Categoria(s) do post: Diário da Thais

Mesmo que eu considere que não tenha “nada de novo” acontecendo, me passou pela cabeça que poderia ser uma boa registrar como tenho me sentido neste momento com relação ao Doutorado e as percepções que venho tendo. A minha referência até o momento era o Mestrado. Logo, eu entrei no Doutorado lembrando de como era a minha rotina no Mestrado. Claro que o fato de fazer em duas universidades diferentes traz suas diferenças por si só, mas eu quis escrever este post para registrar mesmo (e rever futuramente).

Iniciei o Doutorado no início de março e, agora, dois meses depois, eu consigo elaborar um pouco o que tem de semelhanças e o que tem de diferenças. Em termos de semelhanças, posso falar a respeito do convívio entre estudantes e pesquisadores (ainda que online), as aulas, as leituras. Mas, em termos de diferenças, para mim o que mais salta aos olhos são duas coisas: a carga de leituras e o nível exigido de você como pesquisadora, muito maior. No Mestrado, você está lá justamente para aprender a ser pesquisadora. No Doutorado, entende-se que você já é essa pessoa, ainda que tenha um longo caminho pela frente para percorrer. Eu sinto que o respeito também é maior, como se fazer Doutorado anunciasse ao mundo que você está realmente comprometida com a pesquisa acadêmica.

A carga de leituras é muito maior e você precisa ter uma certa autonomia para realizá-las. Por exemplo, para uma aula, a professora indicou 12 livros obrigatórios e 5 livros complementares, “se der”. É possível que eu já tenha lido alguns desses livros em minha trajetória acadêmica, mas muitos não – e muitos sequer têm tiragem, ou seja, são edições esgotadas ou que você não consegue comprar em nenhum lugar. Com a biblioteca da universidade fechada, resta procurar online e, muitas vezes, não é possível encontrar. E como é praticamente impossível ler 17 livros de uma semana para a outra (isso para uma das aulas – tenho duas na semana), você precisa se organizar para ler o que considerar essencial e se planejar para escrever, pois são vários trabalhos relacionados às disciplinas.

Em uma delas, preciso entregar um artigo no meio do semestre e, ao final, apresentar um seminário (cada trabalho um tema diferente). Em outra, tem o trabalho final (um artigo) e as atividades do núcleo de pesquisa, que também demanda a submissão de um artigo (que vai virar o capítulo de um livro), além de outras atividades, como seminários e colóquios. O que eu quero dizer é que a vida acadêmica já é volumosa para quem vive 100% dela – para quem não vive, chega a ser até um pouco desnorteadora no início, até você pegar o ritmo.

Sobre o nível de exigência das leituras, vou contar um exemplo que aconteceu na semana passada e que achei engraçado, e que acredito que ilustre muito bem. Minha professora me perguntou algumas referências de leituras e estudos que estou fazendo para a parte teórica da pesquisa, a partir de autores ocidentais que falem sobre o Budismo Mahayana, e eu citei algumas delas – dentre estas, o Byung-Chul Han, também autor do famoso livro “Sociedade do Cansaço”. Ao que ela me perguntou: “mas você está lendo em coreano?”. 🤡 Eu achei a pergunta curiosíssima e depois fiquei refletindo sobre como o mundo acadêmico é exigente e engraçado ao mesmo tempo, pois para a professora me perguntar uma coisa dessas, é porque para os pesquisadores é absolutamente normal você já ter lido tanta coisa na vida, que agora você só quer ler os livros no idioma nativo do autor. E, só para constar: não, não estou lendo em coreano. “Ah”. Você tem que segurar muito a onda mentalmente para não se sentir com a síndrome do impostor o tempo todo.

Com relação à tese, estou na fase de leitura e contextualização teórica, e minha professora orientadora me pediu para escrever algumas páginas como resultado dessa parte, apenas para irmos refinando com o passar do tempo. Neste momento, então, estou trabalhando nos seguintes materiais:

  • O trabalho para a disciplina de Fundamentos da Sociologia. Escolhi escrever sobre Weber;
  • O seminário para apresentar no final do semestre nesta mesma disciplina, sobre alteridade;
  • A contextualização teórica para a minha tese;
  • A pesquisa para o Seminário do Grupo de Pesquisa de Sociedade do Espetáculo que acontecerá em outubro;
  • O trabalho para a disciplina de Sociologia do Trabalho;
  • O artigo para o núcleo de pesquisa de Sociologia do Trabalho, que depois provavelmente se desdobrará em apresentações em seminários.

A recomendação é sempre essa: quando em curso, siga o curso. Ou seja, se estou fazendo o Doutorado, procurar alinhar todos os trabalhos com a minha pesquisa. É desafiador mas acho que é a única maneira de fazer sem perder o norte, sem se sobrecarregar tanto.

Eu consegui desencanar um pouco da “trava” para a escrita acadêmica que eu tive no início do Mestrado. Agora escrevo livremente e, aos poucos, vou atualizando com as referências. Ou começo pelas referências e desenvolvo o texto. De certa maneira, já me sinto um pouco mais madura para elaborar um texto acadêmico, ainda que ele seja um desafio para mim.

Claro que nem preciso dizer o desafio que é conciliar tudo isso com o meu trabalho e a vida como um todo. No entanto, o fato de as aulas estarem sendo online e eu não ter esse deslocamento me ajuda bastante. Então preciso aproveitar. Leio, estudo e escrevo todos os dias um pouco. Se não for assim, fica mais difícil. É como atividade física: se você deixar para fazer uma vez por semana, se no dia da atividade você não estiver a fim ou não puder, já eras. Ficou uma semana sem fazer. Com o Doutorado é a mesma coisa. Preciso fazer um pouco todos os dias. Sinceramente? Ainda não é o suficiente e ainda me sinto pegando o ritmo. Mas pelo menos sinto que estou andando com todos os projetos.

Eu costumo dizer que, quando você entra no curso, já inicia uma contagem regressiva para a entrega do trabalho. Claro que eu sei que tenho quatro anos pela frente e isso é tempo considerável mas, se você deixar muito pra frente, ficará ainda mais volumoso. Logo, este é o momento realmente de se acostumar, de adiantar o que puder, mas também de curtir essa etapa da vida pela qual almejei tanto. Continuo compartilhando com vocês. 😉