Categoria(s) do post: Diário da Thais

Todo ano eu escrevo um post no último dia de dezembro, buscando fazer uma espécie de retrospectiva de como foi o ano para mim.

2020 não tem muito a se dizer além do que já vem sendo dito. A pandemia mudou o plano de todo mundo e levou muitas vidas, empregos, ainda que para outras pessoas tenha sido agente de mudança em diversos aspectos.

Fala-se muito em “será que as pessoas vão mudar depois disso tudo?”. Mas mais do que pensar ou esperar que as pessoas mudem, eu consigo ver como eu estou passando por isso. Eu já vinha de um processo de mudança, focando em um modo de vida mais devagar e significativo, com foco em uma rotina tranquila. A pandemia apenas reforçou algumas coisas que eu já tinha aprendido:

  • o mundo vai entrar em colapso com essa exploração animal e ambiental completamente desenfreada;
  • não existe a necessidade de se deslocar para fazer reuniões;
  • pensar no próximo não é algo comum a todos.

Mas, acima de tudo, o que eu ainda não consigo saber (ninguém consegue) são os efeitos desse momento a médio e longo prazo na nossa vida. Como um evento que nos obrigada a passar nove meses de um ano inteiro fechados dentro de casa vai afetar a nossa mente? Que hábitos desenvolveremos? Como as crianças vão lidar com isso? E nós? Enfim.

Quando a quarentena começou, minhas prioridades foram reajustadas. Minha mente precisava ficar boa, minha saúde física, e a dos meus aqui em casa, minha mãe, nossa família. Conseguimos ajudar pessoas próximas, comércios pequenos do bairro, pequenos produtores. Reorganizei toda a produção de conteúdo para ajudar o pessoal. Apesar das dificuldades, considero um ano em que realmente me desdobrei no meu propósito e trabalhei muito, mas com intenção.

O primeiro trimestre, que vou contar até o início da nossa quarentena, foi bastante significativo. Em janeiro, eu me dediquei ao curso do Método Vida Organizada e à Semana da Organização que aconteceu no final do mês e início de fevereiro. Foi também o mês em que precisei me dedicar à escrita final da minha dissertação. E também um mês em que sofri uma das maiores decepções da minha vida, que me abalou a ponto de eu ter que voltar pra terapia porque se desenrolou em sentimentos que quase me levaram à depressão.

Em fevereiro, voltaram as aulas do Paul, agora no quinto ano. Eu entreguei a minha dissertação e fiz ajustes para defender em março. O foco do meu trabalho estava na Turma 2 do MVO, iniciada no começo do mês. Fiz uma viagem a trabalho para Brasília, passando alguns dias. Uma semana antes do Carnaval, eu fiz uma compra de máscaras e mantimentos para termos em casa e eu confesso que, durante o Carnaval em si, não me animei para ir em bloquinhos ou eventos do tipo pois achava que o COVID-19 já estava circulando entre nós. No final de semana depois do Carnaval, tínhamos uma viagem agendada, para um parque aquático no interior de SP, e eu só não cancelei porque era um sonho do Paul ir para esse lugar. A viagem aconteceu, mas foi toda tensa, pois eu já estava com medo da chegada do vírus.

Na semana seguinte, março, dia 5, defendi minha dissertação. Já se falava em casos no Brasil. Eu já não saí mais de casa, com a exceção de um trabalho externo que tive no dia 12 – o dia que a OMS declarou que estávamos vivendo em uma pandemia. Almocei com o pessoal do trabalho, voltei para casa e não saí mais. Foi o primeiro dia da quarentena.

Eu no dia da defesa da dissertação, com meus professores

Lembra como naquela época se acreditava que a gente deveria ficar em casa por uma ou duas semanas, que seriam críticas para não espalharmos o vírus? Deu muito medo na época. Será que já tínhamos pego? Como ficarão as coisas no meu trabalho? E as nossas finanças? E as coisas que já contratamos? (festa do Paul no buffet, um ano de academia..). Naquele momento, decidi não decidir. Esperei. Fiz cancelamentos mais próximos, para abril, maio. Deixei o segundo semestre em suspenso. Também não agendei mais nada. Viagens programadas para junho e julho foram canceladas. Uma viagem maior que faria em outubro, cujas passagens eu compraria em abril, eu sabia que não aconteceria. Estava todo mundo preocupado em passar duas ou quatro semanas em quarentena, mas todos os especialistas diziam que seria no mínimo até o final do ano, e muito provavelmente só em 2021 ou 2022, com uma vacina. Todos se desesperaram. O Budismo me ajudou muito. Não me desesperei. Foquei na meditação, em manter minha mente estável e ajudar os meus meninos aqui em casa, além da minha mãe. Acredito que tenha conseguido. Por mais que eu estivesse vivendo uma batalha interna muito difícil a respeito do que comentei que aconteceu em janeiro, eu consegui me manter centrada e focada para ser um porto seguro para as outras pessoas.

Paul comemorou seus 10 anos de idade em casa, com uma festinha via Zoom para os amigos. Dadas as devidas proporções, foi uma comemoração legal. Também adotamos nosso baby salsicha, o Stanley, que mudou completamente a nossa relação com a vida. Como foi bom ter um cachorrinho em casa de novo.

Comecei a fazer uma série de trabalhos direcionados a questões específicas. Em abril, uma semana de planejamento em tempos de pandemia, focando na organização em home-office, em casa, com filhos, pensando em como reajustar os planos. Em maio, um mês de lives diárias para simplesmente estar presente e falarmos sobre coisas positivas, estarmos juntos, organizarmos a casa, cuidar do nosso refúgio – um privilégio sendo brasileiros. Turma 3 do curso.

Em junho, abri uma turma de outro curso para ajudar quem queria levar o seu trabalho para o online. Trabalhei MUITO. Estudei muito. Foram os meses mais reclusos da vida realmente. Não saí uma única vez na rua.

Em julho, uma semana sobre hábitos e, em agosto, Turma 4 do curso do MVO. Paul finalmente tendo aulas todos os dias, ainda que online. No início do mês, eu tive uma emergência dentária e precisei ir ao dentista. Se foi naquele momento ou não, o fato que foi que passei uma semana bem mal em casa e havia desconfiança de ser COVID. Fiz o exame. Era. Os meninos fizeram e deu negativo o deles, apesar de meu marido ter tido mais sintomas do que eu. Pode ter sido um falso negativo. O meu pode ter sido um falso positivo. Não se sabe. Na dúvida, continuamos em casa.

Agosto e setembro foram meses mais complicados. Eu sentia muito cansaço, a nível de exaustão – muito associado ao pós-COVID. Precisei cancelar trabalhos, negar propostas, para descansar ainda mais. Me preparei para voltar de outubro em diante, pois dezembro e janeiro sempre são meses mais intensos para mim, devido a este trabalho, e queria então focar em ficar bem, me recuperar de saúde. Foi um ano em que ajustei meu sono, minha alimentação, minha atividade física, minha rotina de trabalho. Tudo isso foi documentado aqui para vocês. Tenho bastante orgulho do foco que dei a todas as minhas atividades este ano. De fato, todos os meus médicos me falaram: se não fossem seus hábitos, sabe-se lá como teria sido a reação do COVID no seu corpo. Eu nem precisei ir ao hospital. Foi quase que um milagre, se a gente parar para pensar em como foi para outras pessoas.

A quarentena também me trouxe outro presente, que foi definir o tema para a minha tese de doutorado. Eu sinceramente não imaginei que faria doutorado tão logo na minha vida, mas definir o tema me deu um senso de urgência muito gostoso, de querer mergulhar nessa pesquisa.

A quarentena, as notícias, a preocupação com a minha mãe, a falta de amparo das autoridades com relação ao povo, tudo o que estava acontecendo no mundo me devolveu crises de ansiedade que eu não tinha há quase 10 anos. Voltei a tomar medicação. Tá tudo melhor agora, que estou me tratando. Foi um ano muito difícil, mesmo para quem já tem hábitos saudáveis e bons de meditação, organização etc. Nem quero imaginar como teria sido se eu não tivesse nada disso.

Mas, como falei em outro post, foi um ano de intensos aprendizados e conquistas, que não me senti à vontade para celebrar intensamente, em respeito ao número de mortos e pessoas em situação pior. Concluí meu mestrado, passei no Doutorado, minha empresa teve um bom faturamento, quitamos o nosso carro, nos unimos muito como família, pude trazer duas pessoas que eu gosto demais para trabalharem comigo. Só tenho a agradecer.

dissertacao-mestrado

Uma bênção na minha vida uma colega de mestrado que tem uma gráfica e me ajudou com toda a logística da entrega da dissertação. Consegui me organizar com os processos seletivos do doutorado, estudar, entregar pré-projeto, participar de entrevistas, passar. Tivemos o início da turma 5 no início de novembro. Consegui cumprir toda a minha agenda de compromissos em dezembro, conforme tinha me cuidado antes para chegar em dezembro melhor. Parece pouco, mas para mim foi a maior conquista de todas. Ainda tenho momentos em que me sinto mais cansada que o normal, e sei que é do COVID, mas já estou MUITO melhor, nem se compara a como fiquei ali de julho a setembro.

Fizemos a mudança do escritório, montando uma sala menor, porém perto de casa, que atende as minhas necessidades no momento. Adotamos um irmãozinho para o Stanley – Sebastian, que é um amorzinho e mudou completamente a dinâmica para o Stanley. Eles já são melhores amigos.

Espero de verdade que eu tenha conseguido te ajudar de alguma maneira este ano. Foram meses de verdadeira ressignificação de rotina, trabalho, propósito. Consegui colocar todos os projetos que pude em andamento e conclusão, realocando aquilo que poderia ficar para um segundo momento.

Não espero que 2021 seja muito diferente de 2020 em termos do cenário de pandemia. Eu comentei sobre isso em outro post, lá atrás. Como todos, espero que a vacina venha e que possamos ficar um pouco menos tensos com relação aos nossos familiares idosos e que tenham comorbidades que sejam potencializadas pela doença, além de todos os profissionais que trabalhem em serviços essenciais, de médicos a entregadores. Mas eu ainda não consigo pensar em viagens de avião, por exemplo, de ônibus ou em transportes coletivos no momento, a não ser que sejam necessárias. Deixo para quem realmente precisa delas, especialmente no dia a dia, pegando ônibus e metrô lotado.

Penso globalmente, ajo regionalmente, influencio positivamente, decido internamente. Esse é meu foco. Feliz 2021.