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Eu chamo de armário-cápsula o armário que defino para uma determinada estação, com peças no número mais reduzido possível e que combinem entre si. Apesar de as estações não serem muito marcadas no Brasil, uso essa orientação para pensar em termos dos três meses de cada uma, o que me ajuda bastante.

Comecei a implementar a ideia de armário-cápsula muitos anos atrás, quando o assunto começou a entrar em voga. Desde então, não parei. A ideia do armário-cápsula vai além de ter itens limitados e que combinem com a estação. Ele é mais um exercício de descoberta de quais são os seus clássicos pessoais e de como exercer a criatividade no dia a dia usando suas mesmas peças de maneiras diferentes. Ajuda a reduzir o consumo e a prestar mais atenção no que está levando para dentro de casa.

Muitas pessoas gostam de ter regras para seu armário-cápsula, como “manter apenas 37 itens” ou “não comprar nada durante os três meses da estação”. Particularmente, as regras me constringem um pouco e me deixam frustrada, quando se trata de moda. Prefiro ter os princípios descritos acima e ir me conhecendo, fazendo a coisa toda do meu jeito.

Eu tenho um novo princípio para todas as minhas roupas atualmente (especialmente a aquisição de itens novos), que é: eu achei essa peça tão maravilhosa que eu a usaria esta noite para um evento especial? Se não, nem levo. Pode parecer bobo e subjetivo, mas funciona muito bem para mim. Já deixei de levar várias peças apenas porque não eram “especiais”. Meu raciocínio é o seguinte: não quero comprar por comprar. Se eu comprar, será algo único, só meu, de boa qualidade, e que vai valer o dinheiro que estou dando em troca daquele produto. Não se trata de economizar dinheiro (apenas), mas de pensar no planeta, reduzir o consumo, dar um passo para trás nessa dinâmica de compra.

Para montar meu armário-cápsula, eu não levo em conta pijamas, acessórios (bolsas, cintos, lenços) e roupas de academia, pois acredito que eles não mudem tanto assim de uma estação para a outra e, quanto aos acessórios, eles servem justamente para mudar mais a carinha das mesmas roupas que vou usar ao longo da estação.

Uma das minhas atividades preferidas quando vou planejar um novo armário-cápsula é pegar as caixas que guardo na parte de cima do meu guarda-roupa, onde deixo as peças que não estão sendo usadas nesta estação, e faço uma análise. Primeiro, que vejo como algumas peças não combinam mais comigo ou que eu acabei guardando apenas por inércia. Segundo, porque ficar um tempo sem olhar as peças me deixa feliz por reencontrá-las. Eu diria que é melhor do que comprar roupas novas (é uma compra dentro do seu próprio guarda-roupa!).

Eu faço essa análise apenas depois do planejamento, que estou compartilhando com vocês aqui neste post.

Bom, gosto de começar definindo uma cartela de cores. Não que eu vá usar apenas aquelas cores, mas elas me dão um direcionamento para a escolha de peças dentro do armário.

Toda primavera eu gosto de ir nas cores pastéis (pelo menos tem sido assim nos últimos anos). Rosinha, verdinho, amarelinho, azulzinho, cinza, bege, branco são cores que me deixam feliz na primavera. Eu também gosto de usar bastante verde – deve ter a ver com plantas e flores, estrelas da estação.

Fazer uma análise da sua cartela de cores pessoal ajuda muito nesse processo, até para você conhecer que cores funcionam melhor para você. Uma mesma cor (por exemplo: rosa) pode variar muito em suas tonalidades dependendo da cor da sua própria pele.

Particularmente, eu gosto dos rosas mais “amarelados”. Na minha cartela acima (inverno profundo), existem diversas tonalidades nesse rosa que eu comentei. O mesmo vale para os verdes e os azuis, cores mais frias. Um azul jeans, azul petróleo, veste muito bem em mim. Eu gosto.

Do meu ponto de vista, uma das coisas mais legais da cartela de cores é ver os neutros coloridos. Gelo, café, marinho, vinho, verde militar, cáqui. Geralmente, quando a gente pensa em neutros, pensa logo em preto, branco, marrom, bege. Os neutros podem ser coloridos e substituir uma peça preta por uma verde militar faz toda diferença!

Com base nas cores escolhidas (no meu caso, as pastéis e os tons de verde), eu vou olhar as peças de baixo que eu já tenho. Mais uma vez: não me apego tanto a números, mas à coerência. Se eu quiser ter duas calças jeans no armário, elas têm que se justificar. Uma pode ser mais escura, outra mais “batida”, mais desbotada, mais informal. O tipo de tecido influencia muito também. Calças jeans mais grossas ficam para as épocas de frio.

Para escolher de verdade, é necessário provar as peças. Sim, uma a uma, por isso faço esse planejamento por partes (ou seja, não faço tudo de uma vez, a não ser que tire um período do dia ou do final de semana para isso).

Esse processo ajuda quem tem uma variação de peso mas, mais do que isso, te ajuda a ver se a peça precisa de ajustes ou se ainda fica boa em você. Já aconteceu de eu pegar uma calça, por exemplo, que adorava, mas na estação seguinte não tinha mais muito a ver comigo. Já aconteceu também de eu querer “dar um tempo” de uma roupa porque a usei muito ao longo dos últimos meses.

Como era uma boa peça, guardei por mais um tempo, na parte de cima do guarda-roupa. Umas seis estados depois, ela acabou voltando. Então não se trata de descartar roupas, mas de se entender melhor e deixar isso transparecer nas roupas que você usa, para o mundo.

O que eu costumo separar para doar? Roupas que já “passaram” da hora, com a manga gasta, por exemplo. Roupas que machucam. Roupas que me lembram de coisas ruins (apelo emocional é importante). Roupas que estejam apertadas ou largas demais e não dá para ajustar. Se a roupa estiver boa, for de uma boa qualidade, mas eu simplesmente não me sinto no “mode” para usá-la naquela estação, eu guardo de novo. Mais uma vez, não se trata de descartar roupas.

Pode acontecer (e muitas vezes acontece) de eu identificar uma peça que eu goste muito de usar que já tenha dado uma estragadinha ou não sirva mais. Nesse caso, considero fazer a substituição. Tomo uma nota para avaliar essa compra mais adiante. Eu passei a comprar muito menos roupas depois desse processo. Então, na prática, eu mantenho a roupa no armário, mas anoto em meu sistema para comprar uma substituta. Quando a compro, a antiga vai direto para uma caixa de doações que mantenho no quarto.

Depois de escolher as partes de baixo (calças, shorts, saias, vestidos e macacões), eu procuro garantir que cada parte de baixo tenha pelo menos cinco partes de cima que combinem com ela. Essa é uma orientação que aprendi com a Ana, inspiração máxima no que diz respeito à construção do estilo pessoal e moda sustentável.

A melhor parte é ver que muitas partes de cima combinam com muitas partes de baixo, o que significa que será uma peça funcional no meu guarda-roupa. Nesse momento eu também identifico peças que não tenho e que talvez estejam fazendo falta, como um suéter claro, por exemplo, por eu só ter blusas escuras.

Outra coisa que eu faço em paralelo nesse momento do planejamento é analisar os três meses da próxima estação para ver o que eu tenho de eventos já planejados. Geralmente meu dia a dia é composto por trabalho (em casa ou fora, o que inclui quando estou em aula no mestrado), momentos de lazer com a família aos finais de semana, jantares e saidinhas noturnas esporádicas, eventos profissionais mais formais (reuniões, palestras) e viagens. Então eu preciso garantir que terei opções para os eventos já programados. Se eu tiver um casamento agendado, por exemplo, já posso ir pensando desde já como vou me vestir e providenciar a peça, se necessário (pela minha experiência, esse planejamento me mostrou que eu preciso comprar e “providenciar” menos peças do que eu imaginava antes, porque eu exercito muito a minha criatividade).

Então faço uma análise da proporção desses eventos no meu dia a dia e uma revisão das peças selecionadas para ver se elas se encaixam nesse estilo de vida. Se uma peça puder ser usada pouco ou não tiver flexibilidade no seu uso, é provável que ela acabe não entrando no armário – e cada vez menos eu compro peças assim.

Eu acho que a primavera é a estação mais difícil de planejar porque ainda está friozinho mas também já tem alguns dias em que já faz MUITO calor. Tem que ser um armário de meia estação mesmo, com peças para se vestir em camadas e que sejam versáteis.

Vale lembrar mais uma vez que o meu armário-cápsula não tem a ver com a quantidade de peças. Se eu terminar com 30 ou com 100 itens, mas todas forem boas peças, combinarem comigo e fizerem sentido, ficarei satisfeita.

Resumo do passo a passo então:

  1. Seleciono a estação
  2. Vejo os eventos que acontecerão nos meses da estação
  3. Escolho uma cartela de cores com base nas cores que me favorecem
  4. Começo selecionando pelas partes de baixo de acordo com os critérios acima
  5. Seleciono as partes de cima de acordo com as combinações com as partes de baixo
  6. Identifico as peças que preciso consertar, trocar ou comprar
  7. Finalizo selecionando os sapatos

Todas essas providências que faltam eu deixo para fazer entre o planejamento e o início da estação, ou ao longo dela (sem dramas).

Eu já organizo o guarda-roupa apenas com essas peças, e mantenho algumas peças-chave da estação anterior (no caso, o inverno) para usar até a virada da primavera. Depois eu lavo e guardo junto com as outras.

Uma dúvida que pode surgir é sobre os acessórios muito específicos de uma estação, como por exemplo toucas, cachecóis e outros de frio (ou o mesmo raciocínio para o verão). Esses de inverno eu ainda mantenho, pois acabo usando. Aí, na chegada do verão, guardo definitivamente em um lugar menos acessível.

E você, gosta de organizar o seu guarda-roupa por estações? Sei que no Brasil as estações não são tão marcadas, mas a ideia pode ser a de organizar para três meses, simplesmente. Coincidentemente, temos as mudanças das estações para deixar a organização mais lúdica.