantes.

Aqui no blog (e no canal do YouTube) eu pretendo falar sobre os temas que forem mais gerais, que se apliquem a todas as pessoas. Mais adiante, se vocês quiserem, posso falar sobre os temas mais específicos do Budismo mesmo, como refúgio.

Escopo intermediário

  • Gerar o desejo de alcançar a libertação – Aqui os temas começam a ficar mais “sérios” para o praticante dedicado. O tema aqui diz respeito a como ter motivação diária para alcançar o estado de libertação e, por fim, a iluminação.
  • As quatro nobres verdades – Ensinamento clássico do Budismo.
  • Meditações nos verdadeiros sofrimentos – Extensão do ensinamento anterior.
  • Delusões e ações, morte e renascimento – Aqui aprofunda-se no estudo da situação da morte e também no conceito de carma.
  • Os doze elos dependente-relacionados – Conceito mais aprofundado, relacionado ao carma.
  • Roda da vida – Não é igual à roda da vida no coaching rsrs diz respeito aos outros reinos de seres vivos. Trata-se de um aprofundamento do que foi estudado no escopo inicial.
  • O caminho à libertação – Aqui estuda-se as práticas constantes de um budista, a disciplina moral e outros aspectos importantes.

Vocês podem ver que vai ficando um pouquinho mais complexo de explicar e de entender. É porque o conhecimento precisa ser entendido e acumulado antes de chegar nessas fases. 🙂

Grande escopo

  • Ingresso no Mahayana – Mahayana é o caminho budista que tem compaixão por outros seres. É difícil resumir, mas em suma é isso, e neste tópico estuda-se por que é chamado assim, origem, práticas, diferenças etc.
  • Gerar a bodichita – Bodichita é o estado mental de compaixão o tempo todo. Neste tópico, estuda-se sobre o desenvolvimento desse estado mental.
  • Ações de um Bodissatva – Se você estiver trilhando o caminho para a iluminação, como deve se portar? Qual deve ser a sua postura diária? O bodissatva é aquela pessoa que está comprometida com seu caminho à iluminação.
  • Treinar a mente no tranquilo-permanecer e na visão superior – Ambos conceitos budistas…
  • Avançar pelos solos e caminhos espirituais – Aqui existem explicações mais detalhadas sobre as diversas etapas do caminho.
  • Caminhos Vajrayana – Explicação de outras vertentes relacionadas.
  • A plena iluminação – O que acontece? O que estamos buscando? Quais as características desse estado?

Ao final do livro, existem muitas preces, resumos, glossário e outras informações adicionais.

Para estudar esse conteúdo profundamente, os centros budistas oferecem um curso de estudo aprofundado, com aulas uma vez por semana, que estudam este e outros livros da tradição em detalhes, esmiuçando cada conceito mesmo, e aliando à prática.

Além desse estudo aprofundado, existe a prática diária, que envolve basicamente você seguir os fundamentos citados acima, mas também fazer as práticas da religião em si, que incluem meditação, participar de atividades voluntárias no centro budista mais perto de você, além de participar das preces cantadas em datas comemorativas.

Como eu comentei em outro post, eu não tenho mais frequentado o centro como fazia antes. Estudo em casa e pratico na vida. Gosto muito das atividades do centro, mas atualmente tenho diminuído a quantidade de qualquer evento ou compromisso externo que eu tenha, para poder ficar mais em casa. Já tenho muitos compromissos externos que envolvem o mestrado e o meu trabalho (cursos, reuniões), então é simplesmente uma fase da minha vida em que fiz essa escolha, e estou tranquila com ela.

Não tenho participado de retiros também. Desde que o nosso filho nasceu, é complicado ficar mais de um dia fora, porque já tenho muitos compromissos profissionais e, quando posso ficar com ele, fico com ele. Eu costumava participar de retiros de um dia ou de meio período, e ainda encaixo isso na agenda se minha semana estiver sem tantos compromissos.

Para mim, de verdade, o Budismo se aplica ao dia a dia. Mais do que as práticas religiosas, estão as práticas espirituais e de ação mesmo. 

O que eu pretendo explorar nos próximos conteúdos serão temas mais gerais, que servem a todas as pessoas, não necessariamente budistas ou simpatizantes, e espero de verdade que sejam úteis. Caso você tenha alguma dúvida específica ou sugestão de assunto, pode deixar um comentário. Estou preparando um post/vídeo com as principais perguntas. Obrigada.