Um conto sobre o tempo

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Estevão é um homem que trabalha muito e nunca tem tempo. Na véspera de Natal, ele estava aproveitando que todos estavam de folga para zerar sua caixa de entrada de e-mails. Ele ama o seu trabalho. É casado, tem quatro filhos. Mas nunca tem muito tempo para eles. “Um dia vou ter mais tempo – preciso me dedicar agora”, ele sempre dizia. Estavam todos conformados com aquele estilo de vida dedicado.

No ano passado, Estevão perdeu seu sócio, Marcos, que teve um infarto e morreu. Naquele dia, Estevão sonhou com seu ex-sócio e amigo. Ele disse que não estava conseguindo descansar nem depois de morto, mas que Estevão ainda tinha chance de fazer diferente, e que três espíritos o visitariam naquele sonho.

O primeiro espírito chega, pegando Estevão de surpresa. Ele tem uma luz forte emanando do seu corpo e representa os anos anteriores de sua vida. Mostra como ele brincava sentado no chão da sala de casa, com seus carrinhos, ou correndo atrás do cachorro, dando risada. Seus pais estavam ao redor, prestando atenção em suas proezas. Quanto tempo livre!, ele pensa. Perturbado por essa visão, coloca um saco de papel na cabeça do espírito para tampar sua luz e pede que ele vá embora.

O segundo espírito chega risonho e com uma tocha na mão. Ele mostra para Estevão que seu funcionário, o sr. Carlos, que faz a limpeza da companhia e ganha 10 vezes menos que Estevão, está comemorando o Natal com a sua família. É uma ceia simples, porém muito feliz, e estão todos juntos. A tocha na mão do espírito tem a utilidade de dar um sabor especial à ceia daqueles que fossem “contemplados” com a sua luz. Depois disso, vai embora.

O terceiro espírito veste um manto negro e chega sem falar nada. Em sua mão, está um relógio. Sem dizer uma única palavra, o espírito mostra para Estevão um futuro solitário, sem família e amigos. Estão todos se divertindo em outro lugar. Aprenderam a ser felizes sem ele, com o passar dos anos.

Após a visita do terceiro espírito, Estevão acorda chocado, ainda encostado na cadeira do seu home-office, onde adormeceu enquanto organizava seus e-mails. Desde o momento que pegou no sono, mesmo sendo véspera de Natal, notou que havia mais 4 e-mails novos. Sem querer saber do que se tratavam, fechou a tela do notebook e foi para a sala encontrar sua família.

Sua esposa se mostrou surpresa, pois achou que ele não gostaria de sair e comemorar com eles. Os filhos fizeram piadinhas sobre “o notebook do papai ter ficado sem bateria”.

Estevão sentou-se no sofá e, com os olhos marejados, disse que não perderia mais nenhum momento da vida da família em que tivesse a oportunidade de realmente estar presente. Os filhos nunca o viram falar desse jeito. Sua esposa colocou a mão em seu ombro e apertou, em um gesto encorajador.

Estevão poderia ser qualquer um de nós. Poderia ser a mãe. Poderia ser o filho.

Ele poderia tranquilamente trocar o seu notebook por um celular.

Estevão não precisa passar o Natal respondendo e-mails, porque ele já faz isso todos os dias, quando usa o celular enquanto está na mesa almoçando com a sua esposa ou respondendo o What’s App enquanto assiste um filme com os seus filhos.

Ele também não precisa ter esse sonho para perceber determinadas coisas um tanto quanto óbvias.

Nem você.

celular-loucura

Este post foi baseado no famoso conto A Christmas Carol, de Charles Dickens.

6 comentários

  1. Excelente texto, Thais! A boa gestão do tempo é sem dúvidas a melhor maneira de não deixar a vida passar em branco. As coisas que realmente importam na vida precisam urgentemente ser priorizadas e você ilumina estas questões com dom e maestria. =) Obrigada

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