Áreas da Vida

Sweet burning love.

Ande e eu na prime. Foto da Mari Mello.

Quando eu tinha cerca de sete anos de idade, a escola onde eu estudava organizou uma festa do sorvete com gincanas e prêmios. A minha preferida era aquela em que era para escolher um número e abrir a porta correspondente, ganhando o que estivesse lá dentro. Não lembro o número que eu escolhi, mas lembro muitíssimo bem do prêmio – um disco do Paul McCartney. Eu o peguei na mão e fui contemplando, subindo as escadas, pensando: “Paul McCartney… já ouvi falar nesse cara”. E eu estava muito contente pois meu pai tinha uma coleção enorme de discos e aquele era o meu primeiro “disco de adulto” – ou seja, não era do Balão Mágico ou similar.

Uns cinco anos depois, meu pai estava dando uma festa em casa e alguém tinha levado um teclado. Eu praticamente monopolizei o instrumento a festa inteira e já estava decidida a aprender a tocá-lo de verdade quando escutei meu pai tocando uma música MUITO bacana no violão, do outro lado da sala, e uma moça cantando depois da introdução. Foi a única coisa que me fez parar de tocar “plim ploim” no teclado e ouvir. “Que música é essa, pai?”. “Michelle“, ele respondeu. “É dos Beatles”.

Já faz tanto tempo e ambas lembranças jamais saíram da minha cabeça.

O tempo passou. Eu efetivamente aprendi a tocar teclado depois daquela festa. Demorou uns dois pares de anos até eu ganhar o meu próprio instrumento, e quando aconteceu eu me apaixonei por outro. Não me lembro exatamente como foi “a primeira vez”, mas eu estava envolvida com todo o movimento brit-rock da época, Oasis, The Verve, e os Beatles faziam parte da minha respiração. Eu descobri o maravilhoso – e barato, na época – mundo dos discos de vinil e, depois da aula, ia todos os dias até um sebo lá perto para vasculhar no acervo. Juntava o dinheiro do lanche e, sempre que chegava à quantia certa, eu comprava um disco novo dos Beatles. Montei minha discografia praticamente toda assim. Essa época foi sensacional porque eu tinha um fã-clube, me correspondia com centenas de fãs por todo o Brasil, fazia fanzines e estava aprendendo a tocar contrabaixo. Por quê? Porque tinha montado a minha primeira banda cover dos Beatles com os colegas de escola e não tínhamos baixista. Bem parecida com a história do Paul, aliás, porque foi assim que ele começou a tocar baixo.

Mas eu não tinha um contrabaixo. Meu pai tinha o estúdio e a banda dele ensaiava lá umas três vezes por semana. Por esse motivo, o baixista deixava o instrumento dele lá e – ainda bem – não se importava em deixá-lo comigo tocando nos outros dias. Então eu chegava da escola, engolia qualquer sanduíche e ia rapidamente para a frente da vitrola, onde eu conectava o baixo e ficava tocando todos os discos, música por música, mesmo que não conseguisse tocar a maioria delas. Mas a prática torna tudo mais fácil e, em pouco tempo, tudo estava funcionando. A banda acabou e eu formei outra. E outra. Nessa terceira, eu conheci o Anderson, que tocava baixo melhor do que eu. Nós passávamos a tarde inteira conversando sobre o baixo de ‘Rain’ ou ‘Old Brown Shoe’ e nos perguntando como podia existir um cara que tivesse criado aquilo. A nossa empolgação era tão recíproca que, em questão de meses, estávamos juntos. E então eu apresentei a ele todos os meus discos solos do Paul, o Wings, a fita de Rockshow e as nossas vidas mudariam para sempre.

Montamos uma banda cover de Paul McCartney com pessoas que temos amizade até hoje. Conhecemos muita gente em todos esses anos de bandas covers e ainda temos contato com a maioria delas. Nos dois shows, encontramos tantas – todo mundo com um sorriso escancarado no rosto, realizando um sonho. Desde quando me entendo por gente imagino a notícia “Shows de Paul McCartney no Brasil são confirmados” e eu já estava sinceramente desencanada quando os boatos começaram a circular no ano passado, durante a gravidez. A DPP do (nosso) Paul era 24 de abril e os boatos diziam que ele faria um show em São Paulo no dia 21. Desesperada, eu? Imagina. Acho que enviei tanta energia mentalmente que o show foi mesmo adiado para novembro. Mas ele viria. E nós poderíamos ir.

Quando nós passamos correndo por aqueles portões e ficamos no lugar mais maravilhoso possível (a menos de 10m do microfone dele), eu sentei no chão e comecei a chorar como uma criança. Uma senhora que estava na minha frente disse: “tadinha, ela ficou emocionada!”. E eu chorando. Por tudo. Por estar ali, naquele momento, aproveitando a chance de ver a pessoa “não-família” mais importante da minha vida e que nem sabe que eu existo. É um sentimento muito forte. Chorei durante uns dez minutos e então olhei ao redor, aquele estádio enorme e tanta gente pronta para ver o Paul. Todas as horas de fila, sol, sede, fome, cansaço, dor e ansiedade estavam acabando. Eu veria o Paul na minha frente. O Paul McCartney.

Graças ao horário de verão, as horas passaram rapidamente – exceto a última, claro. Meia hora antes do show começar, eu estava a ponto de explodir. Não me deu vontade de ir ao banheiro, nada. Eu estava pilhadérrima. E já sem voz, importante dizer. Tenho certeza que foi pelo nervosismo.

O vídeo começou a descer pelos telões laterais. Acompanhava cada imagem e cantava cada música, ao contrário de um montão de gente à minha volta. Ficava me perguntando quantos fãs de Paul realmente existiam ali. Alguns esparsos identificavam músicas como ‘Temporary Secretary‘, mas eram bem poucos. Depois de um milhão de anos, quando o vídeo acabou de passar, as luzes se apagaram e o palco foi tomado pela fumaça. O estádio inteiro ficou histérico e eu achei que não poderia mais guardar tudo aquilo. Quando ele entrou no palco… eu achei que fosse morrer. Ele estava ali, na minha frente. Dava para ver todas as rugas no rosto dele e aquele sorriso igual ao Paul de 1960, 1970, 1980, 1990. Era ele ali. Chorei e gritei muito, derretendo no chão. O Anderson disse que as minhas pernas ficaram bambas – eu nem percebi. Fui perceber a coisa toda quando ele estava em ‘Jet‘, e mesmo rouca eu cantei todas as músicas, fazia questão. E chorei em todas também. Em algumas, eu simplesmente parava para olhar e chorava desesperadamente, pois me dava conta do que estava acontecendo. Quando ele pegou o violão para tocar ‘Yesterday‘, o Anderson ainda brincou: “isso aí não acontece todo dia não!”. Era mais do que especial. E eu só pensava no quanto nós merecíamos estar ali.

Eu aproveitei demais o show da pista prime. Não existe outro lugar para ver um show do Paul que não ali. No dia seguinte, vimos da pista comum e foi péssimo por diversos motivos. Primeiro e principal, porque eu passei mal. Já estava totalmente sem voz, tomei uma chuva de horas e passei a tossir, espirrar, passar mal de verdade. Além disso, comi um chocolate (valeu, Cacau Show!) que foi cortesia na entrada do estádio e fiquei com uma dor de estômago que me lembrava o que era achar que estava entrando em trabalho de parto. Se o chão não estivesse cheio de poças e eu não estivesse tão resfriada, teria deitado no chão para ficar me contorcendo. Sim, no show do Paul McCartney. O que poderia ser pior do que isso, para mim? Nada, nada mesmo. Além de ter passado mal, eu estava longe do palco. Para quem tinha assistido lá da frente no dia anterior, aquilo foi frustrante. Me arrependi demais por não ter estado na pista prime de novo, mas haja dinheiro. Na hora, você nem pensa nisso. A vontade é ganhar na Mega Sena e assistir todos os shows dele pelo mundo afora. Mas estávamos longe, eu passando mal e aquele bando de babaca em volta. Circulamos pela pista e paramos em diversos lugares, e em nenhum momento vi fã de verdade ali, cantando as músicas do Wings ou algo mais que o refrão de ‘Get Back’ ou o nanana de ‘Hey Jude’. Então isso foi um pouco frustrante. O que me manteve de pé foi o Paul, logicamente, e o melhor repertório do mundo, que incluiu ‘Bluebird’, uma das minhas músicas favoritas da época do Wings. Quando ele pegou o violão com o adesivo da asinha vermelha, eu já comecei a chorar. O Anderson disse sem pausa: “elevaitocarBluebirdporqueaafinaçãoédiferenteeesseéoviolãocomafinaçãodiferente”. E lá vem ‘Bluebird’. Foi de esquecer que o resto do mundo existe.

Mas lógico, óbvio, que nos dois dias eu fiquei com a cabeça lá longe, pensando no nosso Paulzinho. Ele ficou com a minha mãe, que alternou aqui em casa com a casa dela. Tirando um pequeno estranhamento no primeiro dia, no segundo ele tirou de letra. Nos dois dias, dormimos com ele quando chegamos e, ao acordar, ele abriu um sorriso enorme, do tipo: “uaaaaaau, vocês estão de volta!”. Um barato. Foi ótimo saber como ele fica bem, então a experiência foi aprovada para possíveis planos futuros.

Quando eu saí do show, ontem, estava apenas querendo voltar logo para casa, tomar banho, descansar. Dormi como uma pedra e hoje precisei ficar na cama o dia inteiro, me recuperando. Por uma imensa sorte, o Anderson passou mal só agora no final da tarde (ele também comeu o chocolate), então ele pôde ficar com o Paul. Minha mãe veio dar uma força à tarde também e está tudo melhorando.

Não sei descrever com precisão como é o sentimento “pós-show”. Ainda estou digerindo tudo. Tenho certeza que vou ficar deprimida por tudo ter passado tão rápido e por ter ficado ruim no segundo show, sem aproveitar direito. Estou com muita vontade de tocar. Paul McCartney é o cara mais importante da minha vida e do Anderson, definitivamente. Olha a nossa história. É o nome do nosso filho. Sei que até o dia em que morrermos nós vamos tentar entender o sentimento que nos pegou ao virmos ele entrando no palco pela primeira vez. E imagino o nosso Paulzinho daqui a alguns anos brigando com a gente porque “deveríamos tê-lo levado de qualquer jeito”. A música é uma coisa impressionante. Não existe nada que se compare à importância do Paul em toda a história. E o meu rosto ainda está quente por causa dos fogos de ‘Live And Let Die‘. Como eu estou enfrentando tudo? Em silêncio. Quando temos tudo para falar, às vezes é melhor não dizer nada.

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