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Quando eu criei o blog, em outubro de 2006, foi um movimento natural. Eu já tinha criado outros blogs, trabalhava em uma agência que estava começando a investir em marketing digital (minha especialidade profissional) e sempre gostei muito do assunto. Eu tinha 25 anos, estava no último ano da minha segunda faculdade (Publicidade), produzindo TCC e começando, pela primeira vez, a gerenciar uma equipe. Eu adorava o assunto “organização pessoal”, mas muito mais com foco em produtividade, e estava absorvida por livros a respeito. Foi quando eu conheci o método GTD também.

Criar um blog, naquela época, para mim, significava ter um lugar onde eu pudesse organizar meus pensamentos e compartilhar “com ninguém”. Penso que, se eu já tivesse algo como o Evernote naquela época, talvez eu tivesse produzido esse conteúdo nele, e não em um blog. Porque o que eu queria mesmo era só um lugar para escrever o que estava aprendendo sobre organização e produtividade, de uma maneira um pouco mais organizada, separando por assuntos e categorias.

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Vale dizer, também, que ninguém “vivia de blog” naquela época. Também já tinha passado a fase de que blog era “diário virtual” – os blogs poderiam ser temáticos, assim como existiam fanzines de papel antes da popularização da Internet. Os grandes portais eram como as revistas. Não existia o blog como central de conteúdo, como é hoje, como se fosse uma revista com a visão da editora. Isso começou a acontecer aos poucos – com mais força entre 2010 e 2011. Quem começou nessa época ou se profissionalizou, certamente hoje vive do blog como seu meio principal, em termos de trabalho.

O Vida Organizada entrou nessa onda de 2011, muito pelo fato de eu tê-lo profissionalizado. Nunca, jamais, imaginei que um dia o blog daria o tom da minha vida profissional. Ele começou a se popularizar muito em 2011, quando comecei a aplicar calendário editorial, conteúdo diário e uma série de outras coisas que construíram a imagem do blog como ele é. Mas “viver de blog” significa ter muitos anunciantes, muitos publieditoriais acontecendo, e eu não via isso como algo nem que eu queria nem que fosse possível. Porque o assunto do VO não traz tantos anunciantes assim. Não tem um público-alvo uma galera focada em consumo – pelo contrário. Promove até o desapego, o minimalismo. Então eu sempre tive uma visão muito clara com relação a tudo isso, nunca esperando que o blog, por si só, virasse algo como existem hoje tantos blogs que se mantêm apenas “por serem blogs”.

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Em 2011, meu filho estava completando um ano, eu tinha acabado de voltar ao mercado de trabalho após seu nascimento e estava fazendo pós-graduação. No segundo semestre, aceitei uma oferta de trabalho em Campinas, o que me fez, até o final do ano, ter uma rotina de deslocamento com ônibus fretado, até oficialmente nos mudarmos no final do ano. Nessa época, meu interesse era em ter uma vida tranquila, trabalhando em um lugar legal, com certa estabilidade, e proporcionar uma criação bacana para o nosso filho em uma cidade fora de São Paulo. Mas bem, as coisas mudam, porque a vida acontece e, com ela, vêm situações que você não previa.

Nunca vi o blog como um canal para ganhar dinheiro ou ser meu trabalho principal. Isso continua até hoje. Eu imaginava que, se o blog virasse um canal publicitário, muito se perderia em termos de conteúdo. Sei que dá para conciliar, mas não queria que isso acontecesse. Para mim, sempre foi importante o blog ser um blog. Por isso, naquela época minhas pretensões profissionais se resumiam a evoluir na empresa onde eu trabalhava e, um dia, passar em um cargo público. Eu queria ser servidora. Queria trabalhar em algo mais ativo pelo meu país e, com isso, ter estabilidade profissional também. Compartilhei muito sobre dicas de estudos para concursos nessa época. Era a minha vida.

A profissionalização do blog começou em 2011 e culminou, em 2012, com o meu TCC da pós-graduação sendo sobre ele. Envolveu estudo de cores, construção de logo, contratação de layout. Eu também vi que, para produzir conteúdos cada vez mais legais, eu poderia me especializar. E aí comecei a fazer certificações para personal organizer, entre outros cursos. Emagreci 22kg. Tudo estava caminhando. Foi quando, pela primeira vez, eu percebi que gostaria de trabalhar ajudando as pessoas a se organizarem. Eu só não sabia como – mas tinha o “o quê”, que era o mais importante.

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Em 2013, dois fatos bem legais aconteceram na minha vida. Um deles foi ter sido convidada pela Editora Gente a publicar um livro sobre organização. Fazer reunião, assinar contrato – tudo isso foi a realização de um sonho para mim. O segundo fato foi ter conhecido o Daniel, da Call Daniel – hoje a franquia brasileira do método GTD no Brasil. Nós nos demos muito bem e ele me convidou para trabalhar como consultora na parte de webmarketing da empresa dele – um trabalho freelancer, mas que já me envolvia no mundo do GTD, que eu usava desde 2006.

Foi quando eu vi que todo o meu esforço com o blog estava surtindo alguns frutos. Passei a ser chamada para mais ações relacionadas. Desde que o blog começou a se popularizar, eu era convidada a participar de eventos, palestras – até consultoria em empresas eu já tinha feito. Mas nada muito oficial, porque eu tinha já uma profissão oficial. Quando tanta coisa começou a acontecer em direção a esse outro caminho, eu parei e, com base na minha missão pessoal, recém-descoberta, fiz um planejamento de curto e médio prazo para fazer uma transição de carreira, o que aconteceu em 2014.

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Sabe, eu sempre tive uma visão muito romântica com relação ao meu trabalho – ao meu ofício, ao que eu faço. E valores pessoais são importantes para mim nesse processo, como a criatividade, a vontade de ajudar os outros, a honestidade. Então, essa transição me pareceu muito natural. Fiquei no meu emprego anterior por três anos, o que foi um tempo legal e que me permitiu fazer toda essa transição de maneira organizada, mas eu fico pensando como, em tantas vezes, algumas empresas perdem pessoas que gostam do seu trabalho simplesmente porque não oferecem oportunidades simples de expressar seus valores lá dentro. Não demanda investimento de dinheiro nem mudanças drásticas – só boa vontade mesmo. E eu vejo isso acontecer em todo lugar, com pessoas diversas.

Eu saí do meu último emprego para trabalhar como professora de GTD e, em paralelo a isso, poderia me dedicar mais ao blog. A falha nesse plano é que um trabalho substitui o outro, em termos de dedicação de tempo. Foi quando eu percebi que, se eu quisesse tempo real para me dedicar ao blog, eu teria que viver apenas dele – não daria para “me dedicar mais ao blog” tendo outro trabalho em paralelo. Mas minha segunda percepção foi reafirmar que não era isso mesmo o que eu queria. Nunca quis que o blog, em si, fosse o meu trabalho. Ele é o espaço onde gosto de escrever para ajudar as pessoas e, como consequência, acaba sendo um lugar onde divulgo o que eu faço, que envolve cursos, palestras, consultoria. Nos últimos dois anos, tenho me dedicado apaixonadamente ao que eu faço, porque continuo gostando muito de tudo.

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2015 foi um ano ótimo porque tive grandes realizações profissionais. Conheci o David Allen (autor do método GTD), tirei duas certificações relacionadas, conheci muita gente legal no mundo todo, implementei cursos de organização, viajei o país e para fora diversas vezes para realizar cursos, palestras e eventos. Eu comecei 2016 cheia de planos, com um foco muito claro de como seria o meu ano – investindo tempo na implementação do novo produto do GTD, refinando o que eu tinha feito com o Vida Organizada, e iniciando meus estudos na área de coaching, para efetivamente trabalhar esse lado mais intelectual a partir de 2017. E isso de fato é o que vem acontecendo.

No último dia 28, o blog completou 10 anos de existência. Eu imaginei, ao montar o planejamento deste ano, há um ano atrás, que eu faria uma festa ou evento bem grande para celebrar esse dia. Com o passar do tempo, a vontade foi diminuindo. Não pela importância do Vida Organizada em si, mas porque eu perdi o interesse em fazer esse “auê” com o Vida Organizada. A Internet está vivendo uma fase esquisita, onde qualquer um fala o que quiser, disfarçando ofensa de opinião e defendendo esse “direito” como se não houvessem regras e sentimentos envolvidos. Isso tem me desgastado muito desde o ano passado e, no momento, minha atuação profissional, de maneira geral, tem sido mais discreta, atuando ao lado daqueles que vêem valor no meu trabalho.

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Meu trabalho hoje é muito de backstage, e eu tenho adorado isso. O trabalho de coaching é a atividade mais satisfatória que já fiz em muito tempo, além de um mundo de descobertas. Ter a possibilidade de trabalhar ajudando as pessoas a encontrarem seus dons, seu foco diário, através da organização, é um presente, uma dádiva. Além disso, o meu trabalho com o GTD é simplesmente tudo pra mim. Eu amo esse negócio e não me imagino deixando de trabalhar com isso nunca. Eu respiro GTD.

Nesse momento, então, o blog completa 10 anos, por incrível que pareça, me proporcionando os mesmos sentimentos que tinha sobre ele lá no início. É um espaço para escrever, compartilhar, e quero fazer isso de forma sempre legal, com conteúdo bom, de qualidade. O que tem mudado, eu acredito, seja o formato. Muita coisa já foi publicada nesses últimos dez anos e, no momento, estar mais introspectiva como um todo tem influenciado bastante na produção de conteúdos para o blog e outras redes sociais. Estou estudando, me dedicando ao meu trabalho, ao aprendizado, ao planejamento das sessões de coaching, a traduções e mais um mundo de coisas que, sinceramente, não interessa para vocês eu ficar postando só porque “fiz”. Não sei se vocês querem que o blog vire um lugar onde eu fique postando sobre como tem sido a minha rotina. Posso estar errada.

Eu também estou trabalhando em uma reformulação de layout que, espero, entre no ar ainda em novembro. Tudo isso influencia no processo criativo como um todo. Estou investindo tempo no novo layout, em cenários, equipamentos, e muito estudo. É isso que faz o Vida Organizada ser um blog de qualidade (eu acho), e não postar loucamente e superficialmente sobre dicas diversas. Espero que percebam e entendam.

Criei meu primeiro blog em 2001, há muito tempo. O Vida Organizada nasceu apenas em 2006. Mas, mesmo assim, que jornada! Foram 10 anos incríveis, que me formaram como pessoa e como profissional, e eu sei que esse é só o começo.

Muito obrigada por estarem aqui.

Thais Godinho
31/10/2016
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