Áreas da Vida

Reflexões sobre a maternidade

Uma colega de trabalho está grávida e sofrendo com o mar de palpites que de repente passaram a fazer da sua vida. Fico até receosa de falar qualquer coisa, pois não quero invadir a privacidade de ninguém. Lembro como foi complicado na gravidez e, pior ainda, quando o Paul nasceu, pois era tanta gente falando qualquer coisa que eu me afeiçoava àquelas que se contentavam em simplesmente ficar por perto curtindo, sem dar qualquer palpite sobre como eu deveria criar o meu filho.

Outro dia também uma colega apresentou o filhinho dela, com poucos meses de vida, e apesar de eu ter muita vontade de perguntar como ela estava (ela parecia triste e, claro, cansada), fiquei quieta. Mas esse tipo de acontecimento me faz pensar durante muitos dias ainda sobre o assunto, pois é algo que mexe muito comigo.

Nós sempre falamos sobre como a maternidade muda a vida das mulheres, mas eu duvido que a maioria das mulheres que engravidam tenham uma noção de como será quando o filho nascer. Algumas já cuidaram de irmãos mais novos, ou foram babás, ou têm alguém na família que teve bebê e compartilhou a experiência, mas a maioria não sabe. Para mim, foram grandes surpresas e, se eu pudesse mudar alguma coisa, teria mudado muitas, quando o Paul nasceu.

Ok, eu sei que minha vida estava complicada na época. Não tínhamos espaço, meu pai estava doente, e faleceu cinco dias antes de o Paul nascer. Mas muita coisa poderia ter sido facilitada. O Anderson poderia ter tido uma flexibilidade maior no serviço (ele saiu de férias no final do resguardo e poderia ter antecipado). Eu poderia ter estocado o freezer com comida pronta para não termos que cozinhar durante pelo menos um mês. Eu poderia ter comprado em supermercados delivery. Eu poderia ter contratado uma pessoa para me ajudar com o Paul durante uns 15 dias. Eu poderia ter saído mais. Poderia ter dormido mais. Poderia ter dado LA à noite como a Tracy Hogg orientou, para eu me recuperar.

Foi muito difícil ficar doente no pós-parto, e mais difícil ainda não ter qualquer suporte na época. Hoje, vejo como foi até perigoso quando o Paul estava com refluxo, porque eu não dormia com medo de ele engasgar, mas muitas vezes eu dormia meia hora e algo poderia ter acontecido. Era muita apreensão o tempo todo e nada de ajuda. O Ande tinha uma rotina muito corrida na época (trabalhava das 14 às 23h e ainda tinha a banda) e não me ajudava com quase nada. Eu encarei o pós-parto sozinha, com a pressão altíssima e risco de eclâmpsia, e hoje me pergunto como foi que consegui.

Ficar na casa da minha sogra foi solução de sobrevivência, mas nunca me senti tão deprimida por estar dependendo dos outros e fora da minha casa. Eu não tinha qualquer liberdade e, naquelas condições, precisava cumprir o horário da casa, além de não conseguir descansar porque minhas sobrinhas ficavam brincando e ouvindo música alto, essas coisas que as adolescentes fazem. Não foi culpa de ninguém, mas eu poderia ter passado por esse momento de forma mais tranquila, na minha casa, se tivesse tido ajuda.

Pode parecer besteira o que eu vou falar, mas ter um iPad ou mesmo o iPhone na época teria ajudado bastante a me manter em contato com o mundo e me considerar uma pessoa normal. Eu poderia ter conversado mais com outras pessoas, escrever no blog, postar no Twitter, ter contato mesmo com quem se importava comigo, ler notícias, enfim, ter uma vida social.

Tudo isso já passou mas, quando me lembro, sinto uma tristeza profunda de uma época que deveria ter sido a mais feliz da minha vida. Então, quando eu vejo alguma futura mãe ou recém-mãe, eu tenho muita vontade de passar a minha experiência e pedir que elas se preparem, ou que obtenham toda a ajuda que puder, porque não quero que ninguém passe o que eu passei. Eu me contenho, porque acho o papo super baixo astral e é uma coisa que devo guardar para mim, simplesmente. Mas então fico me perguntando quantas mães não guardam para si mesmas e, quando vêem uma grávida com o barrigão de oito meses, simplesmente sorriem porque realmente esperam que tudo seja feliz e perfeito para ela, mas no fundo sabem o quão difícil vai ser. Por que fazemos isso? Por que existe esse pacto velado? Acho que é porque todas temos esperança que aquilo seja maravilhoso como deve ser.

Só confesso que penso nessa mãe todos os dias, porque é um assunto que me toca muito.

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