Thais Godinho

Em algum momento da vida você diz para você mesmo que não dá para continuar trabalhando e vivendo desse jeito.

Meu nome é Thais Godinho e eu sou uma pessoa que acredita que dá para descansar e trabalhar. Que dá para ter uma vida legal, sem sobrecarga, sem tanto estresse e sem tanta culpa por tomar a decisão de dormir mais em vez de fazer outra coisa.

Sou publicitária. O que não deixa de ser irônico porque publicitários, de modo geral, trabalham muito. Eu não era exceção. Sempre trabalhei demais. Já tive todos os problemas de saúde possíveis com relação ao excesso de trabalho. Com 20 anos de idade, uma crise de labirintite me deixou de cama durante um mês. Motivo: excesso de trabalho. Com 25, tive um burn-out completamente intenso que me levou a uma depressão. E a depressão me levou a uma decisão importante: não quero mais isso para mim.

Mergulhei na meditação, no budismo, nas artes (meu refúgio). Meu pai era músico. Minha mãe, artista plástica. Ambos dois hippies que se amavam e criaram uma filha com pouco dinheiro mas boa intenção. A filha cresceu e foi morar com a avó (advogada), que a colocou na faculdade (mas também queria que ela passasse em um concurso público). Demorou para a menina aprender a pegar todas essas referências e encontrar dentro de si mesma quem ela era de verdade. Terapia ajuda. Uma vida desde bebê vivida em um ambiente criativo, e depois o caos da publicidade, me levaram a ficar completamente apaixonada por organização pessoal e “gestão do tempo”.

Mas tinha um lance – eu nunca me identifiquei com o papo de organização se resumir a guardar seus pertences em caixas brancas e etiquetadas. Pode ser que você ainda não me conheça pessoalmente, mas eu não sou aquele tipo de pessoa que usa tailleur branco e faz escova no cabelo. Eu sou uma mistura de Nikky Sixx com Arya Stark e uma pitada de Chandler Bing simplesmente porque sim. Porque a vida é imperfeita, mas criativa. Eu também. Ser engraçadinha, curiosa, “roqueira” (péssimo termo para quem efetivamente é roqueiro) faz parte da minha personalidade e ter a criatividade como princípio em meu dia a dia faz toda a diferença na forma como eu lido com o meu trabalho.

Organização não é sobre engessar a vida. Organização tem a ver com viver uma vida coerente. Desculpe, eu disse coerente? Quis dizer do caralho. A vida tem que ser foda. Saber que a atividade que você está fazendo agora está, de alguma maneira, conectada com os seus valores, com o seu propósito de vida, se você tiver um. É parar de perder tempo com besteira, sabe? Com coisa que te agride, que te faz mal, que não tem nada a ver com você, que não te leva a nada que você queira para a sua vida.

Claro, todos nós precisamos pagar as contas e declarar o imposto de renda. A vida é feita de burocracias e trâmites chatos muitas vezes. Mas todo o resto que pode ser mudado, vamos tentar mudar. Vamos tentar viver uma vida que permita a gente sorrir todos os dias. Que possa ser curtida. Que não se resuma a responder What’sApp oito horas da noite porque seu chefe não encontra o arquivo para a reunião de amanhã.

E aí, o que acontece quando você quer sair de uma depressão e viver a vida de outro jeito? Você diz para o Deus da Morte: hoje não – e sai cantando pneu com a sua Harley (não que eu tenha uma… algum dia, talvez). Ou sai dando espadada, o que muitas vezes dá no mesmo, especialmente naquelas reuniões chatas que poderiam ser resolvidas com um e-mail.

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Naquele momento, mergulhar no budismo e na meditação me ajudaram a ver que a mente estar calma é tudo. Foi um momento de epifania. Percebi que, se a minha mente estiver bem, eu fico bem. Mas ok, como eu faço isso?

Pesquisando sobre dicas de bem viver, produtividade, organização, me deparei com um método chamado GTD™ – Getting Things Done. Americano demais para você? Amigo, eu estava desesperada na época. Americano ou chinês, se o cara me ensinasse a viver meu dia de maneira melhor, eu ficaria grata para sempre.

E o livro começa te dizendo que o princípio é ter a “mente como água”. Pure bliss.

Descobri o GTD™ antes da minha “longa noite”. Foi usando o método que eu percebi que não estava fazendo absolutamente nada do que eu gostava. Que meu dia a dia era só responder e-mail, trabalhar até tarde (“vou esperar passar o horário de pico”), reclamar do colega puxa-saco, ficar cansada, exausta, e compensar o sono no final de semana. Tirar as coisas da mente significa que você tem que encará-las. E aí, quando você coloca tudo na sua frente e percebe, olhando no espelho, que você não gosta de nada do que se tornou, como você volta a enfrentar a realidade?

A girl has no name.

Dizem que a depressão é uma das doenças mais racionais que existem. Você está deprimido porque sabe como as coisas são. E as coisas são difíceis, cara. A vida não é para amadores. Mergulhar dentro de você e não encontrar nada, ou não encontrar algo que te motive, é quase enlouquecedor.

Em algum momento, descobri um poema budista sobre acalmar a mente, que compartilho abaixo com você.

Muito conhecimento conduz à super-atividade;
É melhor acalmar a mente.
Quando mais você considera, maior é a perda;
É melhor unificar a mente.

O pensamento excessivo enfraquece a vontade;
Quando mais você sabe, mais a sua mente fica confusa.
Uma mente confusa faz surgir a irritação;
O enfraquecido obstruirá o caminho.

Não diga que não há mal nisso;
A dor resultante pode durar para sempre.
Não pense que nada há a temer;
As calamidades agitam-se como as bolhas em uma panela fervente.

A água gotejando incessantemente
Preencherá os quatro oceanos.
As manchas de poeira não varridas
Se tornarão as cinco montanhas
[Ching-shan, Pei-shan, Nan-shan, a montanha do rei Ashoka e T’ai-po-shan].

Proteja os galhos para salvar as raízes;
Apesar de ser uma questão pequena, não é trivial.
Feche os sete orifícios [os dois olhos, os dois ouvidos, as duas narinas e a boca],
Fecha os seis sentidos [a visão, a audição, o olfato, o paladar, o tato e a consciência].

Não preste atenção às formas,
Não ouça os sons.
Ouvindo os sons, você se torna surdo;
Observando as formas, você se torna cego.

A literatura e a arte
Nada mais são que mosquitos ocupados no ar;
A técnica e a habilidade,
Uma lamparina solitária ao sol.

Aqueles capazes e talentosos
São realmente companheiros estúpidos.
Descartando o puro e o simples,
Eles afogam muita beleza.

A consciência é um cavalo indomado,
A mente é um macaco teimoso.
Se a mente estiver superativa,
O corpo ficará doente e morrerá.

A conduta errônea termina na delusão;
Aqueles que seguem por este caminho tornam-se atolados na lama.
Considerar a habilidade como preciosa
É chamado “confusão”.

Exagerar a indelicadeza e a habilidade arqueada
Não conduz à grande virtude.
De muita fama, mas com pouca contribuição,
Suas reputações desintegram-se rapidamente.

Meramente ler livros
Não é de valor duradouro.
Ser orgulhoso internamente
Traz a inimizade dos outros.

Usar a fala
Ou palavras escritas
Para ganhar o louvor dor outros
É algo muito repulsivo.

O que as pessoas comuns consideram como auspicioso
O sábio toma como mal.
O deleite obtido é passageiro,
Mas a tristeza é duradoura.

Esteja consciente das sombras e rastros;
Quando mais você os deixar, melhor.
Sentando-se ereto à sombra de uma árvore,
Nem rastros nem sombras permanecem.

As preocupações do nascimento e o estresse da velhice
São produtos dos seus próprios pensamentos.
Se o pensamento da mente for terminado,
O nascimento e a morte serão cortados para sempre.

Não morto, não nascido,
Sem forma ou nome,
O caminho é vazio e tranqüilo.
Os fenômenos miríades são iguais.

O que é de valor? O que é barato?
Onde está a vergonha ou a glória?
O que é excelente ou inferior?
Como pode haver pesado e leve?

O céu claro coloca pureza na vergonha.
Nenhum brilho compara-se ao sol brilhante.
Estável como o monte T’ai,
Firme como um muro dourado.

Respeitosamente apresento este poema a todos os virtuosos,
De modo que este caminho permaneça para sempre.

Shih Wang Ming (séc. VI)

E isso mudou a minha vida.

Algo tinha se quebrado dentro de mim. Mas, de alguma maneira, pegar os caquinhos um por um me ajudou a colocar no lugar o que fazia sentido. Fui aprendendo quem eu era de verdade. Levou tempo. Foi difícil. Mas eu sentia que estava indo. Muitas vezes, isso é o suficiente.

Meditação me ajudou muito. GTD™ consolidou as coisas. Me deu estrutura, framework pro raciocínio. Mergulhar nas artes me conectou com quem eu realmente era (música, pintura, desenho, escrita, poemas, compôr). Lia um livro por dia. Em algum momento, me sentia pronta para voltar ao “mercado de trabalho”. Mas eu era outra pessoa.

Em algum momento, já trabalhando, já casada, já com filho… eu percebi que amava esse negócio de verdade. As pessoas estavam ficando doentes por causa do trabalho. E nem tinha What’sApp na época. Eu criei o blog em 2006, mas demorei uns outros seis anos para perceber que queria trabalhar com aquele assunto. Não tinha ideia como. GTD™ me ajudou, claro. Estruturei um projeto, objetivos, visão do que eu queria. Não sabia como fazer. Só sabia o que eu queria. (Ufa, de boa, esse é o passo mais difícil)

Comecei a estudar de verdade. Livro eu já lia pra caramba. Comecei a fazer cursos. Ler artigos acadêmicos. Montar um plano de negócios para o blog (foi o tema do meu projeto de conclusão da pós em mídias digitais). Me certifiquei. Certificar te coloca em outro nível. E, aos poucos, comecei a ser chamada para trabalhos.

Em algum momento, você tem que fazer a escolha. Ninguém disse que seria fácil. Ninguém disse que eu teria certeza. Mas, em algum ponto do tempo e do espaço, você sente dentro de você que é o momento. E, em 2014, foi o meu. Entreguei minha carteira de trabalho, a cartinha de demissão, e com o salário do mês eu peguei a minha família e me mudei para São Paulo de volta (moramos três longos anos em Campinas zzz), com a promessa que só os loucos (muito loucos, às vezes), porém cheios de sonhos, entendem.

Não foi loucura total. Consegui um primeiro (bom) contrato, que me garantiria o sustento durante alguns meses. Nunca vou me esquecer de quem me deu a mão. Aqui, foi o Daniel (Burd, da Call Daniel). Gratidão eterna. O resto eu fui criando. Não foi fácil. Foi sem foco pacas. Um empreendedor não existe do nada. Nasce e vai aprendendo. Não é fácil para ninguém que sempre foi funcionário, e nem é para todo mundo. É difícil. Mas tem algo, que hoje eu sei que é o propósito, que te mantém ali, forte, fazendo e correndo atrás das coisas. Revisões semanais também ajudam.

As coisas foram acontecendo. Não tinha como dar errado. Você entende? Eu tinha um filho que dependia de mim e um marido que abdicou de sua vida para que eu vivesse o meu sonho. Eu não podia deixar que desse errado. Precisava dar certo, porque era tudo o que eu tinha. Lancei meu primeiro livro. Comecei a dar aula. Fui me aprofundando nas certificações. Virei referência no método. A empresa começou a crescer. Contratei pessoas. O resto é história.

Em 2015, conheci o David Allen (autor do método GTD™). Acho que junto com o Paul McCartney e o Dumbledore (sim, o Albus), não tinha mais ninguém que eu gostaria de conhecer tanto pessoalmente. Meditei um mês antes de ir. Foi sensacional (ele mora em Amsterdam).

Yo, David! What’s your next action?

Resumindo o papo todo, hoje eu tenho uma empresa, chamada TGO, que é uma consultoria com foco na cultura do trabalho. Envolvo-me com três públicos: o corporativo (empresas, equipes), o empreendedor (o cara que fez a transição que eu fiz, para ajudar) e o trabalhador (o indivíduo que não tem empresa mas precisa ou quer ter uma vida melhor, mais legal, sem tanto estresse). De modo geral, mulheres com filhos se identificam mais comigo, por eu ser quem eu sou, mas eu atendo homens e mulheres igualmente. Estresse e caixas de e-mails lotadas unem as pessoas, não importa seu sexo, gênero ou cor de pele.

Ainda me considero uma pessoa bastante maluca por ter a coragem de todos os dias viver daquilo que acredito. Não é fácil você ir na contracultura da produtividade quando o mundo é um trator capitalista sem dó. O sistema DESTRÓI, amigo. Nunca se engane quanto a isso. Tá aí pra colocar pra baixo o cara desempregado, que precisa aceitar o emprego pagando menos porque não tem comida na mesa da família. E esse é o cara que precisa responder mensagem do chefe com desaforo porque ele atrasou 5 minutos em dia de enchente em São Paulo, depois de duas horas no trânsito. Como eu posso ajudar essas pessoas? Como eu posso ajudar a mim mesma, quando EU estiver no trânsito na enchente? OMG.

Produtividade serve para ajudar a gente a ter uma vida legal. A melhor coisa que você pode fazer pela sua produtividade é dormir bem. Esqueça a técnica pomodoro. Durma bem. Coma direito. Beba água. Descanse. Faça sexo. Dê risada. Troque a faxina pelo Netflix.

Ok, tem coisas que a gente precisa fazer, mas dá pra fazer mais legal. É isso. Não precisa ser escravo da rotina. É o que eu ensino, então. E, pra falar a verdade, se resume muito mais em aprender, porque cada pessoa é um universo e as soluções são personalizadas. Todo dia um leque imenso se abre à minha frente, o que considero um privilégio.

Neste blog, eu tento trazer diariamente, há mais de uma década, um pouco desses aprendizados, aplicados na minha vida. Não teria como ser diferente. On bended knee is no way to be free*.

*”De joelhos não tem como viver livre”. Trecho da música “Guarantee”, do Eddie Vedder, trilha sonora do filme “Na natureza selvagem”.

Minhas certificações relacionadas a organização e produtividade

  • Personal Organizer – OZ (2012)
  • Office Organizer – OZ (2014)
  • GTD Level 1: Fundamentals – Master Trainer (2015)
  • GTD Level 2: Projects & Priorities – Master Trainer (2015)
  • GTD Level 3: Focus & Direction – Master Trainer (2018 – em andamento)
  • Personal & Professional Coaching – Sociedade Brasileira de Coaching (2016)
  • GTD Coaching (2017 – em andamento)
  • Coaching de Carreira – Sociedade Brasileira de Coaching (2018 – em andamento)

Meus livros

  • Vida Organizada (2014)
  • Casa Organizada (2016)
  • Trabalho Organizado (2018)

Contato: Twitter @thais