Categoria(s) do post: Carreira

A palavra “trabalho” vem do latim tripalum, que por sua vez é a junção de tri (três) com palum (madeira). Esse termo era o nome de um instrumento de tortura feito de três estacas de madeira bastante afiadas e que era comum na Europa antigamente. Quer dizer que, no início, “trabalhar” significava “ser torturado”. Quem trabalhava, naquele tempo, eram as pessoas que não tinham posses – geralmente escravos e pessoas muito, muito pobres.

Depois do latim, o termo passou para o francês travailler, que significa “sentir dor” ou “sofrer”. Com o passar do tempo, o sentido da palavra passou a significar “fazer uma atividade exaustiva” ou “fazer uma atividade difícil, dura”. Apenas no século XIV o termo começou a ter o sentido genérico que hoje lhe atribuímos – o de “aplicação das forças e faculdades (talentos, habilidades) humanas para alcançar um determinado fim”.

Trabalhar, de modo geral, é algo associado a trabalho duro. Há incertezas enormes que acompanham todas as profissões. Porém, para a maioria delas, há uma espécie de trilha definida, como se a carreira tivesse um começo, um meio e um fim. Este post de hoje é para a gente questionar um pouco isso. Queria que você pegasse a sua profissão, pensasse nessa trilha e aí questionasse: será?

Desde que abri a minha empresa e comecei a empreender, descobri que o meu trabalho – e qualquer outro – na verdade está sempre recomeçando. O empreendedor tem uma liberdade enorme de construir seu trabalho dia a após dia, mas quando paro para pensar em todos os empregos que já tive e em todas as carreiras que já pensei em investir minha vida, percebo que isso é uma realidade que pode ser aplicada a todas elas.

Sabe, eu penso que o ser humano precisa dessa novidade. A principal rejeição a empregos públicos é “ficar 30 anos fazendo a mesma coisa”. Mas será que você precisa fazer sempre a mesma coisa? Sempre há maneiras de fazer de uma forma diferente, ou trazer inovação. Será que, porque você se formou como médico(a), precisa necessariamente seguir uma trilha X que te leve a tal lugar?

Uma coisa é certa: o trabalho está mudando. Estamos passando por uma fase de disrupção digital violenta que vai afetar absolutamente todas as carreiras. Não importa se você é um atendente de telemarketing ou um cientista da NASA – seu trabalho será afetado por mudanças que não vão parar nunca mais.

Eu não posso dizer, hoje, que profissão espero que meu filho tenha quando ele crescer, porque tudo terá mudado radicalmente daqui a 15 anos. Meus pais até podiam tentar dizer sobre a minha (e certamente jamais adivinhariam que eu trabalharia com Internet, pois Internet, como se tem hoje, nem existia). Mas esse período de tempo entre a minha infância e o que sou hoje é diferente do período que existe entre o meu filho hoje e quando ele virar adulto. Vai ser muito mais rápido, porque a tecnologia promove essa rapidez. A tecnologia influencia no nosso aprendizado. Temos mais acesso a informações. Etc!

Há muito de repetição no trabalho, seja ele qual for. Mas eu vejo qualquer repetição como uma oportunidade de melhorar processos. Se eu preciso enviar um e-mail semelhante pela segunda vez, para mim já é óbvio que eu tenho que criar um template (para automatizar) e, a cada novo e-mail assim enviado, eu vou aprimorando. Isso me permite melhorar o que já existe e também automatizar as coisas a ponto de deixar minha vida livre para investir em outras atividades e iniciativas. Isso é a aplicação da criatividade no nível micro, no dia a dia.

Na verdade, uma habilidade que todo trabalhador precisa ter é a capacidade de buscar qualidade, criatividade e tranquilidade mesmo em atividades sem grandes acontecimentos.

Pense nos seus horários como algo estritamente seu. Quando digo “seu”, não quero dizer para você ficar sozinho, mas para gerenciar seus horários e não depender de terceiros para definir o que é prioridade para você. Todos os dias, ao olhar a minha agenda, eu vejo um mundo de oportunidades. Quero que meu dia seja criativo – e esse princípio me ajuda a ter um dia mais feliz. Tenho compromissos, reuniões e obrigações, mas a grande pergunta é: como posso me engajar de maneira mais apropriada e criativa em todos esses eventos? Como consigo transformar uma reunião em algo sensacional? E isso me traz ideias. São alguns segundos de reflexão que impactam no meu dia inteiro.

Abrindo um pouco mais o leque, começo a questionar coisas maiores. Quem foi que disse que eu preciso trabalhar das 8h às 18h? Ou que eu não posso responder meus e-mails às 21h? “Ah Thais, mas você tem um modelo de trabalho diferente. Já eu trabalho das 9h às 18h obrigatoriamente.” Eu entendo, e já vivi isso durante anos. Mas, mesmo assim, dá pra fazer.

Vivemos na era do trabalho do conhecimento. Não se trata de carimbar coisas, apenas, mas de fazer cursos, aprender, desenvolver soft skills, estudar, ler, pensar nas coisas e definir o próprio trabalho = como eu vou usar o meu tempo. E isso vale para todos. Até trabalhos mais industriais podem ter isso. Você pode estar preso a uma máquina, mas sua mente é livre.

Este post não serve para impôr regras – pelo contrário. É uma permissão de libertação. Eu quero que você pare de se torturar porque acordou às duas da manhã sem sono pensando em uma ideia sensacional para uma coisa no trabalho. Levante, anote, fique feliz com a sua mente e durma tranquilo, sabendo que anotou a ideia e vai lidar com ela amanhã. Se você sabe que responder alguns e-mails hoje à noite vai tornar sua manhã mais tranquila, e aí você pode acordar mais tarde, ficar mais tempo em casa, ou até mesmo se dedicar a uma atividade mais divertida no trabalho ao chegar (em vez de responder os tais e-mails), faça isso.

Não estou dizendo para você abrir mão de atividades pessoais em detrimento do trabalho. Não é 8 ou 80. Eu só quero dizer que vivemos em um mundo onde as regras sobre o começo, meio e fim de um dia de trabalho, ou até mesmo de carreiras, estão se dissolvendo. Aproveite esse momento de reconstrução da humanidade para criar e recriar seu trabalho diariamente porque, afinal, em termos históricos, a vida é realmente curta. Vamos vivê-la em sua totalidade, e não só em 30 dias por ano, durante as férias. Você não precisa necessariamente ser médico para trabalhar diariamente em uma sala de emergências. Você é a emergência.

Fontes do post: Dicionário Etimológico, Philip Roth (analogia com a sala de emergência)