Categoria(s) do post: Diário da Thais

No Budismo, a gente estuda sobre algumas delusões que deseja superar, e uma delas é o auto-apreço. Por isso, o tempo todo eu faço um esforço enorme para não ficar falando sobre mim, mas eu penso que, em alguns casos, como este post, isso é necessário porque ele servirá como referência na construção dessa narrativa que eu faço no blog e nas minhas outras redes sociais.

E no blog nem tanto, pois quem já me acompanha aqui diariamente vai entender muito do que eu vou escrever aqui. Mas para quem chega novo, é importante falar. Então não é para criar um conteúdo auto-centrado que estou fazendo isso, mas sim apenas contextualizar tudo o que vou escrever daqui para a frente.

A Thais que em 2014 pediu demissão do seu último emprego para trabalhar com organização e produtividade era uma Thais insegura e cheia de sonhos, mas acima de tudo corajosa. Foi muito corajoso de minha parte sair de um emprego seguro no Governo para viver de algo que eu apenas acreditava com todo o meu coração.

Naquela época, a proposta era trabalhar ministrando treinamentos corporativos, até porque essa foi a proposta que recebi na época e que me deu fôlego para entrar nessa empreitada. Mas, depois de fazer isso durante mais de cinco anos, eu pude entender e refinar melhor o que eu queria com o meu próprio trabalho – não apenas em termos de estilo de vida, mas de propósito mesmo.

Existem coisas que a gente não vê no calor dos acontecimentos – só depois. Toda a insegurança que eu sentia vinha da dúvida: vou conseguir me manter com este trabalho? Vou conseguir sustentar a minha família? Será que tomei a decisão certa ao pedir demissão? Será que eu não deveria voltar a estudar para passar em um concurso público?

Com o tempo, e com toda essa construção, os resultados foram surgindo. Tudo o que eu conquistei veio do Vida Organizada – este blog. Tudo. Até o meu trabalho com o GTD™. Mas o blog nunca me trouxe um retorno financeiro que representasse o sustento da minha família. O que sempre sustentou esse trabalho foram os cursos e os serviços que eu prestava (consultoria, coaching etc).

Este ano, pela primeira vez, meu trabalho se resume apenas ao Vida Organizada. Mas, acima do Vida Organizada, ao que a Thais Godinho aprendeu e representa, quando se fala em planejamento de vida, organização da casa e produtividade com compassividade. Meu propósito é mostrar que existe vida fora da rodinha do hamster. E que o foco deve estar sempre em nossa qualidade de vida. Sempre.

Não quero ser repetitiva, pois já falei muito sobre esse assunto aqui no blog, mas ter passado por tudo o que eu passei no meu ano passado, que na verdade foi uma espécie de “ápice” de tudo o que vivenciei nos últimos anos, intensificado após a morte da minha avó, mudou a minha relação com a vida. Eu pensei sobre a morte diversas vezes. Fiquei imaginando como seria tudo se eu morresse por complicações na minha saúde. Como seria a vida do Paul? E a do meu marido? Da minha mãe? E, pode parecer besteira, mas também pensei: o que aconteceria com o Vida Organizada? rsrs Será que meu marido entraria na minha conta para postar: “olha, gente, aconteceu isso, isso e aquilo…”

O pensar sobre a morte é esquisito. Ao mesmo tempo que é um pensamento meio pra baixo, também é um pensamento realista e eu diria que até necessário. E pensar sobre a possibilidade de morrer me fez enxergar cada dia novo como um dia extra. De verdade. Guarde esse conceito porque falarei mais dele ao final do texto.

Ao longo do ano passado, fiquei muito mal de saúde. O que me salvou: ter conhecido a Ayurveda. Não me entendam mal: não estou de forma alguma menosprezando a medicina ocidental. É para ela que eu corro quando tenho qualquer problema. Foi a medicina ocidental que fez a cirurgia que mudou a minha vida, em 2017, e a quem confio quando meu filho tem qualquer problema. Mas o que mudou para mim quando conheci a Ayurveda foi o fato de que a saúde é um estilo de vida e que existe um método milenar para isso.

É um pouco complexo tentar resumir aqui, porque eu sei que a medicina ocidental, todo médico fala isso também (sobre o estilo de vida), mas é diferente. Relaciona-se ao indivíduo. Entender que você é um microcosmo da natureza, que é um microcosmo do universo. Você tem suas particularidades, e essas particularidades conversam com as particularidades do ambiente, das estações, de tudo. E trata-se de prestar atenção em você e ir fazendo mudanças no seu estilo de vida para ter uma saúde – em todos os aspectos – melhor. É por isso que, muitas vezes, a Ayurveda é chamada de “autocura”.

Não sei se vocês (especialmente os leitores mais antigos do blog) têm essa percepção, mas isso vem de acordo com tudo o que acredito e ensino sobre o lance da coerência em uma Vida Organizada. De certo modo, sem conhecimento, do alto da minha ignorância, porém intuitivamente e com uma ingenuidade tocante, eu já buscava esse tipo de conexão, quando trazia para o blog conteúdos como “organize seu menu semanal de acordo com as estações” ou “coisas legais para fazer no verão”. Eu sempre senti essa conexão e não sabia de onde vinha. Imaginem a minha surpresa iluminada quando descobri que já tinha gente estudando isso há quase 7 mil anos! Foi basicamente o mesmo tipo de encaixe que senti quando descobri o GTD™.

Quero compartilhar com vocês o trecho de um livro que estou lendo, chamado “Em busca da cura”, em que o autor conta a jornada de cura da sua esposa quando eles foram para a Índia se tratar em uma clínica de Ayurveda. A esposa no caso é a Laura Pires, que é super famosa e tem livros sobre o assunto, ministra cursos etc. A história dela é incrível e, em certos aspectos, muito parecida com a minha.

“Quando você aposta numa filosofia de vida, com ela vem sua filosofia de saúde; portanto, alterar suas crenças sobre saúde transforma sua concepção filosófica da vida.”

E é exatamente isso: foi um encaixe. Não se trata de viver sob regras e restrições, pelo contrário. Trata-se de ter um encontrado, em todos os aspectos da vida, aquilo que funciona para mim e me deixa bem. Essa transformação é muito profunda. Mesmo as pessoas que convivem comigo não entenderam muito bem o que aconteceu – só vêem o resultado final. Não tenho uma pessoa que venha falar comigo que não diga: “nossa, você está zen, sua pele, sua expressão de paz, sua energia, você parece feliz o tempo todo” etc. Eu nunca fui desse jeito, gente. Eu sinto, com todo o respeito à minha religião, como se eu tivesse iluminado.

Porque sabe, meu corpo passou o ano de 2019 expurgando dele tudo aquilo que fazia mal. Sim, eu estava “detralhando”. Que maravilhoso! E, uma vez que você destralhe a sua casa, a sua vida, tudo, você simplesmente coloca novas lentes para a vida e não permite que a tralha venha de novo. Você não se permite mais viver de uma maneira com pessoas que agridam você emocionalmente, por exemplo. Você não quer mais abrigar atividades que não sejam coerentes com quem você é agora. Você passa a ver briguinhas e picuinhas como tão irrelevantes que nem consegue se envolver na discussão.

Tudo isso teve um reflexo profundo na minha vida. Vou tentar trazer alguns exemplos do dia a dia para demonstrar o que quero dizer.

O meu What’sApp, desde que resolvi voltar a usar, fica bombando todos os dias. É sério – tem umas 800 mensagens de um dia para o outro. Eu jamais vou ficar refém dessa ferramenta. Respondo quando posso, à medida que consigo. E é isso. Fazer o quê? Eu não vou ficar o dia inteiro no celular respondendo mensagem.

Recebo uma demanda: “você pode me enviar isso URGEEEEENTE, ainda hoje?”. Eu nem vejo isso a tempo de responder. Nunca é nada urgente e muito menos relevante para mim, só para a outra pessoa. E algo que ela mesma poderia ter tratado com mais calma e respeito, pedindo de maneira decente, com um mínimo de antecedência.

Outro dia eu fiz uma LIVE sobre universidade pessoal e teve um momento que eu preciso trazer como exemplo aqui porque ele demonstra muito qual meu estado de espírito atual. Eu estava contando que, após o mestrado, até tenho interesse em fazer doutorado, mas sem pressa. Que eu estava interessada em buscar o que eu precisava mergulhar agora para aprender, e que tinha considerado até uma nova graduação, em Psicologia, apesar de ainda não ter certeza. Que estava estudando essas possibilidades. E uma pessoa escreveu no chat: “meu deus, mas se você for fazer uma graduação e depois o doutorado, isso vai demorar mais de 10 anos!!!”. Ela escreveu de uma maneira muito inconformada, e eu tentei absorver essa inconformidade e comparar com os meus sentimentos.

Me pareceu tão engraçado, na hora! Porque eu realmente não tenho essa preocupação com o tempo. Eu faço sim planejamentos de vida, gosto, acho importantes, mas eu vivo o agora. Para mim, importante no momento é lidar com os meus mais de 700 alunos no meu curso de organização, dando suporte a eles, melhorando o curso, do que ficar preocupada com um suposto título de PhD que eu nem sei se quero tanto assim. O que quero dizer é que existem outras coisas acontecendo que são tão ou mais importantes. E que, acima de tudo, eu estou super sussa e tranquila com o meu ritmo de vida. Eu não quero me apressar para fazer algo que nem tenho certeza. Tenho muita coisa com certeza acontecendo agora, e eu ainda quero curtir muito essas.

Eu fiquei real doente ano passado e não quero mais desrespeitar o meu corpo por conta de um estilo de vida X que vá contra o que me faz bem. Foi uma escolha. Uma escolha que nasceu naquele dia, há cerca de um ano, quando entrei na livraria Bertrand em Lisboa e encontrei o livro sobre horários (de um médico Ayurveda) e, a partir de então, comecei a olhar com mais carinho para a Thais e a implementar – sem volta – um novo estilo de vida.

Esse estilo de vida não se adequa ao ritmo do mundo que vivemos hoje, e eu sinto muito se isso decepciona alguém.

Meu novo ritmo de trabalho agora se resume a me dedicar aos meus alunos + criar conteúdo diariamente para ajudar não apenas eles, mas também quem não pode pagar pelo curso. É um propósito de vida. Eu realmente acredito que as pessoas estão pirando e ficando doentes em um mundo de excessos em todos os sentidos, não apenas no trabalho, mas principalmente. E eu acho que a gente precisa sim de mais pessoas, especialmente mulheres, que venham aqui e que reforcem isso, porque o mundo precisa mudar.

Tive a oportunidade de renascer, de recomeçar a minha vida, então considero de verdade que cada dia que vivo é um dia extra, e que era para eu nem estar mais aqui. Logo, vou aproveitar cada dia para ser feliz e viver para ajudar os outros, dentro de um ritmo que eu consiga abrigar, cuidando da minha saúde e dos meus, por aqui.

Eu mudei, e é claro que isso vai se refletir em tudo o que eu publicar, em todos os canais. Por isso achei fundamental escrever este texto. Pretendo gravar em vídeo e fazer em outros formatos também. Obrigada por ter lido até aqui. <3