Categoria(s) do post: Carreira, Livros, Equilíbrio emocional

Estou finalizando uma leitura delicinha, que é o livro “Um quarto só seu” da Virgínia Woolf. Nele, que é uma transcrição de uma série de palestras que ela fez na década de 1920, para mulheres universitárias, a escritora traz uma visão geral das mulheres na história e encoraja a reflexão sobre por que antes as mulheres não escreviam livros e o papel que temos hoje em termos de trabalho, legado e vida. A conclusão é que, se uma mulher tivesse independência financeira e “um quarto só seu” em casa onde pudesse se trancar e trabalhar, estudar, escrever, as coisas teriam sido diferentes na história.

E assim: eu não pude deixar de comparar com a nossa realidade hoje, de mulheres que precisam trabalhar mas os filhos interrompem, alguns maridos são uns folgados, entre outras atividades que nos atribuem simplesmente pelo fato de sermos mulheres, como sermos cuidadoras de modo geral de outras pessoas. Ainda que o mundo tenha evoluído muito nesse quesito (e ainda bem), ainda hoje a gente vê como muitas mulheres simplesmente não conseguem se dedicar a um estudo, um trabalho, um hobby, leituras, uma nova ideia de negócio, simplesmente porque não têm um espaço em casa onde possam se fechar e trabalhar nisso ou porque são dependentes financeiramente.

Aqui em casa, eu tenho o meu “home-office”, que de agora em diante obviamente vou chamar de “um quarto só meu” porque eu simplesmente amei esse conceito. E tenho certeza que o fato de sempre ter um quartinho “só meu” em casa fez toda a diferença para eu construir o Vida Organizada, poder fazer Doutorado e todas essas coisas maravilhosas que eu tenho na minha vida hoje. Quando nos mudamos para um apartamento de dois quartos e eu acreditei que conseguiria trabalhar na sala, foi muito angustiante. O barulho da casa incomoda, atrapalha, e para mim foi impossível me concentrar.

Olha só o tamanho do ato de empoderamento que nos dá o fato de termos um quarto só nosso em casa (que seja o quarto de dormir, que você consiga se fechar e trabalhar concentrada em alguns momentos – o que envolve alguém cuidando dos filhos enquanto isso acontece!) e independência financeira do marido, pais, quem quer que seja. Muitas mulheres simplesmente não têm essa condição. Deveria ser essa a nossa busca, então?

Trago aqui essa reflexão porque, diariamente, recebo mensagens de mulheres querendo resolver problemas relacionados a interrupções, “falta de ajuda” em casa, falta de tempo porque têm filhos e, no final das contas, é uma questão maior que a gente né? É algo estrutural, que vem de centenas de anos, de os homens serem os privilegiados quando se escolhe (isso quando há a possibilidade de escolher!) “quem vai trabalhar e quem vai cuidar dos filhos”. Hoje em dia, na maioria das vezes, as mulheres ainda cumprem esse papel e, mesmo quando trabalham para algo além da casa e da família, precisam cumprir esse “turno” em casa também.

Não é à toa que não temos tempo! Mas a leitura desse livro me ajudou a dar um direcionamento para quem chega até aqui com essas angústias:

  • Tenha um quarto só seu – o que envolve não apenas o espaço físico mas o ato de PODER fechar a porta e trabalhar concentrada quando for necessário. E poder fazer isso depende de uma estrutura com a casa e a família que também precisa ser construída;
  • Busque independência financeira – pois isso te dará segurança para tomar qualquer decisão na vida;
  • Mande a real em casa e converse com todos os envolvidos sobre o seu direito a ter um tempo só para você.

Fácil não é. Na maior parte dos casos, envolve uma chuva de privilégios. Mas eu penso que sejam objetivos de foco importantes, para a) analisarmos o que podemos mudar na nossa vida e 2) entender melhor porque algumas mulheres não conseguem fazer determinadas coisas e não impôr a falácia da meritocracia gerando culpa em cada uma delas.

Espero que essas reflexões tenham sido importantes para você como foram para mim. <3 Bom domingo.