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maio14

É oficial: todas as pessoas que eu conheço, com as quais conversei nos últimos dias, me confessaram que abril passou muito rápido. Eu estava concordando com esse consenso geral até escrever um resumo do meu mês, quando percebi que passei por tantos acontecimentos em abril que, no final das contas, a impressão é que ele durou muito mais do que 30 dias. Concluí que o tempo é realmente um conceito relativo.

No budismo, a gente é incentivado a se lembrar sempre da morte, porque isso nos faz dar mais significado à vida. Se o dia de hoje fosse a nossa vida inteira, será que estaríamos satisfeitos com ela? Será que teríamos feito o nosso melhor? Teríamos dito aos nossos entes queridos o quanto os amamos? Teríamos transformado nossos sonhos em realidade?

Claro, também é entendimento geral hoje que falar em sonhos pode parecer clichê, história de auto-ajuda, mas é curioso pensarmos assim. Relegamos nossos sonhos para o cantinho dos conceitos piegas lá no fundo do armário, pois falar sobre eles pode fazer com que pareçamos pessoas iludidas, que não têm os pés no chão. Mas aí, quando a gente vê, de tão fincados que estão nossos pés, nos encontramos na verdade ancorados em uma realidade que não nos agrada, que não nos faz feliz, que nos faz olhar todos os dias no espelho do banheiro de manhã e perguntar onde estaria aquela pessoa que um dia teve sonhos. Nesse momento, os sonhos deixam de ser piegas e se tornam nostálgicos, reflexos de uma vida que nunca foi vivida, cujo tempo deixamos passar. Porque, enfim, os meses, como abril, passam de forma tão rápida. E a gente continua vivendo assim, no piloto automático, só reagindo aos acontecimentos, sem tomar decisões.

Em abril, eu passei por períodos difíceis, tanto pessoal quanto profissionalmente. Um dia, eu estava em casa, bastante chateada, quando olhei no espelho e cumpri todo o ritual que descrevi honestamente no parágrafo anterior. E pensei: “eu digo todos os dias para as pessoas como elas podem se organizar para serem mais realizadas, então como posso estar me sentindo desse jeito?”. Naquele momento, eu decidi que mudaria aquela situação. Os fatores externos não podem me trazer felicidade ou infelicidade – só a minha mente. A felicidade é um estado mental. E, antes de mais nada, eu estou viva. Meu corpo passou uma noite inteira se sustentando vivo para que eu descansasse, respirando normalmente, para eu viver o dia seguinte e todos os outros que ainda estão por vir. E o que é que a gente tem que dizer todos os dias para o deus da morte? Hoje não.

Coisas ruins acontecem com a gente o tempo todo. Pessoas são sacanas conosco, nos tratam mal, se enganam, assim como nós nos enganamos. Ninguém é perfeito. Tudo é experiência e aprendizado; tudo é vida. Nos perdemos nesses pequenos problemas e eles nos distraem do que deveria ser o nosso foco principal. E não, eu não vou dizer que existe regra para encontrar esse foco – cada um deve ter o seu. Você pode querer fazer um MBA no ano que vem, se casar, ter um filho, ser promovida(o) no trabalho, finalmente se engajar em algum trabalho voluntário, mudar o seu pequeno mundo e, aos poucos, mudar o mundo inteiro. Todos nós queremos isso, então por que nos desviamos de nosso caminho? Por que não pegamos cada experiência que vivemos e agradecemos por ela, seja boa ou ruim, pelo aprendizado que nos trouxe? Por que deixamos que pequenos problemas sejam mais importantes do que o simples fato de estarmos vivos e acordarmos a cada manhã, em um dia cheio de novas possibilidades?

Existe aquele livro famoso do Roberto Shinyashiki, chamado “Problemas? Oba!”, que fala justamente sobre isso. Problemas nos dão a chance de sermos criativos e buscarmos soluções que muito provavelmente não pensaríamos a respeito se eles não tivessem aparecido na nossa vida. Uma pessoa que não é legal com a gente nos faz praticar paciência, amor apreciativo, entre outras virtudes. Tudo é ensinamento. Tudo é precioso – especialmente os problemas. Não devemos achar que problemas são coisas ruins. Quando os enfrentamos, muitas vezes eles nos parecem ruas sem saída mas, com o tempo, acabamos encontrando a solução ou conferindo a eles menos importância, porque outros assuntos passam a ser prioridade. Portanto, só podemos superar nossos problemas através da nossa mudança de pensamento.

Já passou da hora de deixarmos de colocar a culpa das intempéries em outras pessoas ou situações diversas. Somos responsáveis pelo nosso corpo, pelo que falamos, pelo que pensamos. Pelo que sentimos. Se não sabemos como controlar isso, precisamos aprender. Isso sim é um ofício que nos torna uma pessoa melhor, não só para nos sentirmos bem, mas para tornar a vida das outras pessoas melhor também. Os problemas sempre vão existir. Nossos problemas pessoais não são mais importantes que os problemas da pessoa ao lado. Cada um tem sua realidade, seu grau de tolerância e seus desafios próprios.

Devemos abraçar os problemas, porque eles nos ajudam a aprender e a crescer melhor. Aquela pessoa no espelho não é a mais a mesma. Nunca será, pois mudamos o tempo todo. O tempo é implacável. Não foi só o mês de abril que passou rápido, mas todos os meses e anos que nos trouxeram até esse momento aqui, hoje. Sabe-se lá quantos ainda temos pela frente, mas será que devemos continuar culpando o tempo pelo que deixamos de fazer? Será que vamos chegar no dia 31 de maio e comentar, de maneira blasé, que o mês simplesmente passou rápido de novo? Não vamos deixar nossa responsabilidade entre a segunda e a sexta-feira; entre o dia primeiro e o dia 31. Todos os dias começamos um ano novo e, com ele, celebramos a vinda de novas experiências, de novas surpresas, de novos problemas. É fácil ser feliz quando o sol bate em nosso rosto. Precisamos aprender a ser feliz mesmo – e especialmente – quando não nos reconhecemos no espelho.

Afinal, o inverno está chegando. Mas eu sempre fui uma pessoa que gosta mais de frio.

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E amamos Arya Stark <3