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Eu costumo dizer que a gente descobre que ficou adulto quando começa a resolver os problemas de outras pessoas além dos nossos. Penso que, com a família, isso é muito verdade. Se você tem pais e avós que sempre te ajudaram, ou ainda ajudam, você pode não entender tão bem o conceito. A partir do momento que a situação se inverte – porque você vira o provedor da família, porque seus pais estão mais velhos e precisam de ajuda, é diferente. E isso porque não estou entrando no mérito de coisas como: um irmão com dívidas, uma tia que não tem onde morar e outras questões que assolam todas as famílias. O que fazer quando o responsável por tomar essas decisões de “ajudar ou não” é você? Vamos bater um papo sobre esse assunto tão delicado, mas tão importante?

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Claro que vai muito de pessoa para pessoa, mas eu sempre parto do pressuposto que, dentro do que eu puder ajudar, eu ajudarei. E isso inclui uma série de fatores: minha própria família, nossos objetivos financeiros, nossas próprias dívidas e compromissos. Não devemos falar apenas do dinheiro, mas do envolvimento emocional que isso significa, além do tempo investido.

Outro fator importante a ser analisado é a questão da gravidade do problema. Alguns problemas são mais graves que outros e é claro que terão tratamento diferente. Por exemplo, uma pessoa da família doente sem condições de trabalhar é diferente de uma pessoa saudável que está desempregada e cheia de dívidas. E há formas e formas de ajudar. Nem sempre é só a financeira. Às vezes a pessoa só precisa de um empurrãozinho, conversar, ter alguém por perto.

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A grande questão é que as pessoas vivem em graus financeiros e de tempo diferentes dentro de uma mesma família. Já vi famílias numerosas, com mais de três irmãos, em que um era milionário, dono de muitas empresas, enquanto outro não queria trabalhar e o outro era autônomo, vivendo uma vida sofrida, aquela coisa de pagar as contas no aperto todo mês. E acho que todo mundo no Brasil está um pouco fadado a essa desigualdade, porque somos um país de desigualdades. Se isso acontece dentro de uma mesma família, imagine com famílias diferentes. E lembre-se que famílias diferentes se juntam quando as pessoas se casam, por exemplo, então temos bastante coisas acontecendo sempre.

Também há diferenças em torno do tempo. Um trabalha 60 horas por semana, enquanto outro fica em casa, outro faz home-office, outro está desempregado. Quem disse que quem está desempregado está à disposição da família para fazer os pequenos serviços também?

Essas diferenças podem causar constrangimento e desconforto. Se você viajar para a praia para passar uma semana enquanto alguém da sua família estiver com problemas financeiros, podem dizer que você foi egoísta. Ou ir ao cinema em uma terça à tarde. Trocar de carro enquanto o irmão está fechando uma empresa que foi à falência e precisou vender até imóvel para pagar a dívida não é dos assuntos mais fáceis no almoço de domingo. Até os presentes no Natal entram nesse constrangimento muitas vezes, porque você sabe que, se alguém costuma presentear com um item mais caro, você pode se sentir na obrigação de dar algo mais caro também. E por aí vai.

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Eu penso que a família é uma estrutura e, como toda estrutura, depende de como estão construindo seus alicerces. Há famílias que se ajudam mutuamente e isso é um padrão. Há famílias cujas pessoas se distanciaram tanto que mal sabem sobre os problemas uns dos outros. Não há regras. O que eu sinceramente acredito é que ninguém precisa sentir vergonha por ter uma condição financeira melhor do que a outra pessoa, ou ter estruturado sua vida para trabalhar de maneira diferente (home-office, por exemplo), ou por uma esposa ter escolhido ficar em casa enquanto os filhos crescem (ou o pai, como foi aqui em casa). E, sempre que alguém puder ajudar, ajudará, mas não como uma obrigatoriedade (é como eu penso, mas claro que varia de acordo com a condição, como disse no começo).

O que não ajuda nada, nunca, no meu ver, é o tom da agressividade. Do “você precisa fazer isso”. Porque cada um conhece as suas condições. Eu, particularmente, me sinto muito satisfeita quando consigo ajudar alguém da minha família, mas eu estou em uma fase de construir coisas – construir a base da minha própria família. E isso é tão importante quanto ajudar os outros parentes – não pode ser colocado de lado. Talvez você esteja em uma fase com mais estabilidade e possa ajudar mais. É importante avaliar cada cenário, cada pessoa, cada família, cada problema a ser resolvido.

Como você, leitor, lida com essas questões? Você já passou por algo assim na sua família? Deixe seu depoimento abaixo.

Thais Godinho
04/06/2016
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