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Comprei a revista Você S/A de setembro (como sabem, gosto muito da revista) e, ao ler a coluna do Eugênio Mussak, tive a ideia para escrever este post. Ela já tinha sido estartada quando assisti um programa Saia Justa, no canal GNT, outro dia, quando falava um pouco sobre esse tema também.

O Eugênio escreve muito bem, e nesta coluna ele compara os conceitos matemáticos de MMC (mínimo múltiplo comum) com o novo conceito de MDA (mínimo desempenho aceitável) no trabalho. Basicamente, esse MDA é o nível de conforto que alguns profissionais atuam nas empresas – o mínimo de trabalho que você tem que fazer para não ser mandado embora. E, segundo o Eugênio, há muitos profissionais que fazem esse pacto com a mediocridade, trabalhando e fazendo esse mínimo, em vez de buscar o máximo (chamado de MDP – máximo desempenho possível).

Eu acho que vale a gente falar sobre esse assunto porque vem sendo criada uma pressão do protagonismo, ou seja – o mundo pressiona para que você seja o melhor, o mais feliz, o mais produtivo, o protagonista da sua vida, do seu trabalho. Confesso que já me senti muito assim. Eu tenho a séria tendência de me tornar workaholic porque amo trabalhar e costumo somente aceitar trabalhos que eu possa fazer com paixão, pois não funciono de outro modo. E estou sempre pensando em projetos novos, em melhorias para os já existentes, enfim… sou daquelas pessoas que não podem tomar muito café no escritório porque senão acaba sendo barrada pelo excesso de atividades.

Mas, no programa Saia Justa, levantou-se a questão: se o mundo é feito de protagonistas, onde eles atuam? Porque, para uma pessoa ser protagonista, significa que ela tem ao seu redor um montão de outras pessoas que não sejam. E é ok ser simplesmente o motorista de táxi que é feliz no dia a dia sem ter a ambição de ter uma frota inteira! Também é ok ser feliz em um trabalho sem que queira chegar a ser presidente da empresa.

Será que não estamos criando pessoas com expectativas altas demais? Especialmente quando falamos dessa geração mais nova, chamada de “mememe” (jogo de letras entre “mimimi” e “eueueu”), que são pessoas que estão crescendo com foco na felicidade e no “fazer somente o que eu quiser”? Essa geração já tem a tendência a se achar a última bolacha do pacote, mas com essa pressão para ser sempre o protagonista, será que não estamos, na verdade, criando uma geração de pessoas frustradas e com tendências depressivas?

Eu recebo muitas solicitações de entrevistas e consultoria para veículos de comunicação por causa do blog, e tento sempre fazer os próprios jornalistas refletirem um pouco antes de disseminarem ideias equivocadas. Sempre me perguntam: “Thais, como um profissional pode aumentar a sua produtividade?”. E eu sempre rebato com a questão: será que precisamos mesmo aumentar a produtividade dessas pobres pessoas? Já não estamos produzindo demais, trabalhando demais, vivendo de menos? Então sempre peço para que seja usado o termo melhorar a produtividade, porque, do meu ponto de vista, significa exatamente isso: saber gerenciar melhor o tempo, usá-lo para atividades úteis e atividades de descanso também, assim como atividades prazerosas ou simplesmente nenhuma atividade! O ócio também pode ser bom para nos trazer ideias, assim como a desconexão.

Entendo o ponto de vista do Eugênio porque certamente tem muito profissional que não sai de sua zona de conforto e isso prejudica não só as entregas da empresa e a falta de inovação, mas a própria carreira dele, que não evolui. Mas ele não precisa fazer o máximo, somente melhorar sua produtividade. Acho que é um ponto de atenção que devemos ter, pois talvez essa pressão para fazermos sempre mais mais mais, buscar sempre o máximo, pode nos levar a um resultado não tão legal (um infarto, por exemplo). Todo mundo já está sofrendo pressão demais. Quem tem a verve de trabalhar pra caramba e fazer acontecer, ao ler uma coisa dessas, pode ficar sempre se frustrando, achando que nunca está fazendo o suficiente. Não sei se vale a pena perpetuar esse pensamento em detrimento de um grupo que talvez sequer tenha interesse em comprar uma revista sobre seu trabalho (como no caso da Você S/A).

Em um mundo onde todo mundo quer ser protagonista, onde ficam as pessoas comuns? Elas também existem, é um equilíbrio. E tudo bem! Essa pressão por ser sempre o máximo ou o melhor acaba se tornando um desserviço à humanidade e até à saúde pública. Sou a favor da produtividade para termos realização pessoal, mas quando o foco deixa de ser essa realização para ser a produtividade em si, acredito que algo tenha se perdido pelo caminho.

Thais Godinho
16/10/2013
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