Estudar um tema, não um livro

Essa foi uma mudança de chavinha interna aqui que fez toda a diferença nos meus estudos atuais. Por isso, é importante levar em conta que o que vou escrever aqui talvez funcione melhor para:

  • Ciências Humanas, pois estou lidando com grandes ideias e não fórmulas ou aplicações matemáticas práticas;
  • Estou fazendo Doutorado, então esse foi um amadurecimento que obtive neste momento do meu percurso intelectual. Eu acredito que a gente possa sim implementar em outros momentos (da escola à graduação), mas aí cada um precisa adaptar caso a caso e testar na sua realidade.

Essa compreensão veio de ouvir, durante muitos anos, a pergunta: “Thais, ler um livro é um projeto?”. E é difícil você dar uma resposta pronta porque depende muito da vida de cada um. Se você for estudante de Letras, por exemplo, talvez “estudar o livro Os Sertões”seja um projeto por si só. No entanto, se você estuda, por exemplo, Sociologia, muito provavelmente “ler o livro Manuscritos Econômico-Filosóficos” não será um projeto em si, mas parte de um projeto maior, como concluir a disciplina que está tendo essa leitura ou até mesmo concluir a definição de algum conceito para a sua tese. O que é o meu caso, então vou usá-lo como exemplo para explicar melhor o que quero dizer com estudar um tema, não um livro.

Olha aí o tio Carlinhos

Pois bem. Um conceito muito, muito importante a ser trabalhado na minha tese de Doutorado é o conceito de alienação no trabalho. Esse conceito é incrivelmente complexo, especialmente porque “alienação” pode ter outros significados em outros campos de atuação (como na psicologia, por exemplo). Na minha tese, vou trabalhar essencialmente o conceito de alienação do trabalho, MAS, de uma forma mais crítica a Marx, embasando teoricamente porque algumas questões filosóficas do indivíduo podem fazer com que ele não seja alienado de seu próprio trabalho.

Veja, eu tenho um projeto na minha lista de projetos em andamento que é concluir a contextualização da minha tese ainda este ano. O que quero dizer com “concluir a contextualização” é: consegui descrever, ainda que (e muito provavelmente) não tenha o texto final pronto, os conceitos-chave e delineamento do trabalho final de modo geral (capítulos, seções etc). É uma tarefa hercúlea que pode se estender por mais de um ano, mas gosto de me colocar uns prazos assim para não deixar tão “solto”.

O fato é que um dos conceitos mais importantes é o conceito de alienação. Mas, para escrever sobre isso, eu preciso estudar o tema apropriadamente.

A primeira coisa a ser feita é pedir orientação para… a professora orientadora! Sério, o orientador sempre será a sua melhor fonte, porque o que ele indica envolve não apenas o conhecimento do seu projeto como também a linha que ele acredita que vai funcionar para você. Por mais que você complemente com fontes externas, ouça seu professor orientador antes.

E a minha professora foi catedrática em me dizer duas coisas:

  1. Fique sempre com os clássicos!
  2. O “Manuscritos” do Marx é tudo o que você precisa ter para focar neste momento!

(coloquei ponto de exclamação porque adoro o jeito dela empolgado e enfático de responder as minhas perguntas rsrs)

E aí eu trago de novo a inspiração do Cal Newport para gerar uma hierarquia de leituras – até porque ninguém tem tempo de ler tudo, mesmo quem se dedica 100% do tempo aos estudos (as fontes são infinitas). Aqui vai a hierarquia que ele propõe:

  1. Leituras que tragam um ponto são mais importantes que
  2. Leituras que descrevem um evento ou pessoa, que são mais importantes que
  3. Leituras que apenas contextualizam melhor o que se está estudando

Para mim, funciona bem pensar em “texto base” para a primeira categoria. Vejo com a leitura que dá o embasamento necessário para o estudo do tema.

No caso de “alienação”, o livro base é o livro do Marx que eu coloquei ali em cima. Ou seja, de nada adianta eu ler outros autores comentando sobre o texto-base do Marx sobre alienação se eu não ler o Marx, entende? Então ele será a leitura de estudo, o livro de referência que ficará aqui sempre comigo ao estudar esse tema.

O que eu fiz então foi criar uma página no Notion para o conceito e inserir ali dentro essa divisão de leituras e referências. Assim:

Perceba que eu chamei a segunda hierarquia de textos de “textos complementares” porque achei que, para mim, era um termo mais fácil e intuitivo de usar. Vejo todos esses três tipos de textos como textos de apoio para a compreensão do termo alienação.

E aí eu vou colocando os textos de referência ali dentro, linkando para a página própria, criada lá no database de leituras (que mostrei em outro post como faço).

Em Textos complementares, vou inserir os livros que tenho que vão me ajudar com esse assunto diretamente, mas que não são o texto-base, como por exemplo:

  • A teoria da alienação em Marx – Mészaros
  • Dicionário de termos marxistas
  • O Capital, Tomo 1 – Marx
  • Grundrisse – Marx
  • História e consciência de classe – Lukács
  • Marx hoje – Jon Elster

Ou seja, são leituras da área das Ciências Sociais que falam diretamente sobre o tema que estou estudando, seja o livro inteiro ou apenas alguns trechos ou capítulos.

Por fim, temos os materiais de contextualização. Aqui em “alienação” eu ainda não acrescentei nenhum, mas eu me sentiria à vontade para colocar livros de outras áreas (História, Filosofia) até ficção que retrate a ideia (ex: “Animal Farm” do George Orwell) ou filmes (“Tempos Modernos”). Tudo isso me ajudará com a construção do texto sobre o tema mas são leituras e materiais complementares e de contexto, e não o texto-base. Em resumo, o foco deve ser o estudo do texto-base e só depois ir partindo para o restante, deixando os materiais de contextualização por último mesmo, “se der”.

Não tem como você estudar ou pesquisar um tema sem ler vários livros ao mesmo tempo, porque não se trata de uma leitura blasé, mas de um estudo do tema mesmo. Já perdi as contas de quantas vezes já reli o “Manuscritos” nesse processo e, antes, lá no mestrado, eu também já tinha lido, mas o enfoque era diferente.

“Ah Thais, mas isso toma muito tempo. Assim eu não vou conseguir estudar outras coisas.” Exatamente. Por isso não dá para pesquisar tudo e se envolver com tudo. A técnica traz, além de tudo, foco. Foco naquilo que é realmente importante estudar no momento.

Espero que o post tenha sido útil para você. <3 Qualquer dúvida, pode me perguntar nos comentários. Obrigada!