Categoria(s) do post: Profissionais, Carta da Editora, Trabalho

Está todo mundo sofrendo com a sobrecarga de trabalho.

Mesmo que você ame o que você faz, isso não impede de sofrer essa sobrecarga.

Tenho algumas hipóteses para fazer essas afirmações:

  1. Em vez de um dia de trabalho, um blocão de tempo, o trabalho focado está fragmentado. Temos muitas distrações virtuais, interrupções e reuniões que “quebram” o dia em vários pedaços.
  2. A competitividade que nasce e nos é imposta, sejamos funcionários ou empresários, cria uma sensação de comparação e sentimento de fracasso o tempo inteiro, nos deixando frustrados.
  3. São muitas informações, mensagens e atualizações de projetos para acompanhar, e isso gera a famosa “FOMO”- medo de estar perdendo algo. O que nos causa ansiedade e nos deixa em sentimento de alerta o tempo inteiro – o que gera estresse.
  4. As mensagens instantâneas como ordem do dia, sem que existam parâmetros e políticas pessoais de comunicação, fazem com que você se veja muitas vezes 11 horas da noite respondendo mensagem de trabalho.
  5. Muitas pessoas dormem menos porque precisam trabalhar mais, porque suas rotinas são extenuantes devido ao tempo gasto no transporte público, porque estão com insônia, entre tantos outros motivos. E isso acaba com qualquer ser humano.
  6. Não é possível organizar tralha. Então não adianta querer colocar em ordem de prioridade as 74 tarefas que você tem para hoje achando que isso vai te ajudar a se organizar. É eliminando 70 tarefas que vai te ajudar a se organizar e fazer as 4 que realmente importam.

Está na hora de dar um basta.

Está na hora de as empresas perceberem que trabalhar mais horas não significa trabalhar melhor.

Está na hora de os gestores perceberem que não dá para a equipe fazer absolutamente tudo ao mesmo tempo.

Está na hora de cada indivíduo aprender a gerir melhor as suas demandas, com prioridades claras.

Está na hora de parar de achar que o trabalho tem que continuar sendo um instrumento de tortura (a palavra trabalho vem de tripallium, no latim, que era um antigo instrumento de tortura).

Está na hora de trabalharmos em empresas CALMAS.

Empresas que não estressam seus funcionários.

Empresas que não ficam cobrando retorno “o mais rápido possível”, fazendo as pessoas virarem a noite.

Está na hora de nos tornarmos PROFISSIONAIS.

Profissionais que não fiquem dizendo que estão o tempo todo ocupados.

Profissionais que não fiquem dizendo que estão o tempo todo “na correria”.

Profissionais que saibam dizer NÃO com justificativa clara das suas prioridades.

Profissionais que não coloquem suas ansiedades para cima dos outros.

Para ter resultados, você precisa ir na raiz da questão – que é nutrir as PESSOAS.

Defendemos uma produtividade compassiva justamente porque esse olhar para si, para todas as suas necessidades como ser humano, e para o outro, é a raiz de todas as coisas quando se fala em produtividade. Não dá para falar em produtividade sem esse olhar.

Ninguém precisa trabalhar no domingo. Todo mundo pode esperar até segunda.

Ninguém precisa responder mensagem às 22h. Todo mundo pode esperar até a manhã seguinte.

Em alguns momentos podemos precisar trabalhar mais? Claro que sim. Todo trabalho tem as suas sazonalidades. Mas não precisa ser assim o tempo inteiro. A ideia é que isso seja exceção e não a regra.

Nós construímos por aqui uma empresa e um estilo de vida de maneira diferente. E estamos aqui justamente para compartilhar sobre as escolhas que fazemos, por que as escolhemos e como as executamos. Toda empresa e todo ser humano pode tomar decisões dentro de suas possibilidades e circunstâncias, adaptando absolutamente tudo o que ensinamos. Para conseguir, você precisa querer. Depois de querer, precisa aprender como fazer. Estamos aqui para isso. 🙂

O modelo de trabalho hoje está deixando as pessoas doentes.

O caos não deveria ser normalizado.

Ansiedade não deveria ser uma característica comum a todos nós.

“Trabalhar enquanto os outros dormem” não deveria ser normativa para o sucesso.

Tudo isso são perversões do mundo do trabalho que revelam como o sistema capitalista é insustentável.

Optar por ter uma empresa mais calma ou uma vida mais calma é simplesmente o primeiro passo para:

  • proteger como você usa o seu tempo
  • proteger como os funcionários da sua empresa utilizam o tempo deles
  • estar com as pessoas de maneira plena e realmente presente
  • encontrar uma carga horária de trabalho que se adeque à sua vida garantindo o trabalho que precisa ser feito
  • alinhar expectativas quanto a entregas e prioridades
  • aproveitar melhor os momentos de descanso e ócio
  • ter perspectiva de para onde tudo está caminhando
  • marcar reuniões apenas como último recurso e não a primeira opção
  • não descarregar ideias e demandas via mensagens instantâneas e sim estabelecer um processo mais organizado
  • respeitar o tempo dos outros
  • os outros respeitarem o seu tempo
  • aprender a dizer não com assertividade e responsabilidade
  • ser menos dependente de terceiros
  • construir um estilo de vida coerente com quem você é

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14 comentários

  1. carol justo comentou:

    existem diversos estudos que comprovam que trabalhar menos pode até ser mais produtivo, reduzir a jornada de trabalho e a cobrança de metas mirabolantes faz com que os trabalhadores sejam mais felizes trabalhando e acabem produzindo ainda mais…
    temos que parar com essa mentalidade de que trabalhar mais tempo é igual produzir mais pq uma coisa não tem nada a ver com a outra, vejo muito isso na faculdade, tem vezes que passo 6h pra terminar um trabalho que preciso entregar, 6h direto, mas se eu dividir esse trabalho em dias eu acabo gastando até menos tempo, se dedicar 1h por dia, em 3 ou 4 dias já consigo terminar o trabalho, pq daí eu não fico cansada, a mente tem que descansar

    beijosss
    https://justoeublog.blogspot.com/

  2. Sónia Neves comentou:

    Texto fantástico!
    Parabéns!

  3. Márcia Elizabeth comentou:

    Thais, quanta lucidez neste artigo. Meus parabéns! Síntese destes tempos que estamos vivendo. Sou sua fã. Beijos.

  4. Damiana Sousa comentou:

    Fantástico!
    Parabéns, Thais, por ter trazido este conteúdo.

  5. Roberta Perin comentou:

    Muitas coisas me fizeram refletir através deste texto sobre o ambiente de trabalho.

    Por muitas vezes, este senso de urgência equivocado acaba sendo o que muitas vezes gera este nível de estresse e ansiedade em toda a organização.

    Além disso, vejo por um outro lado, que muitas pessoas não olham a organização com o respeito suficiente da “troca pela prestação do serviço” e não tem o senso de comunidade.

    Eu observo que muitas vezes a sobrecarga também em pontos específicos da organização, onde essas demandas sendo compartilhadas e distribuidas igualmente, não geraria o excesso de estresse em algumas pessoas em específico.

    São tantas e tantas coisas.

    Obrigada por este texto Thais… Ainda estou em processo de reflexão sobre isto 🙂

  6. Evely Solange comentou:

    Simples e perfeito.

  7. Domenique Nobre comentou:

    Que cirugica!

  8. Ana comentou:

    Lendo o seu texto, me peguei pensando que a questão da produtividade máxima já está tão enraizada dentro de mim que às vezes a instituição nem está me exigindo super produção, mas eu estou sempre ansiosa para entregar, concluir ou dar andamento no que tenho pra fazer. Complicado mesmo!

  9. Cris Thury comentou:

    Falou tudo Thais. Vamos proteger nossa saúde. O mundo do trabalho está bem adoecido. Beijo!

  10. Marcelle Amador Dias comentou:

    É exatamente essa a mudança no mundo do trabalho que deveria acontecer.
    Sou mãe, esposa, professora e sindicalista (produzia conteúdo na internet e agora não estou conseguindo encaixar na agenda). Destaco que na transição do ensino remoto na Pandemia para o presencial houve o encaixe do remoto no presencial, tornando o que já era exaustivo em algo insuportável.

  11. Pablo Barbosa comentou:

    Texto perfeito!
    Acabei de sair de uma agência que trabalha com senso de urgência, tudo pra ontem e agora. Um caos total! Até tentei trazer algumas ideias de organização e políticas de comunicação, mas nem deram bola.
    Depois de um mês dentro desse furacão, tomei a decisão de não continuar e até fiquei na dúvida se fiz a coisa certa, mas depois de ler esse artigo, agora eu posso dizer que SIM, eu fiz a coisa certa! Obrigado Thais!!!

  12. Mariana Reid comentou:

    Um excelente manifesto!

  13. Elisa Mello Ribeiro comentou:

    Penso exatamente como você, basta!

  14. ana c comentou:

    meu sonho trabalhar em uma empresa assim ;( recentemente fui cobrada pelo número de demandas ter baixado no relatório, sendo que estava de férias e quando retornei ainda teve o feriado… socorr