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Eu costumo dizer que a gente descobre que ficou adulto quando começa a resolver os problemas de outras pessoas além dos nossos. Penso que, com a família, isso é muito verdade. Se você tem pais e avós que sempre te ajudaram, ou ainda ajudam, você pode não entender tão bem o conceito. A partir do momento que a situação se inverte – porque você vira o provedor da família, porque seus pais estão mais velhos e precisam de ajuda, é diferente. E isso porque não estou entrando no mérito de coisas como: um irmão com dívidas, uma tia que não tem onde morar e outras questões que assolam todas as famílias. O que fazer quando o responsável por tomar essas decisões de “ajudar ou não” é você? Vamos bater um papo sobre esse assunto tão delicado, mas tão importante?

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Claro que vai muito de pessoa para pessoa, mas eu sempre parto do pressuposto que, dentro do que eu puder ajudar, eu ajudarei. E isso inclui uma série de fatores: minha própria família, nossos objetivos financeiros, nossas próprias dívidas e compromissos. Não devemos falar apenas do dinheiro, mas do envolvimento emocional que isso significa, além do tempo investido.

Outro fator importante a ser analisado é a questão da gravidade do problema. Alguns problemas são mais graves que outros e é claro que terão tratamento diferente. Por exemplo, uma pessoa da família doente sem condições de trabalhar é diferente de uma pessoa saudável que está desempregada e cheia de dívidas. E há formas e formas de ajudar. Nem sempre é só a financeira. Às vezes a pessoa só precisa de um empurrãozinho, conversar, ter alguém por perto.

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A grande questão é que as pessoas vivem em graus financeiros e de tempo diferentes dentro de uma mesma família. Já vi famílias numerosas, com mais de três irmãos, em que um era milionário, dono de muitas empresas, enquanto outro não queria trabalhar e o outro era autônomo, vivendo uma vida sofrida, aquela coisa de pagar as contas no aperto todo mês. E acho que todo mundo no Brasil está um pouco fadado a essa desigualdade, porque somos um país de desigualdades. Se isso acontece dentro de uma mesma família, imagine com famílias diferentes. E lembre-se que famílias diferentes se juntam quando as pessoas se casam, por exemplo, então temos bastante coisas acontecendo sempre.

Também há diferenças em torno do tempo. Um trabalha 60 horas por semana, enquanto outro fica em casa, outro faz home-office, outro está desempregado. Quem disse que quem está desempregado está à disposição da família para fazer os pequenos serviços também?

Essas diferenças podem causar constrangimento e desconforto. Se você viajar para a praia para passar uma semana enquanto alguém da sua família estiver com problemas financeiros, podem dizer que você foi egoísta. Ou ir ao cinema em uma terça à tarde. Trocar de carro enquanto o irmão está fechando uma empresa que foi à falência e precisou vender até imóvel para pagar a dívida não é dos assuntos mais fáceis no almoço de domingo. Até os presentes no Natal entram nesse constrangimento muitas vezes, porque você sabe que, se alguém costuma presentear com um item mais caro, você pode se sentir na obrigação de dar algo mais caro também. E por aí vai.

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Eu penso que a família é uma estrutura e, como toda estrutura, depende de como estão construindo seus alicerces. Há famílias que se ajudam mutuamente e isso é um padrão. Há famílias cujas pessoas se distanciaram tanto que mal sabem sobre os problemas uns dos outros. Não há regras. O que eu sinceramente acredito é que ninguém precisa sentir vergonha por ter uma condição financeira melhor do que a outra pessoa, ou ter estruturado sua vida para trabalhar de maneira diferente (home-office, por exemplo), ou por uma esposa ter escolhido ficar em casa enquanto os filhos crescem (ou o pai, como foi aqui em casa). E, sempre que alguém puder ajudar, ajudará, mas não como uma obrigatoriedade (é como eu penso, mas claro que varia de acordo com a condição, como disse no começo).

O que não ajuda nada, nunca, no meu ver, é o tom da agressividade. Do “você precisa fazer isso”. Porque cada um conhece as suas condições. Eu, particularmente, me sinto muito satisfeita quando consigo ajudar alguém da minha família, mas eu estou em uma fase de construir coisas – construir a base da minha própria família. E isso é tão importante quanto ajudar os outros parentes – não pode ser colocado de lado. Talvez você esteja em uma fase com mais estabilidade e possa ajudar mais. É importante avaliar cada cenário, cada pessoa, cada família, cada problema a ser resolvido.

Como você, leitor, lida com essas questões? Você já passou por algo assim na sua família? Deixe seu depoimento abaixo.

Thais Godinho
04/06/2016
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  1. mary 04/06/2016

    ola thais, fiquei muito comovida com este assunto,estou a passar exatamente por isso no momento com minha mae. Quando eu era criança minha mae nunca se preocupou comigo financeiramente falando, quem me ajudava era minha bisavo, as vezes ela trazia alguns presentes, ela so queria “curtir” a vida,nunca fez sacrifícios por mim.Agora ela cuida da minha vò e vive do salário de dela, mas ela faz empréstimos, se mete em dividas e me pede pra eu ajudar, pra falar a verdade eu ja ajudei ela bastante, sempre quando posso mando algum dinheiro, mas ela sempre reclama.Eu dependo do meu marido, tenho uma vida estável, mas estudo e estou em faze de construir uma estrutura pra minha família, pois tenho dois filhos pra criar e me preocupo muito com eles, economizo,mas essa situacao com minha minha as vezes me encomoda, ela nunca soube resolver os próprios problemas, os meus ela nunca resolveu pra mim.

    • Thais Godinho respondeu mary 06/06/2016

      Difícil. =/ Obrigada por compartilhar. Relações humanas nunca são fáceis, especialmente com as mães.

  2. Tiago 04/06/2016

    Concordo e sou bem parecido com você. Não me sinto bem se posso fazer ou comprar algo, mas um parente não. Vou lá e compartilho. Claro, desde que seja lícito. Se a pessoa está passando aperto por ser folgada, não vou abandonar, mas também não vou ser conivente com o erro dela.

    Vejo gente ajudando estranhos e se esquece de que parente também é o “próximo”.

    Agora vamos lá compartilhar esse artigo no grupo da família do Whatsapp 😀

    • Thais Godinho respondeu Tiago 06/06/2016

      \o/

      Obrigada por comentar!

  3. Maria Celeste 04/06/2016

    Adorei o seu texto! É nessa diversidade que somos afortunados… 🙂

    • Thais Godinho respondeu Maria Celeste 06/06/2016

      Concordo!

  4. Cássia 04/06/2016

    Excelente post! Os livros do Henry Cloud são ótimos, assim como oprograma do Dave Ramsey (em inglês).

  5. Thais Silveira 04/06/2016

    Thais, leio sempre seus posts e amo. Parece estar falando comigo. Fiquei emocionada lendo este post pois eu estou sendo MUITO AJUDADA pela minha família, a minha, pois o mesmo não se pode falar da familia do meu marido que talvez não saiba o quanto estamos atrapalhados. Mas temos saúde e vontade. Isso é muito importante. Sou eternamente grata à minha família e espero um dia poder retribuir nem que seja com um sorriso e segurando a mão de quem tanto me guia em minha escuridão presente… Obrigada Thais

    • Thais Godinho respondeu Thais Silveira 06/06/2016

      Que bonito. Eu que agradeço por você ter comentado.

  6. Emerson Ferreira Nogueira 05/06/2016

    Poxa que bacana você falar disso abordou de uma forma impar este tema que eu acho que todos tem em alguma parte da vida. Parabéns. Blog esta lindo. Sucesso.

    • Thais Godinho respondeu Emerson Ferreira Nogueira 06/06/2016

      Obrigada, Emerson. 🙂

  7. Renatta 06/06/2016

    Lindo Texto Thais, parabéns! Todos temos questões familiares, elas estão no contexto do ser adulto

    • Thais Godinho respondeu Renatta 06/06/2016

      Sim, não é nada fácil, mas faz parte! Obrigada por comentar.

  8. Beatriz 06/06/2016

    Ei Thais, te acompanho desde 2014 e pela primeira vez resolvi comentar.
    Esse texto veio para acalentar meu coração em relação a essas questões familiares. Bom, tenho 23 anos, sou universitária, faço estagio desde o 1° período da universidade (2014), moro em república. Venho de uma família bem humilde, meu pai é agricultor, e minha mãe atualmente é dona de casa. Desde que sai de casa me sinto responsável pelos meus pais e meus irmãos mais novos que ainda moram com eles, sempre procuro ajudar e na maioria das vezes financeiramente. É bem complicado, pois sempre me sinto culpada quando compro algo novo, quando como uma comida diferente, porque sei que meus pais e meus irmãos ( um de 12, e uma de 15) podem estar passando dificuldades. Tento seguir com a minha vida, mas toda vez que vou visitá-los volto ainda mais preocupada e trago ainda mais problemas pra minha rotina (se estou com dinheiro então, sempre gasto além do que posso).
    No final do ano passado resolvi mudar a forma de enxergar essa minha relação com eles, estou procurando não deixar de lado minhas metas e objetivos em prol dessas questões. Estou tentando não me sentir culpada por não ajudar sempre, e entender que a vida deles é a vida deles (maneira de pensar diferente, históricos diferentes, local diferente, etc) e tudo isso interfere na maneira que eles enxergam o mundo. Não vou abandoná-los, porém não posso esquecer de todos esses fatores. Enfim, estou seguindo essa linha de raciocínio :
    “[…] ninguém precisa sentir vergonha por ter uma condição financeira melhor do que a outra pessoa, ou ter estruturado sua vida para trabalhar de maneira diferente (home-office, por exemplo), ou por uma esposa ter escolhido ficar em casa enquanto os filhos crescem (ou o pai, como foi aqui em casa). E, sempre que alguém puder ajudar, ajudará, mas não como uma obrigatoriedade (é como eu penso, mas claro que varia de acordo com a condição, como disse no começo).”
    Adoro seus escritos, e sempre tento de alguma forma colocar algum ensinamento em prática. Sou estudante de Biblioteconomia, adoro ler sobre organização, e vivo fazendo Clipping do tema por aí (seu blog é o meu favorito da vida).

    Abçs. ♥

    • Thais Godinho respondeu Beatriz 06/06/2016

      Obrigada por compartilhar. Vivendo e aprendendo.

  9. Camila Rocillo 06/06/2016

    É um assunto delicado. Em determinados momentos, a construção pessoal soa como ofensa aos outros, no sentido de que uma mudança de comportamento visando frutos futuros parece esnobe, petulante e até mesmo egoísta – quando na verdade a intenção é disciplina pessoal e consequente melhora na qualidade de vida (geral). Em que pese às exaustivas explicações, sempre tem alguém achando que está sendo deixado para trás, que está sendo abandonado. Mas família é isso e só se pode reclamar até sentir falta. Belo texto, parabéns.

    • Thais Godinho respondeu Camila Rocillo 06/06/2016

      É muito difícil porque são pessoas que muitas vezes pensam super diferente entre si mas convivem juntas pelo vínculo familiar. Com o passar dos anos, acontece de tudo. Tem que ter respeito acima de tudo. Obrigada por comentar!

  10. Amanda 06/06/2016

    Olá,
    Nossa, um dos seus exemplos descreve exatamente o padrão de comportamento da minha família. Meu pai me ajudou muito a bancar os meus estudos, por exemplo. Então foi natural q eu passasse a vez para outros membros da família e principalmente ajudasse meus irmãos mais novos.
    Demorei um tempinho para entender o ritmo de cada um (é muito difícil identificar uma urgência temporária de uma urgência permanente, por exemplo). Hoje em dia, os folgados não tem mais vez , e como a família cresceu, tento ajudar uma das minhas sobrinhas, investindo em sua saúde, por exemplo.
    Mas como você disse, parto do princípio: “se aquela ajuda não irá me fazer falta no momento” (minha irmã e meu cunhado me ajudaram numa mudança e não tive dúvidas em ajudá-los ao emprestar dinheiro para uma reforma)

    • Thais Godinho respondeu Amanda 06/06/2016

      Obrigada por compartilhar.

  11. Oi, Thais,

    Bem, senta que lá vem a história….
    Na minha familia somos assim: meu pai é bem egoista no sentido de prover coisas mais supérfluas (na visão dele) e minha mãe sempre muito independente pra ir atrás do que quis. Eu nunca quis depender de homem e desde nova estudei e batalhei pra ser o que sou hoje: Dirigir, pagar minhas contas, ter minhas coisas, etc.
    Meu marido tem uma família com problemas de organização, com falhas de senso moral etc… e isso se reflete no jeito como vivem, financeiramente, organização, dependência um dos outros (folgadisse mesmo).

    Quando passei um tempo morando com eles pude perceber o quanto eles são folgados, desde parecer que tudo que é meu(do casal) fosse deles. Era ligar o carro pra um pedir carona(com os pés carregados de lama), era pedir coisas emprestadas, roupas eletrodomesticos/utensilios domesticos (ou pegar sem pedir)… Era não preservar a limpeza e a ordem do espaço comum, sendo que a gente limpava e ninguem mantinha limpo ou ajudava a limpar.
    Meu marido não compreendia minhas angustias e o quanto isto me irritava.
    Sem contar que eles tinham um mini mercado e entrega de produtos de mercado, e a gente como funcionarios publicos, ajudava quando podia. E como a gente já estava esperando nossa casa ficar pronta, nos mudamos. Tudo desandou pra eles. Aí de quem foi a culpa? imagina né…

    A gente já teve várias DRs por causa disso. Ele não entendia o quanto era manipulado por eles para que ele fizesse as coisas por eles e sempre dava discussão. Depois de muito discutir isso com outras pessoas com problemas parecidos e de ele ter convivido com minha família, ele conseguiu sair daquele ciclo vicioso.

    Ele já conseguiu deixar claro que ele tem outra familia e precisa cuidar dela, e que eles resolvam seus próprios problemas. As vezes eles vem com cada ideia que meu Deus… Eles ainda não tem noção de limites! É bem complicado, mas já foi um grande avanço!

    • Thais Godinho respondeu carla cristina alves 06/06/2016

      Caramba, que história. Obrigada por compartilhar. É importante porque podemos ter outros leitores vivenciando situações parecidas.

  12. Simone 06/06/2016

    Eu ainda não passei por isso mas faz um tempo que penso da seguinte maneira: se eu puder ajudar, farei sem esperar nada em troca, independente do tipo de ajuda. Se eu sentir que não vou conseguir deixar a expectativa de lado, prefiro não ajudar porque vou me frustrar, e isso só tende a piorar a situação. Como já cantava Axl Rose, “give it all and ask for no return, and very soon you’ll see and you’ll begin to learn that it’s alright.”

  13. priscila 07/06/2016

    Organizando minhas áreas de foco, tenho procurado refletir toda semana sobre o que de mais significativo eu posso fazer em cada uma. No quesito família, meu sogro teve um avc, perdeu a visão devido a um glaucoma e hoje demanda muitos cuidados da minha sogra, que tem 60 anos e não tem recursos para contratar uma cuidadora ( e tampouco nós no momento, já que pagamos financiamento habitacional, escola particular, empréstimos, etc,etc).
    Procuramos nos mobilizar e ajudar com o que podemos, e as vezes são pequenas coisas. Pesquisar uma farmácia mais barata para a compra de remédios. Tirar dúvida sobre o remédio por e-mail com o médico ( minha sogra não tem muita habilidade com os meios da era digital). Entrar em contato com o posto de saúde para vaciná-lo em casa, já que é difícil a locomoção.
    Comprei lençóis novos para mim, doei os meus em bom estado para eles ( já que ele usa fralda e tem sujado mais roupa de cama do que minha sogra dá conta de lavar).
    E principalmente, visitar, olhar nos olhos, ouvir e não julgar.

    • Thais Godinho respondeu priscila 07/06/2016

      Lindo depoimento com exemplo de como nem sempre a ajuda financeira é a real ajuda. Muito obrigada por compartilhar.

  14. Claire Luce Santos 07/06/2016

    ORACULO ! Voce viu minha situação e pôs em palavras e entao vi que não era situação.
    É uma condição e vai passar . Obrigada. Claire

    • Brena Soares respondeu Claire Luce Santos 08/06/2016

      kkkkkkkkk adorei o ORÁCULO no início! É incrível mesmo esta habilidade da Thais rs

  15. Michelle 07/06/2016

    Lembro quando estava na faculdade e conheci uma alemã de 20 anos que estava há 1 no Brasil. Perguntei como os pais dela lidavam com isso e ela me contou que havia 3 meses que não entravam em contato, pois estavam muito ocupados com uma temporada de trabalho, mas que no país dela era normal se formar na escola e ir aprender a viver a própria vida. Fiquei digerindo como eu poderia adaptar aquilo à minha realidade de família brasileira rs pois sempre ouvi de pessoas próximas (ou não tão próximas) que eu era a mãe da minha mãe… e essa situação foi se arrastando por anos, até este, em que tomei coragem para impor limites na relação, não atendendo os telefonemas dela a todos os momentos, não a recordando de seus compromissos ou não passando horas dando vários conselhos aos quais ela nunca segue, apesar de pedi-los. É bem difícil, mas creio que toda essa dificuldade seja também fruto da nossa cultura e que muitas vezes é até melhor se afastar um pouco, pois todos os lados podem amadurecer assim.
    Adoro seu blog, obrigada 🙂

    • Thais Godinho respondeu Michelle 07/06/2016

      Legal você compartilhar isso. Obrigada.

  16. Anadroj 07/06/2016

    Adoro seu blog, como escreveu com verdade e coragem sobre tema tão espinhoso por vezes.
    Eu ajudo meus pais e já ajudei meu irmão cacula. Meu marido já ajudou os pais e os irmãos, apesar de termos nossa própria família e estarmos muito bem. É um assunto complexo e nos sentimos afortunados, mas por vezes as pessoas não tem limites e também não são gratas, então, ajudar é exercício de não esperar retribuição ou gratidão; desapegue. Há também que haver um limite, as vezes as pessoas querem te tornar responsáveis pelas escolhas e eventuais problemas delas, então haja preparo psicológico para lidar com isso. Outras vezes em virtude disso até evitamos comentar sobre viagens e nosso estilo de vida, as vezes ficamos até com remorsos em relação a desfrutar de algumas coisas, me sinto alvo de uma certa inveja.

  17. Isabela 07/06/2016

    Essa questão é tão presente na minha vida que inclusive é tema recorrente de terapia! Tenho 22 anos e moro longe da minha família desde os 17. Como sempre tivemos uma relação de cuidado bastante presente (não só no núcleo pai/mãe/filho, mas tios e primos tbm), me sinto muito culpada por estar longe, sobretudo porque meu pai é bastante debilitado. Na minha família, o ato de ajudar muitas vezes veio acompanhado com uma anulação quase que total do indivíduo. Que coisa complexa!

  18. Lu 09/06/2016

    Infelizmente, as pessoas não se preparam para a velhice, nem a própria, nem a dos pais, embora a doença possa tbm surgir em qualquer idade. Em meu caso, sou filha única e meu pai faleceu quando eu estava terminando a faculdade. Aos poucos fui assumindo os gastos da casa, pois a aposentadoria dele era insuficiente. Depois que ele faleceu, os familiares foram se afastando e, atualmente, todo o meu salário é usado para pagar os remédios e a casa de repouso onde minha mãe vive. Meu marido é responsável pelos nossos gastos e dos nossos filhos. Ela está com alzheimer e sou praticamente a única pessoa a visitá-la. Os familiares evitam contato e perguntam esporadicamente sobre a saúde dela. Eu nunca esperei pela ajuda financeira de outros, mas a falta de interesse dos familiares me chateia bastante. Já fiz terapia para lidar com isso.

  19. Simone 14/06/2016

    Olá.Thais. Como frequentemente acontece, sues textos são sempre na hora certa e ímpares pq nunca vi na internet discussão sobre isso (e olha que já procurei). Além disso estou espantada a quantidade de pessoas que lidam com essa situação, pq parecia que eu era a única.
    Eu tive um dilema e até hoje penso no que eu poderia ter feito melhor ou se errei.
    Fui criada numa família muito humilde em conhecimentos e em dinheiro e não havia ajuda externa de ninguém (parentes). Quando passei em um concurso público muito bom, motivada por ajudar em casa – com o sonho de encher um carrinho de compra (esse era meu sonho para o primeiro pagamento) passei, mas nem um mês depois de ter passado, aceitei namorar um rapaz que queria casar comigo muito rapidamente. Tivemos muitas discussões pq ele acusava-me de priorizar minha família em detrimento de construir uma família com ele e ajudá-lo (na verdade construir família com ele e ajudar a família DELE- fiz muito essa última). Tentei levar as duas coisas pq eu queria realmente começar uma família com ele, mas minha família precisava e queria ajuda. E o namoro foi se desgastando por essa situação-virei uma corda no cabo de guerra-cada um puxando-me para o seu lado. Desisti do namoro para ter paz, até pq o rapaz era desequilibrado, por esse e outros motivos. Anos depois esse ex-namorado quis voltar a namorar comigo, e eu pensei que podíamos ter a chance de evoluir no relacionamento, mas aconteceu um problema muito grave com meu irmão, que demandou muito dinheiro, tempo, conhecimento, ajuda moral, força, enfim, tudo e a única pessoa à disposição era eu – e só eu, até porque a outra pessoa que poderia ajudar não quis-tinha o trabalho dela para se ocupar e se alienou. E nessa situação fui posta em um dilema (não explícito) por esse ex-namorado: Ou ficava com ele e abstinha-me de atuar nessa situação extremamente grave ou ficava com ele sob o risco dele ficar impondo restrições e críticas sobre mim, que já estava sobrecarregada, aterrorizada, com raiva, exaurida, solitária e muito jovem tendo que resolver ou ao menos lidar com questões e situações pesadíssimas. A outra alternativa minha era ficar sozinha. Ele se recusou a dar-me um tempo para resolver essa situação e então resolvi ficar sozinha para concentrar minhas energias na solução ou ao menos apoio familiar.
    Fiquei muito magoada por ele não compreender minha situação tão difícil e levei anos para entender que eu havia sido colocada em um dilema e, também, que esse rapaz deve ter se sentido traído, por eu optar por ajudar minha família em detrimento do relacionamento com ele. A situação do familiar seguiu seu curso natural, resolveu-se e minha ajuda foi necessária, mas poderia ter sido menos intensa como eu pensei que deveria ter sido, que foi aumentada pelo medo e desamparo em que eu estava.
    Minha família precisou e ainda precisa sim de ajuda e não posso dizer que me arrependi ou me arrependo. Como disse o Capitão Kirk no filme Star Trek Into Darkness que sob ataque diz: “Não sei o que devo fazer- só sei o que posso fazer” eu achei e fiz o que poderia ter feito. Com o conhecimento que eu tinha sob as condições em que eu estava. Só isso.
    Seu texto me deixa mais tranquila ao ver que não errei em ajudar minha família, porque na minha concepção, é no mínimo estranho desprezar, pai, mãe e família e principalmente em situação emergencial. Por outro lado vejo hoje que não precisava ser tão intensa e que talvez pudesse ter dado a chance para mim mesma de ter ao menos tentado esse relacionamento-por mim, não pelo ex-namorado (pq quem não teve a empatia e o amor para entender essa situação, nunca me amou, só queria ter saciado seus interesses) .
    Hoje já fui e sou de certa forma ainda criticada e penalizada por outros por ter dado prioridade à minha família e aos excessos de suas demandas. Nunca fiz nada por reconhecimento (que não vem, pelo contrário) fiz pq achei necessário, fiz pq era o que eu achava que era o certo, era o justo e em retribuição à minha criação e ao amor pelos meus pais.
    O que venho aprendendo é focar-me a ter equilíbrio entre minha vida e minha família. Isso é dificílimo quando foi minha culpa ceder a ser a principal provedora de todos os recursos (e as pessoas esperarem isso) e ao mesmo tempo não se deixar absorver, impondo limites duros.
    Gostaria de saber a solução para essa situação, mas a única que encontrei foi através da meditação e autoconhecimento.
    Entendi que se há escolhas (dilemas), no caso, entre a nossa vida/companheiro e a família de origem, a única pessoa que vai perder (e já perdeu por estar nessa situação) SOU EU, pq quem ganha jamais fica satisfeito e quem perde fica frustrado comigo. Diz J. Krishnamurti que se há escolhas (dilemas) já está equivocada a perspectiva e diz ele “ que pensamos que somos livres se pudermos escolher. Não fica confuso quando escolhe? Não fica indeciso quando seleciona um entre todos esses? Portanto a sua escolha é essencialmente o resultado da confusão.” E o resultado de confusão é mais confusão.
    Não se trata de ficar inerte sem escolher-mas perscrutar com a mente e o coração a real natureza das situações, com calma, e delas extrair a verdadeira natureza e necessidades. Arrependimento-sim, de não sabido isso antes, pq afinal fiz o que podia, sob as condições que podia e absolutamente sozinha.

    • Thais Godinho respondeu Simone 15/06/2016

      Obrigada por compartilhar.

  20. Gabriela 16/06/2016

    Ah, gostei muito! Principalmente qdo vc mencionou que está numa fase de construir coisas… é isso! muitas vezes me sinto culpada achando que tenho q ajudar o mundo, mas tenho que me lembrar de me ajudar a construir o meu futuro. Adorei!

  21. Stephanie 14/08/2016

    Sua família está passando necessidade, ajude. Não acredito em construir a vida pessoal sem olhar para os seus. Isso me parece egoísmo. Não gostei do texto… nem dos comentários. A vida dessas pessoas e a minha é uma só, então vou ajudar financeiramente mesmo que isso me atrapalhe de algum jeito, isso se chama amor, abrir mão por pessoas importantes pra mim. Ajudo aqui em casa desde om meus 17 anos, hoje tenho 30. Podia ter pago metade de um apartamento pra mim, mas não me importo. Eu os amo, não conseguiria viver sem dividir.

  22. Priscila 09/09/2016

    Acredito seriamente nisso, as vezes ficamos com pena de pessoas de outros países, e não enxergamos os que estão ao nosso redor, tenho avaliado isso em minha vida, estou em um momento de que, será que preciso de tantos pares de calçados, ou batons, ou roupas, sendo que existe tanta gnt precisando de ajuda, financeira, emocional, espiritual e por ai vai…obrigada por compartilhar.

  23. Luciana 05/12/2016

    A VAQUINHA

    Um Mestre da sabedoria passeava por uma floresta com seu fiel discípulo, quando avistou ao longe um sítio de aparência pobre e resolveu fazer uma breve visita …
    Durante o percurso ele falou ao aprendiz sobre a importância das visitas e as oportunidades de aprendizado que temos, também com as pessoas que mal conhecemos.
    Chegando ao sítio constatou a pobreza do lugar, sem calçamento, casa de madeiras, os moradores, um casal e três filhos, vestidos com roupas rasgadas e sujas …
    Então se aproximou do senhor aparentemente o pai daquela família e perguntou: Neste lugar não há sinais de pontos de comércio e de trabalho, então como o senhor e a sua família sobrevivem aqui?
    E o senhor calmamente respondeu:
    “Meu amigo, nós temos uma vaquinha que nos dá vários litros de leite todos os dias. Uma parte desse produto nós vendemos ou trocamos na cidade vizinha por outros gêneros de alimentos e a outra parte nós produzimos queijo, coalhada, etc … para o nosso consumo, e assim vamos sobrevivendo”.
    O sábio agradeceu a informação, contemplou o lugar por uns momentos, depois se despediu e foi embora. No meio do caminho, voltou ao seu fiel discípulo e ordenou:
    Aprendiz, pegue a vaquinha, leve-a ao precipício ali na frente e empurre-a, jogue-a lá em baixo”.
    O jovem arregalou os olhos espantando e questionou o mestre sobre o fato da vaquinha ser o único meio de sobrevivência daquela família, mas, como percebeu o silêncio absoluto do seu mestre, foi cumprir a ordem. Assim, empurrou a vaquinha morro abaixo e a viu morrer.
    Aquela cena ficou marcada na memória daquele jovem durante alguns anos e um belo dia ele resolveu largar tudo o que havia aprendido e voltar naquele mesmo lugar e contar tudo àquela família, pedir perdão e ajudá-los.
    Assim fez, e quando se aproximava do local avistou um sítio muito bonito, com árvores floridas, todo murado, com carro na garagem e algumas crianças brincando no jardim. Ficou triste e desesperado imaginando que aquela humilde família tivera que vender o sítio para sobreviver, “apertou” o passo e chegando lá, logo foi recebido por um caseiro muito simpático e perguntou sobre a família que ali morava há uns quatro anos e o caseiro respondeu:
    Continuam morando aqui.
    Espantado ele entrou correndo na casa, e viu que era mesmo a família que visitara com o mestre. Elogiou o local e perguntou ao senhor (o dono da vaquinha): Como o senhor melhorou este sítio e está tão bem de vida ???
    E o senhor entusiasmado, respondeu:
    Nós tínhamos uma vaquinha que caiu no precipício e morreu, daí em diante tivemos que fazer outras coisas e desenvolver habilidades que nem sabíamos que tínhamos, assim alcançamos o sucesso que seus olhos vislumbram agora …
    Ponto de reflexão:
    Todos nós temos uma vaquinha que nos dá alguma coisa básica para sobrevivência e uma conveniência com a rotina …às vezes essa vaquinha atrapalha nosso crescimento e por isso não devemos relutar em empurrá -la para o precipício….
    Na questão de ajudar ,devemos levar em consideração os limites. Ao invés de ajudar podemos estar impedindo o crescimento de alguém mantendo a vaquinha viva .Vale refletir o texto.

  24. Leonardo 04/03/2017

    Muito bom ler seu texto Thaís.

    Obrigado.

    Gostaria de agradecer, igualmente, os comentários dos demais leitores com suas próprias experiências que enriquecem e muito a leitura.

    Gratidão.