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Faz pouco mais de dois anos que eu vivo como empresária (alô, estatística do Sebrae!), vivendo bem de algo que eu amo e, melhor ainda, prosperando. E isso me permitiu ver muito de perto a realidade que antes eu via apenas em posts que pareciam distantes sobre aquelas pessoas que largavam tudo para viver do que amavam, blogavam de praias na Tailândia, viviam viajando e pareciam ter vidas felizes e maravilhosas. Tanta coisa aconteceu, e tanta coisa ainda está para acontecer, e tanto eu aprendi nesses dois anos, que parece que eu vivi (e envelheci, sinceramente), pelo menos uns 15.

Abrir uma empresa, e tudo o que isso implica, é um mundo novo que se abre. Envolve um conhecimento gigantesco e um processo que eu ainda estou envolvida, aprendendo. E convenhamos: falar sobre empreendedorismo está na moda. De repente, todo mundo está falando sobre isso. Eu acho maravilhoso! Se não fosse pela mudança de mindset que eu mesma passei, talvez eu não tivesse pedido demissão um dia e arriscado fazer o que eu faço hoje (e estou super ok com isso – acho que cada pessoa tem seus desafios diários). Mas eu aprendi duas coisas importantes, que quase ninguém fala, sobre esse processo, que são:

1: Empreender é fácil – pavimentar uma empresa é uma história completamente diferente. Essa transição de pessoa física para pessoa jurídica é algo que não se ensina na escola e, se você não tiver experiência ou alguém por perto que tenha para te orientar, você vai aprender com erros que podem te custar caro, como aconteceu comigo. Isso, é claro, se você for honesto. 🙂 São muitas contas, muitos impostos, muitas declarações, muita coisa para gerenciar e, quando você é pequeno, é muito provável que você faça tudo sozinho. Eu até bem pouco tempo atrás trabalhava sozinha. Até hoje não tenho ninguém que faça essa parte administrativa para mim, porque o faturamento da minha empresa ainda não permite isso, mas quero chegar lá. E é um volume de trabalho que não consigo nem descrever. E isso bagunça a sua rotina de contas, as finanças da sua família, tudo aquilo que, antes, podia ser organizado para você. Pro-labore? INSS? Lucros? Fazer as contas em porcentagens? Gente, sou de Humanas! E para quem um dia estudou para passar em um concurso da Secretaria da Fazenda, aprender Contabilidade Básica virou necessidade agora.

2: O assunto de cima ainda vai render posts, juro. O que eu queria falar nesse segundo ponto que ninguém fala nunca é sobre a questão de você trabalhar com o que você ama. Há um ano, eu escrevi um editorial completamente apaixonado, contando como eu estava feliz porque eu ia para Amsterdam tirar a certificação do GTD. Eu continuo tão (ou mais, se isso for possível) apaixonada por esse negócio. Eu respiro GTD. Eu como bloquinho de notas no café-da-manhã. Mas existe uma coisa que quase ninguém fala, quando você trabalha com o que você ama, que é o preço emocional que você paga por trabalhar com isso. Desde que eu comecei a empreender, eu nunca fiquei tantas vezes doente. E foram doenças muito loucas, tipo hipertensão, pneumonia, até dengue peguei (sei que não foi emocional, mas mesmo assim). Engordei de novo tudo o que tinha emagrecido anos atrás. Trabalho muito. Não me levem a mal: eu amo o que eu faço. Demais. Meu hobby é meu trabalho. Levo apostila de curso para ler na cama antes de dormir. Não trabalho de noite porque preciso, mas porque amo esse negócio.

E é aí que mora o perigo, eu penso. Porque justamente por você fazer do seu hobby o seu negócio, o limite deixa de existir. E assim, eu sei equilibrar as coisas (afinal, é o que eu ensino). Estou vivendo uma época em que nunca equilibrei tão bem as minhas atividades (aliás, várias pessoas têm notado e me dito isso). Mas foi justamente porque eu percebi esse segundo ponto há alguns meses e resolvi dar um passo atrás e tomar algumas atitudes que eu me permiti colocar certos limites a esse amor. Talvez quando eu tenha ficado doente mesmo. Ter ficado no hospital mexeu bastante comigo, e olha que nem foi tanto tempo.

Em poucos meses, consegui ter uma visão geral de tudo isso e uma perspectiva maior de médio e longo prazo que se refletiram de uma forma muito forte no meu presente, direcionando a maioria das minhas decisões. E, de repente, parece que eu me tornei uma gigante em poucos meses, estável como uma rocha, calma como um Buda no alto da montanha – apesar de ter enfrentado problemas cabeludíssimos este ano envolvendo família, finanças, trabalho, várias frentes. a administração da empresa e a responsabilidade por ela me tornou adulta de verdade, me deixou responsável no modo turbo da palavra – é difícil descrever.

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O editorial deste mês, que vai ser amplamente pautado no tema Feito com amor, vai ser sobre esse amor maduro, mas um amor que, acima de tudo, aceita quem a gente é, com os nossos defeitos, com as nossas fraquezas, mas reconhecendo os pontos fortes, indo à luta, não deixando a peteca cair. Fazer com amor significa não só fazer o que se ama, mas amar o que se faz, seja o que for, e isso é uma qualidade diária, que precisa ser intrínseca, quase um princípio, para fazer as coisas darem certo – ou só te fazer levantar da cama. Paixão é o que te faz empreender – amor é o que mantém a empresa viva, pagando as contas, crescendo, deixando um legado. Os netos da empresa são o legado que ela deixa, e eu estou louca para ter netinhos.

All my loving, I’ll send to you.

Este post demorou para entrar porque eu quase, quase desisti de publicá-lo. Ele é bastante pessoal. Mas eu penso, de verdade, que o amor deva ser essa coisa um pouco visceral mesmo, e acima de tudo, honesta. Eu ainda não descobri o melhor caminho para lidar com ela, mas todas as descobertas que eu fizer, eu quero compartilhar com vocês. Essa, sobre equilibrar as coisas, especialmente quando você faz o que você ama, foi não apenas fundamental como transformou a minha vida. Eu precisava compartilhar. Espero que ajude quem esteja passando por isso de alguma forma, porque não é fácil! No meu caminho, encontrei pessoas incríveis, mas pouca orientação. Bastante coisa vou aprendendo aos poucos, e assim é a vida.

Thais Godinho
01/06/2016
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