Eu sei que vivemos em um mundo corrido e com muitos prazos para ontem, e que “ninguém tem tempo” a perder com listas e “outras complicações”. Mas, estudando sobre produtividade nos últimos onze anos (!), eu também aprendi que esse modus operandi não te leva a sair desse ciclo. O que aconteceu comigo, pelo menos, foi perceber que eu ficaria doente e poderia até morrer se quisesse seguir esse ritmo para sempre. Eu quis ir um pouco mais devagar – o que não significava ser menos eficiente. Eu só acreditava que nem tudo era pra ontem. Também acreditava que as coisas poderiam ser feitas com um pouco mais de antecedência e planejamento. E foi essa “crença” que me fez tomar a decisão de mudar. E aí eu saí do ciclo.

Porque pasme: o mundo não acaba quando você começa a colocar limites. Gera certas dores? Sim. Quantas vezes não fui zoada – “a Thais anota tudo, cuidado com o que fala hein?”. Ou então: “Você planeja demais – nem tudo tem que sair com a qualidade que você espera”. E, quando a gente está no mercado de trabalho, tentando agradar o chefe, bate uma insegurança tremenda. A gente não sabe se confia no próprio coração ou no que o chefe manda ou nos conselhos dos colegas. A grande verdade é que ninguém sabe o que está falando. A única pessoa que sabe é você mesmo. Porque o que é o ritmo de uma pessoa, pode não ser o da outra. E dificilmente será.

Eu lido com isso diversas vezes quando vou ensinar uma pessoa a se organizar a partir do zero. Ela quer que a coisa aconteça rápido. Quer dicas práticas. Não quer que eu dê mais trabalho. Então existe todo um esforço de conscientização para mostrar que não se trata de batucar teclado nem de riscar coisas da lista, mas de ver se você efetivamente está dedicando tempo às coisas certas. E essa pequena frase engloba um mundo de coisas.

O David Allen (autor do método GTD) participou de uma matéria para a tv holandesa onde ele ensina uma apresentadora a usar GTD desde o início. A matéria é incrível. Se você entender inglês, vai gostar muito (veja abaixo ou clique aqui, se não estiver visualizando o vídeo):

Quando ele faz o exercício de coleta com a apresentadora, tem um momento que ela diz que está se sentindo um pouco aflita com o processo. E ele responde: “você só está se dando conta do estresse em que você já vive”. Ou seja, não é o ato de agrupar tudo o que está chamando a atenção que deixa o ser humano aflito. Não é ter listas mostrando tudo o que precisa ser feito. É o fato de essas coisas existirem e você, de certa maneira, não dar a devida atenção que todas elas merecem. Então “se organizar” é dar essa atenção. As coisas não deixam de existir se você não fizer isso. Porém, consciente do que existe, você pode ter mais tranquilidade. “Você só pode se sentir bem sobre o que não está fazendo quando você sabe o que não está fazendo”, o David diz.

O vídeo acima é só a edição para o programa, mas você pode ver a versão completa (15 minutos) aqui.

Todo mundo, sem exceção, acha que se organizar dá trabalho. Então o mecanismo de defesa para evitar entrar nesse ciclo “trabalhoso” é pedir: me dê dicas práticas! Só que “dicas” não resolvem o problema. Quer dicas? Oras, existem aos montes. Digite “dicas de organização” ou “dicas de produtividade” no Google e você terá milhares de resultados. Só que “dicas” não adiantam nada se você não tiver um processo inteiramente seu, um empoderamento interno de estabelecer limites para o mundo com base em suas próprias prioridades, se você não tiver um método que te auxilie a ficar relax o tempo todo.

Produtividade não é fazer mais coisas. É investir tempo nas coisas certas. E “coisas certas” variam muito – tanto quanto variamos como seres humanos. Por isso cada um faz suas escolhas. A pergunta é: as suas escolhas são coerentes? Você está construindo o estilo de vida que você quer ter?

Não me leve a mal: tem pessoas que gostam desse ritmo. Em certo teor psicológico, até dependem disso. Mas, se você está cansada(o), pare de pedir/pesquisar por dicas e procure entender que se trata de um estilo de vida onde você só precisa dar o primeiro passo: decidir que não quer mais viver assim. O “como fazer” depende muito de cada um. A minha abordagem, vocês sabem, é o GTD.

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Meu nome é Thais Godinho e meu guarda-chuva profissional engloba três temas: produtividade, organização pessoal e criatividade. As formas de operacionalizar esse trabalho que eu amo são essas: escrevendo no blog, publicando livros, estudando, ministrando cursos e fazendo atendimentos individuais, ajudando as pessoas a se organizarem. Você pode acompanhar minha trajetória pessoal e profissional neste blog, que existe desde 2006.

14 Comentários

  1. Realmente é preciso querer mudar e começar, mesmo que aos poucos. Sinto que tanto na vida pessoal como no trabalho já consigo me organizar melhor. O fato de programar a semana, anotar tudo que me preocupa e deve ser feito , alojar as tarefas dos projetos a serem realizadas nos seus respectivos lugares

  2. Eu vejo muito isso dentro de um processo – como perceber o seu tempo.
    No meu caso, li o seu livro em Fevereiro e li parte do livro do GTD em seguida (não, ainda não terminei). Pois no momento da qual dei conta a quantidade de coisa que carrego e o tempo que tenho – já fiquei cansada.
    Estamos em quase Maio, ainda não apliquei todas as “dicas” que obtive ao longo das leituras, mas a grande lição que tive e creio ser o maior desafio é aprender a lidar com o tempo. Entender como o usamos! Nesmo fazendo muitas listas, ainda ocorre imprevisto.
    Nesse pouco tempo, eu diria que organização não é fazer listas – é aprender a lidar com o tempo. Algo da qual não vimos, mas é valioso.

  3. Thaís, que texto incrível! Tive vários insights depois de assistir o vídeo. Muito obrigada. Quero guardar isso pra vida. <3

  4. Thaís muito obrigada! Seu texto é excelente!!! Quer mudar mude pra valer meias mudanças resolvem meios problemas! Bj, desejo ótima semana para você e sua família : )

  5. Ótimo texto!

    Peço desculpa primeiramente, porque a minha pergunta provavelmente já deve ter sido respondida em outros momentos. É que eu tenho o livro do David Allen, comecei a ler mas achei alguns termos confusos e parei. Sei que há uma nova versão com algumas mudanças. Será que vale a pena ter o novo livro?n

    Muito obrigada! 🙂

    • Sim, o novo livro foi completamente reescrito, o que inclusive tornou a escrita mais fluida. Recomendo.

  6. Texto preciso, é isso! Mas ao ver o video (excelente por sinal!), vi que o David falou algo que é exatamente o que penso e te pergunto: pode demorar alguns meses até que voce confie no seu sistema. Até lá, como lidar com o dia a dia sem se desesperar se voce esta de fato com tudo sobre controle?! A impressao que eu tenho é que durante esses meses de consolidacao do aprendizado do método, eu ficaria toda hora revendo tudo e checando se nao estou deixando nada passar, se nao esqueci de nada… obrigada por tudo!

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