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Faz parte da minha prática espiritual meditar todos os dias. Não existe uma maneira certa ou errada de meditar – existem técnicas e métodos de acordo com as mais diversas tradições e objetivos. No Budismo Kadampa, tradição que eu estudo, a meditação é vista realmente como prática espiritual, além do benefício mais comum, que é acalmar a mente.

Para entender melhor, trouxe um trecho do livro “Transforme sua vida”, de Geshe Kelsang Gyatso:

[quote class=”azul”]”Muitas pessoas praticam meditação respiratória, mas em geral só se concentram na sensação que o ar provoca ao entrar e sair pelas narinas. Isso serve para acalmar a mente temporariamente e reduzir os pensamentos distrativos, mas não tem o poder de transformá-la de maneira profunda e duradoura.”[/quote]

A ideia da meditação é refletir sobre ações que tomaremos no futuro. Como exemplo, podemos meditar sobre a raiva e sobre como podemos ter paciência. Logo, quando o momento aparecer no nosso dia a dia, em vez de sentirmos raiva, teremos nossa mente treinada pela meditação para agir de forma diferente, já premeditada. E isso é uma prática mesmo, que a gente vai treinando e melhorando com o tempo.

Uma das coisas que mais me chamaram atenção na Tradição Kadampa é a ênfase na prática do Dharma (Dharma são os ensinamentos de Buda). Os monges não vivem em monastérios fechados – eles atuam na rua, na comunidade, e todos nós, os ditos leigos, devem fazer o mesmo. Por isso, é bastante coerente que o objetivo da meditação seja a aplicação prática dos ensinamentos e dos objetos de contemplação.

No geral, o propósito da meditação é acalmar a nossa mente e buscar a paz, pois permaneceremos serenos mesmo nas condições mais adversas.

Antes de iniciar meus estudos na Tradição Kadampa, eu estudava o zen budismo, que tinha como principal prática de meditação o zazen. Isso significa “apenas sentar” e meditar. Como eu nunca cheguei a frequentar um centro zen budista, não me aprofundei na técnica. Eu fazia somente meditações respiratórias para acalmar a mente, e isso me bastava. Não havia uma frequência ou objeto de contemplação. Somente há alguns meses eu me inscrevi em um curso de meditação e então tudo começou a fazer mais sentido para mim. Portanto, se você não sabe por onde começar, pode valer a pena procurar um curso de meditação na sua cidade. Os centros budistas costumam não ter fins lucrativos e cobram valores mínimos para cursos, para manutenção do centro mesmo, então são acessíveis à maioria das pessoas.

No curso, comecei a aprender não só sobre os benefícios da meditação, como também a postura correta, o sentido das mudras (gestos simbólicos feitos com as mãos), além de técnicas boas que ajudam muito, como manter os olhos parcialmente abertos (para não ter sono) e até a posição da língua, para não ficar salivando e prejudicando a concentração.

Antes de começar o curso, eu tinha lido um livro escrito pela Soninha (“Por que sou budista”) e ela fala um pouco sobre como a nossa mente é agitada e como ela não conseguia sentar e meditar. Justamente por esse motivo, ela disse, ela deveria sentar e meditar! Precisava acalmar a mente! E o que eu acho engraçado é como me sinto quando sento para fazer uma meditação respiratória simples, para acalmar a mente, e simplesmente não param de vir pensamentos. É um turbilhão de coisas! Mas o professor disse que não é que a nossa mente fica agitada quando meditamos – é que, quando nós prestamos atenção em nossa mente, é que percebemos como ela é agitada. Na verdade, ela fica assim o dia inteiro. Por isso é importante a gente ter alguns minutinhos todos os dias para meditar, porque senão ninguém dá conta de tanta agitação.

Como meditar

O método da meditação na Tradição Kadampa tem cinco partes: preparação, contemplação, meditação, dedicatória e prática subsequente. Há uma analogia maravilhosa sobre preparar o campo, plantar a semente e depois regá-lo, para ver os resultados.

A ideia da preparação é justamente acalmar um pouco a mente, então sempre iniciamos com uma meditação respiratória simples, que leva apenas alguns minutos. A meditação respiratória é tão eficaz, que podemos fazer em qualquer momento do nosso dia: em casa, no trabalho, no transporte público. Não tem tanto segredo: basta se concentrar na sua própria respiração. Depois de acalmar a mente, recitamos as preces preparatórias da tradição.

Na segunda parte, a contemplação, conhecemos o objeto da nossa meditação. Nesse momento, o professor traz ensinamentos sobre um tema específico e nos dá instruções. Na Nova Tradição Kadampa, seguimos um livro chamado “Novo manual de meditação”, também de Geshe Kelsang Gyatso, que tem absolutamente TUDO o que você precisa saber sobre meditação na NKT (New Kadampa Tradition). E uma das minhas coisas preferidas é que ele propôe 21 temas, que devem ser nosso objeto de meditação ao longo de 21 dias seguidos e, depois, continuamente estudados. Os temas são os mais diversos, como “equalizar eu e os outros”, “nossa preciosa vida humana” e outros, todos relacionados aos ensinamentos de Buda.

Na terceira parte, partimos para a meditação propriamente dita, com foco no objeto da meditação. Essa meditação é guiada pelo professor e pode durar de 20 a 40 minutos. Percebam que a meditação tem um foco; o objetivo é realmente plantar a sementinha; pensar naquele assunto para que, quando acontecer algo relacionado no nosso dia a dia, a gente consiga lidar de forma tranquila, em paz.

Na quarta parte, dedicamos o mérito que adquirimos com a meditação para alcançarmos a iluminação. Recitamos preces dedicatórias.

A quinta parte é a prática subsequente, ou seja: o que você vai fazer depois daquele ensinamento. “É importante lembrar que a prática do Dharma não se limita às sessões de meditação; ela deve permear toda a nossa vida” – Geshe-la, no livro “Novo manual de meditação”.

Minha prática diária

Além de frequentar o curso, eu medito diariamente. Ainda estou muito no começo, então peço desde já que me perdoem caso eu fale algo equivocado neste post, e pretendo revisá-lo de tempos em tempos para garantir que as informações estejam corretas.

Tenho um pequeno altar em casa, representado na foto no início do post. Meu altar é simples e ainda não aprendi como montá-lo da forma correta, então por enquanto ele fica de acordo com o que já sei. Tenho uma representação de Buda, uma foto do Geshe Kelsang-Gyatso (nosso guia espiritual da tradição), a imagem de uma estupa (que representa a mente de Buda), escrituras (representando a fala de Buda) e oferendas diversas (água e incenso).

Gosto de meditar pela manhã e à noite. Nem sempre consigo meditar quando acordo, pois meu filho pode já estar acordado e não tenho como me trancar no quarto para fazer isso. Então assim, se acordo antes dele, consigo meditar tranquilamente. Geralmente isso acontece e é comum acordar mais cedo que o horário habitual somente para meditar pela manhã. Eu vou trabalhar com outra cabeça, é incrível. Portanto, gosto muito de meditar quando acordo. Antes de dormir também é muito bom, pois “encerro” o dia, por assim dizer. Se meditei pela manhã, de noite faço apenas uma meditação respiratória, para acalmar a mente. As meditações costumam durar de 20 a 40 minutos, como no centro.

Também frequento o Centro Budista aqui em Campinas, onde participo das atividades. Além do curso de meditação, há cursos para estudo do Dharma, em diversos níveis (iniciais e mais aprofundados) e as chamadas pujas, que são preces cantadas e acontecem diariamente. Há diversas atividades relacionadas também, como retiros e festivais, com palestras e ensinamentos preciosos. Em todas essas atividades, sempre há meditação, então a prática é constante.

Quando fico sozinha em casa, gosto de fazer pequenos retiros (uma manhã, uma tarde ou um dia inteiro dedicado aos estudos do Dharma), intercalando com as atividades diversas que tenho na vida. Também é uma oportunidade para exercitar o silêncio e recitar as preces cantadas diversas vezes.

Não há segredo para se organizar para meditar além daquele de sempre para implementar qualquer hábito na sua vida: motivação, disciplina e boa vontade. A meditação como prática espiritual é uma coisa e a para simplesmente acalmar a mente, sem estar ligado a nada espiritual, é outra. Se você frequentar algum centro ou participar de algum tradição, receberá as instruções e métodos relacionados àquela tradição. No entanto, se você pretende somente acalmar a mente, 5 a 15 minutos de meditação respiratória diariamente já ajudam e muito a deixar a mente em paz, e realmente é recomendável a todos os seres humanos.

Alguém tem uma rotina de meditação? Como se organiza quanto a isso?