Eu aprendi sobre: liderança

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Pretendo fazer uma série este mês no blog comentando sobre aprendizados recentes e contínuos em áreas diversas da minha vida. Estou com um pouco de dificuldades para atualizar o blog depois de uma atualização no sistema (que deixa a interface terrivelmente não intuitiva e difícil de atualizar com textos), mas prometo que farei meu melhor para postar todos este mês.

Eu gostaria de começar falando sobre o aprendizado de liderança.

Esse assunto é importante porque tem tomado meu coração ultimamente, então me sinto transbordando de vontade de falar sobre isso aqui. Além desse motivo pessoal (afinal, ainda é um blog), eu penso que falar sobre liderança é necessário porque a maioria das pessoas que se colocam ou se vêem em posições de liderança jamais tiveram um treinamento específico para isso. Na maioria das vezes, eram boas executoras, boas especialistas, que agora foram promovidas a um cargo de gestão e precisam aprender a lidar melhor com pessoas. E essa é uma habilidade difícil demais, porque envolve, acima de tudo, auto-conhecimento e consciência das suas próprias limitações.

A conversa sobre liderança pode partir dos exemplos que já tivemos. Desde criança, temos contatos com líderes – que sejam os nossos pais. Professores, depois o primeiro chefe (no meu caso, foi uma mulher), além de todas as outras experiências que tivemos em vida, nem sempre apenas profissionais, que nos colocaram em contato, de certa maneira, com pessoas em condições de liderança.

Eu gosto de dizer que líder não é sinônimo de gestor. Uma pessoa pode ser gestora, gerir uma equipe, mas não ser líder. Assim como uma pessoa pode ser líder sem que necessariamente seja gestora.

O que me deu o grande clique da situação de liderança foi quando eu fiz o curso de GTD Nível 3 em setembro passado. Lá eu entendi (na verdade, percebi) que, após a morte da minha avó, eu me percebia como a figura de liderança na nossa família. A persona da matrona tinha aberto uma vaga. Era o momento de eu trazer para o palco todas aquelas sugestões de como eu achava que as coisas deveriam ser.

Essa percepção veio de compreender a responsabilidade que eu tinha como mãe, como esposa, como filha, como nora, como tia – de que pessoas dependiam de mim. Não dependência financeira, apenas, em certos sentidos, mas dependência emocional, de liberdade, de inspiração. Eu sou aquela pessoa da família que sofreu com tantas perdas ao longo da vida e que construiu uma empresa do nada com base naquilo que gosta de fazer. Eu considero isso um feito e tanto, e muitas vezes eu me esquecia de lembrar disso. Tenho buscado lembrar mais. Esse feito me coloca em uma posição de admiração na minha própria família. A questão é: o que eu faço com isso? Como aplico quem eu sou, de verdade, em todos esses papéis que eu desempenho? Como eu aplico isso como mãe do Paul? Como eu aplico isso no meu casamento? Como eu aplico isso na relação com a minha mãe, que na verdade teria uma relação de liderança inversa?

Ao mesmo tempo, no trabalho, essa percepção desencadeou uma série de definições, especialmente no que diz respeito às minhas responsabilidades. Em termos práticos, no cotidiano mesmo, o que é meu escopo e o que não é? O que pode ou deve ser delegado? O que apenas eu posso fazer? O que são as coisas que, se eu não fizer, deixarão um vácuo enorme no trabalho que fazemos como empresa?

Além disso, as pessoas que trabalham comigo precisam de um direcionamento, e esse direcionamento não vem de reuniões, mas de prática, comunicação, inspiração. Estou transbordando essa clareza para todos, ou é algo que está apenas dentro de mim? Porque sabe, quando você é autônomo, a empresa é você e você. Quando você tem uma empresa, e pessoas trabalhando diariamente ao seu lado, essa clareza de propósito precisa estar atenta para todos. E não se faz isso colocando um mural com a missão na parede ou reunindo as pessoas em um evento de um final de semana. A gente faz isso nas atitudes diárias, na maneira como se comunica ou toca os projetos.

Eu tenho muito a melhorar nesse aspecto, pois a melhora como líder requer que você melhore como ser humano. E ninguém quer mostrar falhas. Mas eu também já percebi que faz parte dessa liderança você mostrar as suas vulnerabilidades. Justamente por sermos humanos, temos defeitos e habilidades a serem melhoradas. Se você, como líder, identificar isso, você na verdade ensina uma outra habilidade fundamental para a sua equipe, que é a habilidade de se aceitar como você é, mas não aceitar comportamentos que sejam inaceitáveis de respeito com as outras pessoas, e se mostrar em trajetória de mudança.

No ano passado, eu fiz um trabalho de tutoria com o Daniel, da Call Daniel. O Daniel é uma das pessoas mais compassivas que eu conheço. Eu sempre fui uma pessoa mais nervosinha – até por isso eu procurei o budismo em algum momento da minha vida. Perdia a paciência com burrice e pessoas que não tinham iniciativa, que não buscavam soluções práticas. Sofri muito em todos os empregos que eu tive. Quando me tornei budista, aprendi que lidar com pessoas assim é o melhor laboratório que se pode ter, porque é muito fácil ser líder de pessoas que dizem amém a tudo o que você faz. O verdadeiro exercício de relacionamento é lidar com desafios interpessoais. É nesse processo que você entende também suas limitações, as limitações do outro, e até onde pode ir (porque tem relacionamentos que você precisa simplesmente deixar ir embora, tanto profissionais quanto pessoais). Mas como reconhecê-los? Só com muita humildade, respeito e auto-conhecimento. Durante um ano, realizamos reuniões e definimos ações com foco no relacionamento profissional com os membros da equipe. Cresci muito, e foi o momento certo de fazer isso, visto que tenho esse papel de liderança que foi se desenvolvendo em outras frentes também.

Quando você tem uma empresa, como no meu caso, hoje, o aspecto de liderança é muito mais latente, pois absolutamente tudo – até os rumos da equipe – depende das suas decisões. Em paralelo, a sua presença inspira ou desanima as pessoas. Você precisa ter uma postura X o tempo todo. Do meu ponto de vista, essa postura não precisa ser perfeita, e sim apenas honesta. Tem dias que você não estará bem, e tudo bem. Mas é importante tentar manter o entusiasmo, não apenas pelo moral da equipe, mas pelo seu próprio mesmo.

Por isso que sempre digo aqui no blog: o mais importante de tudo é a mente. Porque a mente estando bem, todo o resto fica bem. O físico fica bem. O emocional fica bem. É a base de tudo. Cuide da sua mente.

Não queria terminar este texto sem falar sobre o impacto não apenas das ações, mas das palavras. Toda vez que você for lidar com alguém, conversar, pedir algo, perguntar, meça suas palavras. Veja como está falando. Engaje-se apropriadamente. Esteja presente. Que estado você quer causar na pessoa com quem você está se relacionando? Mais do que conseguir um resultado para você, trata-se da vibe universal do sentimento e da situação que você está gerando.

Para mim, liderança não tem a ver com status ou ego. Tem a ver com servir as pessoas. Eu lia isso em livros antes e me soava extremamente caricato e fake, mas hoje, vivenciando isso, falo do fundo do coração. Não é sobre você. É sempre sobre os outros. E então você molda a sua vida para servir melhor os outros. Isso vai mudar tudo dentro de você, no final das contas.

24 comentários

  1. Thais, como sempre, amei o texto.

    Lembro quando me colocaram para supervisionar uma equipe, logo eu que sempre fui nervosinha também, fiquei apavorada mas não tive muita escolha, tive que encarar. Aprendi também que não iremos agradar a todos, tem gente que tá ali só pra criticar mesmo, não importa o que você faça. Por outro lado, existem pessoas maravilhosas que te estendem a mão e te ajudam a caminhar. A verdade é que quando somos liderados, achamos que é fácil ser líder e só depois que o mundo gira é que percebemos quantas responsabilidades temos nas mãos. Cometi erros mas tentei ser o mais humana possível. Acho que, no geral, me saí bem mas até hoje me pego questionando certas situações e penso “poxa, eu devia ter agido de outra forma, aquilo não foi legal”…. amadurecimento de vida né?

    bjs

  2. Oi Thaís,
    Mais uma vez você arrasou no texto! Me identifiquei com varias coisas ditas por você e pela colega Dalva. Também sempre fui um pouco mais nervosinha. Acho que a empresa acaba por escolher sempre pessoas mais nervosinhas por sentirem que são as que mais tem vontade de fazer.
    Desde que me tornei gerente o que mais aprendi foi a ser honesta em reconhecer meus erros e saber que ninguém é igual a ninguém. Todo dia é um desafio.
    Abraços!

  3. Boa tarde!

    Olá, Thais. Você já leu o livro “A Nova Geração de CEOs”? Vai muito nessa linha do seu post de hoje, sobre a importância de nos tornarmos primeiro pessoas melhores enquanto seres humanos para depois sermos ótimos líderes e gestores.
    Abraços.

  4. Maravilhoso texto Thais! Entrou para o meu commomplace book como referência de aprendizado na área de liderança! Tenho vivenciado essa experiência e aprendido um pouquinho a cada dia. Me identifiquei muito com várias coisas que você disse, vieram confirmar pontos que tenho percebido e tentado trabalhar em mim.
    Especialmente o parágrafo final, para mim, que sou cristã, faz todo sentido: liderar é servir. Essa era uma das máximas de Jesus. Também tenho experimentado que isso pode até soar clichê, mas é muito real.
    Parabéns mais uma vez!

  5. Adorei a nova “seção “, digamos assim. Aprender e refletir sobre a aprendizagem e seu processo é sempre extraordinário.
    Texto excelente sobre a questão de Liderança, especialmente no que concerne à parte pessoal. Tornar-se líder da família quando sempre se foi filha caçula têm sido meu maior desafio. Obrigada.

  6. Thais,

    Adorei a sua abordagem do tema, Liderança. E dentro do assunto, por vezes ouvi dizer que se nasce lider, eu acredito que algumas pessoas possuem um viés comportamental para tão ” atividade”, porém, essa habilidade pode ser desenvolvida ao longo da carreira. Você concorda?

    outro ponto que achei interessante, é quando você comenta sobre o impacto das palavras. Acredito que um belo começo é ouvir mais, esperar a pessoa concluir o raciocinio sem interverções e podemos nos perguntar, isso que vou dizer vai agregar?

    Parabéns pelo blog, este é meu primeiro comentário, porém estou sempre por aqui e no Inta e youtube, consumindo seu material

    bjo

    • Acho que algumas pessoas podem nascer com uma personalidade de liderança e pró-atividade, mas que a liderança não se resume a esse único traço de personalidade e pode sim ser desenvolvida.

      Obrigada pelo comentário e pela visita!

  7. Oi, Thais! Incrível o texto!
    Confesso que me senti um pouco desanimada em um primeiro momento porque não me sinto em uma posição de liderança. Costumo brincar que, quando tomarem os meios de produção, eu vou trabalhar pra quem fizer isso, porque eu tenho zero vontade de empreender ou ter meu próprio negócio.
    Mas seu texto me fez ver que liderança é muito mais que isso e que todos nós podemos ter um papel de líder que nem percebemos. E isso não tem nada a ver com ter uma empresa rs
    Sobre a última parte, em relação às palavras, você já ouviu falar da comunicação não-violenta? Tem um livro sobre isso, do Marshall Rosenberg, que é incrível, recomendo muito. Acho que a CNV se encaixa bastante nos seus propósitos 😉
    Beijos e parabéns por ser uma speaker do GTD summit! É incrível ver onde a organização pode nos levar, você é uma grande inspiração para todos nós, seus leitores 🙂

    • Sim, eu até tenho o livro mas ainda não comecei a ler. Quando o fizer, quero fazer em um momento diferente, em que conseguirei me dedicar ao estudo real do conceito de CNV. No momento preciso focar no mestrado e em outras questões. Obrigada pelo comentário. <3

  8. Não tenho hábito de comentar em posts de ninguém (característica que deveria mudar), mas considero esse seu texto um dos melhores textos que você já escreveu! Parabéns!

  9. “Não é sobre você. É sempre sobre os outros. E então você molda a sua vida para servir melhor os outros. Isso vai mudar tudo dentro de você, no final das contas.”

    Eu tenho estudado sobre liderança desde que entrei em Administração, e quando estudo liderança x gestão, me questionava a diferença, pois não soava a mesma coisa. Lendo seu texto é bem assim…

    Hoje sou gestora de RH, mas no profissional, por não ser a minha paixão maior, não me encaixo no papel de líder. Mas na família, no meu núcleo familiar, sinto que me encaixo bem nesse papel de liderança.
    Meio que é isso que você falou. E parece que quando decidimos deixar alguma responsabilidade de lado por nós mesmas, os outros ficam desnorteados… olhando a foto inicial do texto, talvez como pássaros sem líder. Eles sabem voar, mas precisam do líder pra saber a direção a ser seguida.

    Mais um texto primoroso! 🙂

  10. Thaís, seu texto venho em boa hora. Desde abril do ano passado, estou em uma posição de liderança, e como você mencionou no texto, eu era uma boa executora, mas não tinha nenhuma experiência em liderança, e venho aprendendo muito, adorei que o blog vai abordar esse tema.
    Concordo com você, especialmente a última frase: ” Não é sobre você. É sempre sobre os outros. E então você molda a sua vida para servir melhor os outros. Isso vai mudar tudo dentro de você, no final das contas.”
    Parabéns pelo texto”

  11. Oi Thaís! Nossa, que texto inspirador! Sem dúvidas precisamos de mais conhecimento para desenvolver habilidades e atitudes de líderes, pois mesmo que não estejamos em uma posição de liderança no nosso trabalho, acabamos assumindo esse posto em alguma outra área da nossa vida. Quais livros você recomenda sobre esse tem? Obrigada!

  12. Thais, realmente, timing! Eu vi logo depois que você respondeu a meu comentário que esse post tinha sido publicado. Agradeço por você tê-lo escrito, de todo modo, porque alguns dos comentários que você colocou no texto me ajudaram a repensar algumas atitudes e postura. Obrigada!

  13. Thais, diquinha rápida: a Brené Brown. especialista no estudo da vergonha, tem um livro ótimo chamado A Coragem de Ser Imperfeito, que se trata basicamente sobre vulnerabilidade. Fala muito sobre como ser mais vulnerável nas relações pessoais e profissionais e criar comunidades (escolas, empresas etc) em que esse seja um valor fundamental. Foi impossível não lembrar dele ao ler a sua opinião sobre o aspecto. Você já leu? Se não, recomendo muito – foi um dos melhores livros que li em 2018 e me transformou demais.

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