ou

Ter um blog é uma rua de duas vias. Tem o lado bom que é o de ter um canto seu para escrever, falar da vida, conhecer pessoas, trocar ideias. O lado ruim é que você acaba dando a sua cara a tapa publicamente, o que pode não ser muito legal para um monte de pessoas. Eu já tenho blog há tanto tempo que, sinceramente, aprendi a lidar com tudo isso. Às vezes recebo alguns comentários que são pura e simplesmente para falar “credo, que neurótica” ou “você deve ser chata com toda essa mania de organização” e por aí vai.

Então eu pego meu café, me distraio com os feeds e esqueço o assunto. Mas eu volto ao blog para responder os comentários (de toda forma) e me deparo com todos esses “julgamentos” novamente. E por que eu estou falando sobre isso? Vou explicar:

Eu tenho um diário de papel. Porque né, eu gosto de escrever, e não, acredito que as pessoas não devam escrever TUDO sobre as suas vidas na Internet. Ainda temos um pouco de privacidade no mundo off-line, obrigada. Outro dia estava relendo meu diário da época da gravidez, a morte do meu pai, o pós-parto. Durante uns três anos, eu estive em um estado bem diferente do que considero a minha identidade mesmo. Difícil explicar. Eu comentei um pouco no post onde falo como me tornei organizada: saí do meu emprego, radicalizei no minimalismo, questionei minha vida toda, enfim. Durante uns três anos, eu vivi em busca dessa identidade. Antes disso, quando eu trabalhava em uma agência de publicidade e tinha mil compromissos e projetos ao mesmo tempo, eu sempre estava naquele “estado” que o David Allen fala, que não deixa de ser uma coisa meio zen: você tem controle de tudo, consegue executar as coisas, e sua vida vai caminhando a passos largos, com os objetivos sendo cumpridos. Um dia eu decidi largar todos os meus métodos de organização e simplesmente viver! Foi como comentei naquele post: doei roupas, me desfiz de muita coisa. Tive tempo para ler, escrever mais, pintar, me intelectualizar. Foi um período importante mas, quando olho hoje, com um certo distanciamento, vejo como eu saí daquele estado que considerava estressante, sem levar em conta que ele era grande parte de mim e, por isso mesmo, não era estressante – era zen!

Parece um paradoxo? Pois bem. Depois de muito tempo vivendo sem objetivos planejados, com ações e metas definidas, aquilo sim se tornou estressante para mim. Li algumas coisas no meu diário que me assustaram porque fiquei me perguntando por que perdi tanto tempo na vida sem me aceitar como eu realmente sou, e nem falo sobre a influência de outras pessoas – falo sobre essa minha coisa de gostar de ser organizada e de repente ter largado tudo assim, achando que seria uma coisa boa. Ter largado todos os meus projetos, a verve toda que me mantinha correndo para lá e para cá, que me deixava feliz.

Meu filho nasceu, eu trabalhava em casa. Quando eu voltei a trabalhar em uma agência de publicidade, oito meses depois, eu fui voltando lentamente ao meu estado ativo, que hoje sei que é o meu estado zen de verdade! Essa semana estava em casa, de noite, escrevendo, e percebi como a minha vida está boa, no geral. É claro, óbvio, que tenho os meus problemas em todas as áreas da minha vida – chateações na área profissional, falta de dinheiro, projetos que não tenho condições de começar agora (mas queria), discussões bobocas em casa (que às vezes acontecem), enfim, as coisas do cotidiano mesmo que acontecem na vida de todos nós. Mas eu me vi no meu estado zen novamente, com todos os projetos em andamento, getting things done, parodiando o David Allen. E descobri que essa sou eu, e que a organização na verdade foi a forma que eu encontrei de ter a minha vida de acordo com o que acredito, pois consigo alcançar meus objetivos. Quando eu deixei a organização de lado, me vi em uma situação onde não parecia eu, com sérias consequências. Então fico feliz e satisfeita por estar aqui hoje.

Esses comentários que eu citei no início do post me deram um sorriso de canto de boca porque eu não sou nenhuma daquelas coisas, muito menos acredito em um “ideal de organização”. Eu não me importo se a minha mesa está cheia de papéis, contanto que eu saiba do que se trata cada um deles. Eu não me importo se o meu marido deixar a roupa suja no banheiro dele, porque isso não é mais importante que o nosso relacionamento. Eu me importo sim em deixar a minha vida passar sem estar aproveitando cada momento, e a organização me permite isso. Talvez não sirva para muitas pessoas, mas a minha experiência própria e com amigos, conhecidos, me mostrou que com um mínimo de organização todos nós podemos fazer acontecer, independente da quantidade de projetos e áreas de responsabilidade em nossas vidas e ainda mais independente do nível de organização que cada um de nós tem. Seja você uma pessoa com 16 anos que precisa se organizar para os estudos, uma dona de casa que tem mil projetinhos e hobbies, um pai que mora sozinho com o filho e chega tarde em casa sem ter tempo para nada nunca, uma senhora aposentada em busca de novas atividades, uma presidente de multinacional que engravidou ao mesmo tempo que precisa revolucionar a empresa, ou seja, todo mundo.

Isso não significa que você precisa ser uma pessoa viciada em organização, neurótica e tudo o mais. E, mesmo que seja, qual o problema? Cada um na sua. Uma coisa que os meus 30 anos de idade me trouxeram foi a maturidade para saber muito bem quem eu sou e o que eu deixo entrar na minha vida ou não, e principalmente as brigas que eu devo comprar. Já sei o que funciona para mim, e ser organizada é uma dessas coisas. Saber que cada um tem um modo de pensar e todo um background de vida que constrói a personalidade é outra. Eu acho que a busca pela nossa identidade é o único objetivo de vida fundamental.

“Às vezes as escolhas erradas nos levam aos lugares certos.” – Imagem retirada do Pinterest

Thais Godinho
26/07/2012
Veja mais sobre:
Minimalismo
65
Linkagem de domingo {77}
Como dobrar lençol com elástico
Dia anti-procrastinação!