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O documentário “Minimalism: a documentary about important things” (“Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes”) entrou no ar em abril (no mundo todo) no Netflix. Caso você não tenha Netflix, pode assistir no Vimeo. Já assisti duas vezes e gostaria de comentar um pouco aqui no blog quais foram as minhas percepções.

Vale citar que o documentário foi inspirado na história de Joshua e Ryan, autores do blog Minimalists e de e-books como Minimalism, Everything that remains e Essential (todos disponíveis aqui).

Gosto muito da definição que eles mesmo usam para definir minimalismo: um resgate àquilo que realmente importa. Não se trata de ter menos coisas, de levar uma vida nômade, viajando pelo mundo, ou de ser egoísta e deixar pessoas e coisas importantes para trás. Não. Trata-se de saber identificar o que realmente importa e tentar manter sua vida (um eterno movimento) em torno delas. Podem ser coisas, sentimentos, relações.

Antes de você assistir o documentário, vale a pena entender o contexto em que esses rapazes surgiram. Ambos são norte-americanos, e os Estados Unidos são o templo do consumo. O minimalismo lá surge então como um grito de socorro e de protesto: parem de comprar, olhem o que estão fazendo, voltem ao que realmente importa. Não é à toa que esse movimento contracultural deles tenha gerado outros fenômenos como o sucesso arrebatador da filosofia da Marie Kondo (leia mais sobre ela aqui) e ideias como a criação de um armário-cápsula, além da popularização de programas de tv que lidam com acumuladores compulsivos.

Para nós, que vivemos em um país de terceiro mundo, em que vemos pessoas sofrerem com a falta, e não com o excesso, o conceito de minimalismo pode muitas vezes virar até motivo de deboche. Muitas vezes li, pela Internet, ou ouvi pessoas falando sobre “já sou minimalista kkk minha casa não tem nada” ou “meu armário já é cápsula, pois tenho menos de 30 peças de roupa”. Então existe uma visão (me atrevo dizer) distorcida do que realmente seja minimalismo, que é diferente de frugalidade ou até mesmo pobreza material. O minimalismo não se trata do pouco, mas do essencial. E infelizmente, a maioria das pessoas em nosso país realmente não tem o essencial. Por isso, para entender o contexto dos produtores do filme, é importante entender onde e em que meio eles vivem, e então tentar fazer paralelos com a nossa vida e realidade aqui.

Entendendo o contexto, dá para a gente aplicar à nossa vida sim, lembrando que o Brasil, por si só, tem múltiplas facetas. O recorte será diferente. Existem pessoas vivendo em um nível de pobreza material em que faltam recursos básicos de alimentação, higiene, moradia. O essencial para elas seria um luxo, de acordo com o que vivem. Isso pode nos fazer questionar (e é importante que nunca deixemos esse questionamento) por que elas não têm esse essencial.

Por outro lado, temos também pessoas que consomem além do básico. Não é à toa que temos cada vez mais movimentos de conscientização em consumo para comida, roupas e objetos de maneira geral. O lado bom da crise em nosso país foi nos mostrar que não dá para sair comprando o tempo todo. Porém, quando formos comprar, podemos pagar mais por algo de melhor qualidade, pois assim pode durar mais, ou a comprar menos, pensar no que vai comprar, no que realmente precisa. Estamos mais conscientes, ou pelo menos nesse caminho.

Além de objetos, existe a frustração material. Cada vez mais pessoas (e aqui nos tornamos iguais globalmente) vêm percebendo que apenas trabalhar, viver ocupadas, não basta. Falta algo. E esse algo não pode ser substituído por consumo e coisas caras. Mais valem as experiências que um produto comprado. Não é à toa que temos visto as pessoas viajando mais e comprando menos. Não dá para ignorar isso que está acontecendo com a gente e no mundo todo.

O documentário em si traz a própria história dos criadores do site, além de depoimentos de pessoas famosas no “meio do minimalismo”, como Sam Harris e Leo Babauta. Mostra exemplos de pessoas em situações variadas, como o casal que foi morar em uma “tiny house” (“casa minúscula” – clique aqui para ver mais) e famílias com crianças. Dá uma pincelada em pontos importantes, como o próprio armário-cápsula, como falei, além da personalização dos ambientes feita por um arquiteto.

Toda e qualquer escolha que podemos fazer vem de um privilégio que temos, mesmo sem que tenhamos consciência dele. Então, se você pode optar pelo modo de vida minimalista, é porque você é um privilegiado. Desse modo, caso você opte por ter menos coisas, pode fazer o bem ao próximo doando aquilo que você acredita não ser essencial a você. Nada impede que você venda alguns itens de consumo mais elevado, como gadgets e móveis, por exemplo, mas itens pessoais podem ser doados. Um único desodorante faz muita diferença para um morador de rua, por exemplo, assim como um jogo de canetas coloridas vai fazer o dia de uma criança em idade escolar que quase não tem material.

O minimalismo cai muito no assunto do consumo porque, como falei, o berço dele são os Estados Unidos. Mas, no geral, estamos falando de um planeta que não aguenta mais tanto lixo sendo gerado. Essa frase, falada pelo Joshua no documentário, resume o conceito, para mim: “Tudo o que eu tenho, eu tenho que justificar apenas para mim. Eu preciso disso? Tem algum propósito? Ou me traz alegria?” Trata-se de ter coisas com propósito.

Existem alguns equívocos comuns sobre minimalismo, e acredito que o documentário aborde muito bem cada um deles.

O primeiro é sobre você “ter que se desfazer de tudo”. Não é isso. O Ryan inclusive dá o exemplo mais comum, que são os livros. “Cara, mantenha seus livros. É uma coleção”. Ou seja, são objetos significativos para você. Então mantenha – isso é o minimalismo. Não se trata de quantidade, mas de qualidade, de significado, do que é essencial. Assim como vão existir pessoas que não se importam com o livro em formato físico e se dão bem com um único Kindle, e doam todos os livros que têm em papel.

O segundo é sobre a obrigatoriedade de adotar um estilo de vida nômade. O que acontece é que, muitas pessoas, quando abraçam o minimalismo, o fazem porque se sentiam presas a um lugar ou a uma situação. E, por isso, ao terem menos coisas, sentem-se mais livres para viajar sem tantas preocupações ou pertences. Isso também não é regra – é só uma possibilidade.

O terceiro é sobre ser um estilo de vida radical. Ou seja, se você optar por um estilo minimalista, precisa “fazer a rapa” em tudo, não pode mais “comprar um iPhone” e coisas do tipo. Não necessariamente. Trata-se de qualidade em vez de quantidade – simples assim. É você abrir o seu guarda-roupa e saber que todas as suas peças de roupa são as suas preferidas. É não ter tralha em casa. Mas isso não é um estilo de vida que você constrói da noite para o dia (como nenhum estilo de vida é) e nem existe um ponto final ou um estado ideal de existência. É só um modo de ver e viver a vida que você pode aplicar o quanto quiser, aos poucos ou de uma só vez (apesar de eu ter alguns comentários pertinentes sobre essa radicalização).

Uma das coisas que mais gosto (e também é um privilégio) é a escolha de poder questionar a forma de viver a vida. “Ou você faz faculdade e trabalha em uma empresa, ou empreende ou passa em um concurso público”. Você já ouviu isso? “Ou você casa ou vai ser solteirona para o resto da vida, sozinha”. E essa? Já ouviu? Por que nossa mente nos aprisiona em padrões assim? Outra frase que ouvi no documentário e anotei porque gostei muito foi: “Existe um template, mas é apenas um template, e não o template”. Ou seja, existem maneiras de viver a vida, e não uma única maneira. Não que o minimalismo seja a salvação de todos os problemas, mas é um desses caminhos. É contracultura, se pensarmos na sociedade do consumo. E nos impulsiona a questionar, repensar nosso modo de viver.

“É sobre buscar uma vida que seja boa para nós mesmos e para as pessoas ao nosso redor.” Eu gosto desse conceito como um todo. Você não?

Thais Godinho
06/06/2017
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Documentário “Minimalism”

 

  1. Sora 06/06/2017

    Oi Thais, amei seu post.
    Eu vi o documentário e li um livro deles (tem resenha no meu blog). Você resumiu super bem a mensagem deles!
    Eu adotei o minimalismo como forma de vida, pois me identifiquei muito. Gosto muito mais de comprar experiências (viagens, almoços, passeios) do que coisas, então pra mim foi natural. Ainda tinha muita coisa em casa, mas depois de ver esse documentário removi várias sacolas de roupas e objetos e dei para uma instituição. Ainda tenho bastante coisa, mas hoje só tenho o que me deixa feliz. Me sinto bem melhor abrindo o armário e vendo menos roupas, mas só itens que me deixam feliz.

    Beijos,
    Sora | Meu Jardim de Livros

    • Thais Godinho respondeu Sora 06/06/2017

      Obrigada por comentar.

  2. Jess 06/06/2017

    Eu ainda não tive a oportunidade de assistir esse documentário. Mas tenho uma boa sensação que vou gostar.
    Eu encontrei nas ideias minimalistas a libertação para uma vida mais significativa.
    É exatamente o que você disse no post, um principio de viver com propósitos, de ter escolhas significativas que nos faça encontrar maior sentido na existência.
    Comecei a trabalhar esses conceitos há alguns anos e a cada um deles me surpreendo com o quanto me sinto mais alinhada no meu propósito. São coisas simples, como você disse, as vezes abrir o armário e só achar roupas que gostamos. Mas cada pequena coisa assim me faz encontrar coerência ao meu redor e sabe… a paz que isso traz é indescritível.

    não sou nem de longe perfeita, muito tenho que evoluir. Mas me sinto privilegiada por ter tido contato com essas ideias 🙂

    • Thais Godinho respondeu Jess 06/06/2017

      Acho que serve como filosofia de vida, não como regra. Vejo muitas pessoas terem dificuldade com o minimalismo porque acreditam que tenham que ser meio radicais com tudo. Gosto muito da filosofia de modo geral e aplico na minha vida, mas sem radicalismos.

  3. Paula 06/06/2017

    Thais, post maravilhoso como sempre! 🙂

    Assisti o documentário na época que você indicou por aqui e gostei muito.
    Estou em um período difícil da minha vida e perdi um pouco a mão nesse processo de minimalismo, mas consegui manter bem os destralhes que fiz no final do ano (acho que é um sinal de que funcionou né?).
    A parte que mais gostei no seu texto foi a reflexão de como acabamos seguindo padrões que nos são impostos, estou passando por um período de repensar meu modo de viver em todos os sentindos/relacionamentos.

    Beijos

    • Thais Godinho respondeu Paula 06/06/2017

      Muito obrigada por comentar. <3

  4. Bia 06/06/2017

    Thais, você​ nunca decepciona! Toda vez que eu vejo algo sobre minimalismo vejo que falta contexto, a maioria não enxerga o próprio privilégio. Você escreveu com coerência, colocou as ressalvas devidas e tratou o tema com respeito àqueles que não são privilegiados. A melhor análise sobre minimalismo que eu já li. Beijo grande! 😙

  5. Carol Magnani 06/06/2017

    Thais, gostei mto desse documentário. Achei uma pincelada bem básica sobre tudo, mas q te faz ter vontade de pesquisar e entender melhor. Já to vendo vídeos e tentando colocar em prática na minha vida…

  6. Zeza Maria 06/06/2017

    Thais, obrigada por diferenciar de uma maneira tão didática a diferença entre “pouco” e “essencial”.
    Tenho feito o exercício de destralhar a casa – e a vida, de alguma maneira – e muitas vezes já olhei minha estante de livros e me senti culpada por mantê-los. rs Depois de ver o documentário, me senti aliviada pelos livros, mas, continuei sentindo um incomodo que com o seu texto ficou mais claro: não podemos perder de vista quem somos e qual nosso contexto: sou latina, brasileira, nordestina, soteropolitana. O que é essencial pra mim também – ou principalmente, talvez – é construído dentro dessa perspectiva. E entender isso tem servido inclusive pra eu entender e sustentar determinadas escolhas em detrimento de outras. Obrigada, mais uma vez! <3

  7. EMERSON FERREIRA NOGUEIRA 06/06/2017

    Ótima dica.

  8. Camila Bonetti Nunes 06/06/2017

    Muito boa a contextualização do comentário para o nosso país! Seus posts são sempre muito pertinentes e reponsáveis! Parabéns 🙂

  9. Raquel 06/06/2017

    Acredito que não estamos neste mundo para acumular coisas… mas sim para sermos felizes, fazer o bem ao próximo, amar, respeitar, etc etc !

  10. Luciana de Sousa Gaillac 07/06/2017

    Não sabia sobre esse documentário, suas percepção e abordagem foi significativo, excelente o post!

  11. Gostei muito do documentário e da sua reflexão!
    Me lembrei desse textinho aqui: https://minimalism.life/dont-make-simplicity-complicated/ 🙂

  12. Ana Noemia 07/06/2017

    gosto muito do seu blog. Adorei o texto, é possível publicar na minha pagina do face?

    • Thais Godinho respondeu Ana Noemia 07/06/2017

      Pode compartilhar sim, claro.

  13. Barbarah 10/06/2017

    Assisti o documentário porém de cara já não gostei muito, achei superficial e senti uma sensação de glamourização do minimalismo. Ai então acabei passando por um texto publicado no blog Um ano sem lixo e só confirmei ainda mais que não havia gostado do documentário, e acredito que o texto dela expõe bem várias razões. Segue o link e vale a leitura: http://www.umanosemlixo.com/2017/05/minimalism-a-documentary-about-the-important-things.html

  14. Elisa 13/06/2017

    Minha sobrinha tinha me indicado e quando li sua resenha, me deu ainda mais vontade de ver. Adorei o documentário e a interpretação pé no chão que vc deu a ele, meio que “salva” a gente da tendência de achar que aquilo é a salvação imediata para tudo de uma vez só.
    É importante destacar que a escolha pelo minimalismo é, de fato, um privilégio. Gostei muito do seu texto. 😊

  15. Evelyn dos Santos Mata 14/06/2017

    Vou assistir! Confesso que me tornei minimalista lendo muito do seu blog. Eu sempre fui meio “apegada” aos sentimentos, e não tanto ao material. Hoje – ainda minimalista – preciso estar sempre comprando algo, pois senão esqueço de mim e trabalho para os outros, como dizem meus pais. O maior problema hoje da minha vida é lidar com quem não é minimalista, a ponto de não deixar as pessoas egoístas me sugarem. Ensinar, por exemplo, ao meu esposo que é consumista ao extremo e vira e mexe sente vazios interiores e questionamentos como “a vida é só trabalhar e comprar?” é muito difícil. Como ensinar quem sempre viveu o consumismo que a vida é mais que acumular e gastar dinheiro, alguém que sempre viveu na minha contramão? Porque como você bem ponderou: é algo que vem de dentro, que visa dar importância ao essencial da vida. E não é possível que a vida seja isso, acumular coisas e perder momentos.