Categoria(s) do post: Equipes, Áreas da Vida

Recebi um e-mail muito bacana outro dia, de uma leitora, que tinha lido o meu livro “Trabalho Organizado” e começou a acompanhar o blog recentemente. E ela fez esse comentário, que eu prometi explorar a resposta melhor em formato de post, então aqui está.

Basicamente, ela disse que sentiu que as dicas que eu trago servem apenas para uma determinada configuração de vida, que seja para pessoas que sejam autônomas ou empresárias, como eu, ou que estejam em um momento diferente da vida. Que nem todo mundo pode aplicar o que eu ensino e que, por isso, poderia gerar um certo distanciamento das pessoas da realidade que eu trago.

Eu respondi duas coisas para ela, e trago para cá porque acho que é importante.

Em primeiro lugar, que o blog existe desde 2006 (há 12 anos). Quando eu comecei o blog, eu trabalhava em uma agência de publicidade. Tinha acabado de virar coordenadora de projetos de uma equipe que fazia muita hora extra e estava sobrecarregada (eu inclusive). Tive que parar cursos porque ficava trabalhando até mais tarde e não consegui frequentar as aulas. Fiquei doente. Todo esse cenário.

Depois, pedi demissão e fui repensar a vida. Foi quando encontrei o minimalismo, a meditação, o budismo. Na sequência de acontecimentos, engravidei. Tivemos um filho, eu trabalhei durante um tempo em casa, depois decidimos que seria melhor eu trabalhar e meu marido ficar em casa com o filhote, “invertendo” os papéis (hoje não precisamos mais usar esse verbo, felizmente).

Eu consegui um excelente emprego em uma cidade do interior e, depois de seis meses enfrentando um ônibus fretado, nós nos mudamos para lá. Todo esse cenário me deu vontade de estudar para passar em um concurso público, o que fiz durante algum tempo, certa dessa escolha. Até perceber que eu tinha encontrado a minha missão, que eu queria trabalhar com organização e produtividade, e desenhei uma transição de carreira, que acabou acontecendo em 2014.

Voltamos para São Paulo e, desde então, venho reformatando diariamente o meu trabalho para fazer a minha empresa crescer e eu evoluir tanto pessoal quanto profissionalmente.

Então o que eu quero dizer é que eu passei por todas essas fases acima, e o blog traz reflexos e dicas para todas essas condições de trabalho.

Além de ter vivenciado todas essas diferentes situações, eu ministro cursos e converso com as pessoas diariamente, então mesmo que seja uma situação que eu nunca vivi, eu conheço de perto os problemas e construo com cada pessoa que trabalho um modelo personalizado de atuação profissional, baseado na realidade dela.

Logo, o momento atual do blog pode refletir a minha condição profissional atual, mas de forma alguma o que ensino aqui serve apenas para pessoas na mesma condição que eu. E, caso haja realmente essa não identificação, temos 12 anos de arquivos com outros tipos de posts que podem reforçar essa autenticidade, se for o caso.

Em segundo lugar, o papel que eu tenho aqui é, acima de tudo, educacional. Eu sei que as pessoas fazem hora extra. Eu sei que as pessoas respondem mensagem do chefe no What’s App às onze da noite. E o que eu estou tentando ensinar é que depende de cada um mudar essa realidade. O que ensino vai realmente na contramão do que a maioria das pessoas faz porque a maioria das pessoas faz sem pensar direito, só reagindo. Então todo o meu trabalho, hoje, tudo o que aprendi, vivenciei, testei, me respalda para chegar aqui, hoje, e falar: cara, vamos tentar de outro jeito? Então não se trata de falar para os leitores fazerem algo apenas se estiverem dentro de uma certa realidade, mas de ensinar que 1) existe essa outra realidade e 2) que é possível construí-la para você, se você quiser, mas é um processo e, como todo processo, leva tempo.

Eu poderia muito bem, como até disse no e-mail, e pedindo desculpas pelos termos, “passar spray de lavanda no cocô”. É passar a mão na cabeça e dizer: “olha, tudo bem, você pode continuar fazendo assim e mantendo as notificações” ou “se sua situação é essa, tudo bem”. O cocô continua sendo cocô mesmo jogando perfume nele. O que eu estou ensinando é que existe um cocô no meio da sala, todo mundo sabe que ele está ali e que ele fede, mas ninguém vem com uma pá e um saquinho para removê-lo. Eu tô chegando aqui com a pá pra tirar o cocô de lá. Simples assim.

Não, não é do dia pra noite que a gente transforma a vida, o trabalho, a rotina. E nem estou dizendo que existe um “formato único e ideal” de se fazer as coisas. O que procuro ensinar é que cada pessoa deva se conhecer, saber o que gosta e o que não gosta, e ir diariamente formatando sua vida de acordo, em um processo que ela vai modificar até o dia em que ela morrer. E não ficar conformada com a situação, ler um livro, fechá-lo e não se inspirar a mudar.

Mas é claro que tudo são escolhas individuais. Eu entendo que seja mais fácil culpar a situação atual, o que as outras pessoas fazem, e continuar vivendo a vida sem experimentar essas mudanças. Eu só não me conformo em viver dessa forma.