Diário da Thais

“Como ser feliz o tempo todo” (Yogananda)

Outro dia compartilhei no Instagram que eu tinha terminado a leitura desse livro e recebi muitos comentários sobre a impossibilidade dessa afirmação. Perguntei se as pessoas tinham lido o livro, e nenhuma que fez o comentário tinha, mas quis opinar mesmo assim. Justo. Mas o fato é que a Internet se transformou nessa rede curiosa de reações: queremos dar opinião para todas as coisas, e não quero me informar ou conhecer mais para tal – o importante é simplesmente falar. Veja que este não é um julgamento, e sim uma crítica, que vale para mim também, sobre o nosso comportamento como seres humanos que usam Internet. Não é à toa que vivemos em um momento tão “nervoso” da humanidade. Parece que estamos o tempo todo combatendo uns aos outros…

Yogananda é uma pessoa muito conhecida e admirada no mundo todo em diferentes caminhos religiosos e espirituais. Seu livro mais famoso é “Autobiografia de um yogue”, que inclusive era o livro preferido do Steve Jobs (li em alguma entrevista dele). Existem vários livros menores (em número de páginas mesmo) com ensinamentos dele sobre temas variados, reunidos por seguidores fazendo pesquisas em suas entrevistas e outras publicações, e o livro deste post de hoje é o “Como ser feliz o tempo todo”, que me trouxe reflexões muito apropriadas para este momento que estou vivendo.

A ideia sobre felicidade fala sobre contentamento interior independentemente das circunstâncias externas. O Yoga tem tudo a ver com isso, pois se trata de um modo de viver, que está diretamente atrelado ao pensamento. O propósito do livro é mostrar como encarar a nossa existência a partir de um núcleo de paz e felicidade interior. Quando leio críticas a isso, compreendo a razão e origem delas, mas acho que é muito importante que a gente use nossos próprios questionamentos para crescimento e autoconhecimento quando nos deparamos com uma afirmação em tal sentido.

Toda a filosofia oriental trata da importância da mente para a felicidade do ser humano. Pessoas, em diferentes épocas da humanidade, nascidas em países mais pobres ou mais ricos, sofrem. Sempre sofremos, pois essa é a natureza do mundo em que vivemos (existe um termo para isso em sânscrito, chamado “samsara”). Independente das condições exteriores, sejam boas ou más: se você tiver uma mente pacífica e feliz, você será feliz. Como podemos pegar esse ensinamento, trazido há centenas de anos, milhares até, e refletir sobre ele?

É óbvio, claro como água, que pensar isso não quer dizer que a gente deva normalizar precariedade, sofrimento, maldade, injustiças, condições diversas desfavoráveis. Não vou olhar a pessoa passando fome e dizer que ela deve “mudar o mindset” e ser feliz. O próprio fato de estarmos refletindo sobre essas questões nos coloca em um estado de privilégio. Vou tentar explicar um pouco qual o meu ponto de vista com relação a esse ensinamento.

Já estive desacordada em uma cama de hospital sem conseguir agir ao que estava acontecendo ao meu redor e com medo de morrer. Já estive ao lado da minha avó em uma cama fazendo hemodiálise e gritando de dor e inconsciência porque estava morrendo. Já passei por situações muito, muito difíceis na vida, e creio que não seja necessário trazer mais exemplos aqui para “provar” que já tive alguma experiência com situações complicadas. Não estou mais certa que ninguém. É apenas a minha experiência. este é um blog.

O fato é que, por mais que você tenha pessoas queridas ao seu redor – meu filho, meu marido, minha mãe, amigos, enfim, boas pessoas querendo seu bem também – quando você deita a cabeça no seu travesseiro, você está sozinho com seus pensamentos. Isso acontece SEMPRE. E acontecerá também na hora da morte. E acontecerá em todos os momentos difíceis da sua vida. Por isso, que o “melhor amigo” que você tem é sempre a sua mente. Pelamor, não estou dizendo que você não tem amigos! Outro dia postei isso no Instagram e recebi uma avalanche de comentários dizendo que a afirmação (que na verdade era uma página de um livro budista) era “absurda”. É muito complicado falar sobre espiritualidade fora de um contexto, por isso entendo quem se fecha e evita falar sobre isso. Eu ainda continuo achando importante falar, porque é nessa troca que crescemos. Então vamos prosseguir.

Em um momento da vida em que achei sinceramente que fosse morrer, me veio à mente um aprendizado que tive no Budismo, que foi: “um Buda nunca sente medo”. Não é porque ele nunca passou por nada difícil. Mas porque, o que quer que aconteça, precisamos treinar nossa mente para passar por qualquer tipo de sofrimento não ficando tão mal quanto poderíamos caso não tivéssemos treinado a mente. Simples assim. Você aceita o seu sentimento e isso te ajuda a lidar melhor com ele. Não se trata de negar a raiva, a tristeza, a revolta. Significa entender por que está sentindo isso e aprender a lidar para ter paz mental.

Eu sei que pode parecer um conceito um tanto quanto complicado porque vivemos em um momento que mesmo as coisas simples e básicas são questionadas. Imagine as complexas. Mas eu não posso deixar de escrever sobre isso porque senão estaria abrindo mão de uma das coisas que mais gosto neste blog, que é escrever com autenticidade, sobre as coisas que estão acontecendo na minha vida, e como essa construção faz parte de ter uma vida organizada.

Voltando ao “Budas não sentem medo”. Ao lembrar desse ensinamento, refleti profundamente sobre ele, e fiquei em paz pensando que, se por acaso eu morresse, ou acontecesse alguma coisa comigo, eu não deveria sentir medo e sim lidar com o que viesse. De alguma maneira, fiquei em paz. E acho que o sentimento de paz mental é a felicidade em si. Porque, não importa o que acontecesse, eu viveria o que tivesse que ser vivido.

Minha amiga monja uma vez me disse, em uma aula, que problemas exteriores demandam soluções exteriores – e problemas interiores demandam soluções interiores. Se você não tem dinheiro para comer, precisa ter dinheiro para comer. É isso. Um problema exterior que não será resolvido “com uma mente feliz” apenas. Entender essa separação é fundamental. Entendendo essa separação, você conseguirá refletir melhor sobre suas necessidades e também sentimentos.

“Quanto menos vivemos em harmonia com a verdade interior, mais sofremos; e quanto mais vivemos em harmonia com a verdade interior, mais experimentamos a felicidade que nunca morre.” Yogananda

Recomendo fortemente o livro. 😉

Clique aqui para vê-lo na página da Amazon.

20 Comments

  1. Patricia Campos says:

    Adoro suas recomendações de leitura. Gostava muito quando voce fazia video falando de varios livros.

  2. Obrigada por esse post, Thais! Já coloquei o livro na minha lista de leitura. Estou começando a aprender mais sobre o budismo agora, estou lendo “Como transformar sua vida” primeiro.
    Tenho depressão, estou tratando e não estou mal como há um tempo, e acho que aprender a meditar e começar a estudar o budismo têm sido ações muito positivas! E cheguei até elas através de você, então agradeço novamente. Não esquecendo do papel e importância da terapia e do acompanhamento psiquiátrico durante os últimos meses também. (Adicionei essa última frase pensando na sua última aula de quarta! É tudo um conjunto, né?).

    E sabe, essa avalanche de opiniões vazias me faz desistir de postar e compartilhar muitas coisas. Até mesmo de simplesmente comentar. Sua frase “Parece que estamos o tempo todo combatendo uns aos outros…” resumiu o que sinto ao entrar no Instagram ou no Twitter às vezes.

    O seu post foi incrível e me trouxe algumas reflexões. Até anotei o ensinamento da sua amiga monja no meu commomplace book. “Problemas exteriores demandam soluções exteriores – e problemas interiores demandam soluções interiores.” <3

    E peço desculpas pelo comentário grandinho, mas é que seu post me deixou com vontade de compartilhar! Tenha um bom dia 🙂

    1. Obrigada, Priscilla, e desejo a você uma ótima recuperação em todos os aspectos. <3

      1. Thaís, esse comentário remeteu ao motivo de eu ter entrado aqui hoje, queria ver se por acaso você fez alguma postagem com a sua opinião sobre o documentário da Netflix: “o dilema das redes”. Você assistiu? Queria saber a sua opinião sobre. Estou prestes a deletar minhas redes sociais, e ao mesmo tempo refletindo: vai que o próprio documentário é uma teoria da conspiração…

        1. Li o livro que inspirou o documentário, tem vídeo no canal a respeito. Achei o doc super sensacionalista, elitista e nada de novidade para quem já estuda Comunicação. rs

          1. Laerte says:

            Oi, Thaís. Qual é o nome do livro, por favor? Procurei no seu canal e não encontrei. Abs.!

          2. 10 motivos para deletar suas redes sociais

  3. “A felicidade e a liberdade iniciam com um entendimento claro de um princípio: algumas coisas estão sob seu controle e outras não estão.” Epiteto

  4. Olá Thaís, eu não sou uma pessoa muito espiritualizada, então conceitos etc, não sao meu forte e está tudo bem assim. Mas há algo que repito há anos e que é a minha verdade, vai ao encontro do que você explica e discorre no post: a felicidade “mora” (está) dentro da pessoa, não adianta buscar a felicidade em outro, não é saudável projetar seus anseios no outro.
    Eu não sei se está claro, mas, sim, dentro do meu ser eu estou feliz, sinto que fiz e faço o melhor dentro do meu possível, e é isso!
    Te acompanho há anos, sou aluna do MVO, quase não comento pq sei que seu tempo é muito precioso, mas estou aqui e nas outras redes todos os dia!
    Te desejo sucesso, sempre, e aproveitando, já que estou aqui, Feliz Aniversário!

    1. Obrigada, Sonia. <3

  5. Maria Cristina de Oliveira Furtado says:

    Nossa, o post que eu precisava para hoje, muito obrigada!! <3

  6. Super pertinente essa reflexão.
    Aprendi mais sobre isso, estudando educação emocional e entendendo que não se trata de controlar o pensamos ou sentimos, mas sim, de aprender a lidar com aquilo.
    Obrigada pela dica do livro, vou espiar na amazon 🙂

  7. Excelente post, tanto em relação ao livro quando em relação à reação das pessoas em bombardear críticas e questionamentos sem se aprofundar. Me canso só de ler, imagina você que recebe diariamente! Vi a sua recomendação, comprei e já comecei a leitura. Estou saboreando, e já penso que essa será a primeira de várias leituras desse livro. Obrigada!

  8. Natasha Campaci says:

    Muito obrigada! <3

  9. Ótima reflexão, Thais! Me considero uma pessoa organizada, mas estou passando uma fase difícil com as atividades da casa e conciliando home office, marido e filho. Eu e meu marido temos brigado constantemente por causa das tarefas da casa, é um movimento constante que nos desgasta e nos sufoca…não se tem um instante de sossego pq hora é cuidar da refeição, da casa, roupas, animais, filho, aula de filho, demandas urgentes do trabalho…é tanta coisa que tem hora que parece que vamos surtar! Esse seu texto me mostra que é preciso sair desse ciclo. Aqui, mesmo a gente se ajudando, as demandas são insanas, é cobrança de todo lado… e trabalhando em casa e sem o filho estar na escola. Me sinto que em regime de trabalho escravo às vezes, isso tem nos consumido demais. Seu blog é um oásis pra mim!

    1. Acho que está pesando pra todo mundo, Josi. =/ Obrigada por compartilhar.

  10. Thaís, nunca pare de escrever pois suas reflexão são ótimas!
    Mudei muito minha visão de vida por conta das suas reflexões, obrigada por me ajudar tando, acessar seu blog todos os dias e ler suas postagens já faz parte da minha rotina.
    Gratidão sem fim por ti!.

  11. Evelyn Dos Santos Mata says:

    Thais, apesar de nem sequer conhecer a fundo o budismo… adorei a reflexão! E essa mensagem do “problemas exteriores pedem soluções exteriores, problemas interiores pedem soluções interiores” ouvi uma vez da minha psicóloga e faz todo sentido.

  12. Antonio Jacques says:

    Que reflexão maravilhosa, chegou dar alívio ao ler!

  13. Obrigada, Thais!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar...

Posts mais acessados