Como organizar as despesas e recebimentos quando se é autônomo? (dúvida da leitora)

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Uma leitora postou outro dia nos comentários essa pergunta, e eu achei que seria uma ideia bacana para escrever um post a respeito, pois pode ajudar outras pessoas que estejam na mesma situação.

“Olá Thais,

Adoro seu blog, sua experiência é muito inspiradora.

Gostaria de saber que tipo de dica ou conselho você pode dar para uma pessoa que trabalhe por conta própria e não tem um salário fixo por mês.
Os ganhos acabam variando muito, um mês tenho X no outro não sei se terei a mesma quantia por exemplo.
Como administrar dessa forma?

Obrigada
Sucesso sempre!”

Eu também levei algum tempo para saber como fazer, depois que comecei a trabalhar como autônoma. Em 2014, quando comecei, eu recebia ainda como pessoa física. Então, todo o dinheiro que eu recebia, eu considerava “meu dinheiro”, como se fosse o salário caindo na conta. Como era um fixo acertado em proposta com um cliente, me dava uma certa segurança com relação ao que eu receberia todos os meses.

No ano seguinte, quando precisei declarar o imposto de renda (haha), minha contadora me disse que, como eu não recolhi os impostos como pessoa física no ano anterior, eu teria que pagar tudo de uma vez durante a declaração, ou dividir o valor em até oito vezes. Precisei dividir, porque não tinha aquele dinheiro guardado. E, como já estava quase no meio do ano (abril), isso significaria que eu também precisaria recolher o dos meses do ano corrente, mas eu não teria como fazer isso até dezembro, quando eu terminaria de pagar as parcelas do imposto do ano anterior. Eu só terminei de pagar todos esses impostos agora, em novembro de 2017.

Estou contando essa história para dizer como é importante que uma pessoa que comece a trabalhar como autônoma organize esses recebimentos desde o início e regularize sua situação. Eu já tinha o MEI desde 2012 mas, por ele estar inativo, eu não conseguia receber como pessoa jurídica. Enquanto eu migrava de categoria (do MEI para o SIMPLES), precisei receber como pessoa física e, então, recolher os impostos como pessoa física (para quem não sabe, são infinitamente maiores – 27% de tudo o que você recebe).

Então o que quero dizer, para responder essa pergunta, em primeiro lugar, é: conheça as suas contas. Desde o início, saiba o que você precisa pagar. Se você receber menos de R$2.000 por mês, você é isento do Imposto de Renda e não precisa pagar esses impostos mas, se receber mais, pode ser mais interessante você receber como pessoa jurídica para pagar menos impostos.

A segunda coisa que me ajudou, e isso veio com a configuração da pessoa jurídica, foi definir o meu pro-labore. O que é o pro-labore? É o “salário” que a empresa paga ao empreendedor para que ele, todo mês, receba uma quantia mínima que pague as suas contas, para que ele continue empreendendo. Vale lembrar que, desse pro-labore, descontam-se o INSS (GPS, 10% do pro-labore) e o DARF (valor mínimo pago à Receita Federal, cerca de 180 reais). Para definir esse pro-labore, eu simplesmente fiz as contas das minhas contas fixas (aluguel, escola, luz, água etc). E defini esse pro-labore, que deve ser pago mensalmente – ou seja, transferido da minha conta de pessoa jurídica para a conta de pessoa física.

Quando você regulariza a sua situação como pessoa jurídica, você pode também gerar notas fiscais. E o bom de gerar notas fiscais é que você pode recolher o lucro sobre elas sem que incida (novo) imposto sobre esse valor. Então, em primeiro lugar: você faz tudo dentro da lei, pagando os 6% de impostos sobre os recebimentos que tiver. O lucro, no SIMPLES, é de até 32% da receita total do mês, então “em teoria” você poderia fazer essa retirada para sua conta de pessoa física, declarando como lucro, sem pagar mais impostos sobre isso.

Eu coloco o “em teoria” entre aspas porque esse lucro não deveria ser tirado todo para você. Serve para você investir na empresa. Tem empresas que nem distribuem lucro enquanto não alcançarem um valor de caixa seguro para o ano inteiro (que cobriria os impostos e o pro-labore mínimo). Mas é o que você PODE fazer.

Por exemplo, se você receber R$10.000 este mês como pessoa jurídica, vai pagar os impostos sobre esse valor (R$600), seu pro-labore (vamos colocar como exemplo R$3.000 – que na verdade serão R$2.700, pois 10% você tira para pagar a previdência social). E você ainda pode tirar cerca de R$3.000 de lucro. Isso te dá um total de quase R$6.000 de “salário” nesse mês.

Como eu citei acima, eu gosto dessa ideia de não distribuir lucro para manter um caixa confortável para os próximos meses. Porque tem mês que ganho bem, e tem mês que eu ganho super pouco. Isso é normal na vida de quem é autônomo e empreende. Por isso mesmo que você não pode ir à esbórnia quando recebe mais, pegando todo o lucro do mês. Pegue o suficiente (é o que eu faço) e deixe o restante para formar seu caixa, que te dará tranquilidade para os meses seguintes.

E é claro que, em paralelo, você vai planejando e investindo seu tempo em ações que te tragam mais dinheiro. Eu nunca fico parada, no sentido de: “oh, não tem muito dinheiro entrando este mês, que pena”. Sempre tem coisas a serem melhoradas no seu negócio. E empreendedor tem esse nome justamente porque empreende, faz as coisas, traz novas iniciativas. Não fica parado.

São várias coisas então que me ajudam a organizar as despesas e os recebimentos sendo autônoma. Em resumo:

* Ter a minha situação regularizada como pessoa física e pessoa jurídica
* Definir um pro-labore que pague as minhas contas mínimas todo mês
* Gerar caixa para garantir esse pro-labore sempre

Foram algumas coisas que eu aprendi na marra, depois de anos, e que espero sinceramente que ajude quem não tem esse tipo de informação, como eu também não tive quanto comecei. Se você tiver alguma dúvida, por favor, deixe um comentário. Vou ter o maior prazer em ajudar, pois eu sei como é difícil empreender sem ter com quem conversar!

8 comentários

  1. Só uma observação: o INSS descontado do pro-labore é de 11% fixo limitado ao teto de remuneração atual de R$ 5.531,31. A alíquota de Imposto de Renda retido no pró-labore é variável, conforme tabela progressiva da Receita Federal, devendo-se considerar abatimentos na base de cálculo por dependente. A questão do lucro vai depender das despesas que a empresa mantém, sendo também variável. Mas claro, é sempre importante consultar um contador antes de abrir uma empresa a fim de avaliar realmente as despesas e possíveis lucros que poderão ser auferidos.

  2. Oi Thais, boa tarde!!
    Super válido o post com as dicas. Já passei por algumas coisas que você colocou!
    Vou até um pouco além: estabeleça o seu “salário” (pró-labore), faça chuva ou faça sol, esse é o salário com o qual você precisa se manter. Nos meses que a sua empresa faturar mais, você faz uma sobra de caixa para os meses “magros”. Com isso, com esse caixa, no final do ano fiscal é possível até conseguir fazer um 13º, pagar férias e quem sabe até um bônus pelos resultados alcançados!! Isso vai dar mais gás para você buscar atingir as metas propostas. Mas, como você falou, sempre com o pé no chão e sem esbórnia!!! 😉

  3. Olá Thais. Este POST me ajudou muito! Obrigada por compartilhar tanto conteúdo de qualidade!
    Te desejo um ótimo 2018. ABS.

  4. oi Tais
    Adorei o texto!!Aliás, o conteúdo deste mês
    está super empolgante! tenho lido e relido todos pra apreender muito! Como sempre você foi muito didática e trouxe dicas práticas excelentes. Obrigado. Gratidão sempre!!

  5. Oi Thais!

    Sugestão

    Em relação a essa parte dos encargos faz uma entrevista ou pede pra sua contadora fazer um artigo sobre o assunto.

    Boa semana

  6. Olá Thais!
    Muito obrigada por compartilhar sua experiencia me ajudou muito e concordo com você como é difícil ser empreendedor nesse país e não ter muitas pessoas pra conversar sobre isso.🤗

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